14 de janeiro de 2015

Vergonhoso!


A ideia de amar Macau faz todo o sentido para mim.
Foi aqui que a minha vida mudou para muito melhor, foi aqui que constituí família, foi aqui que as minhas filhas nasceram, é aqui que estão a crescer, é aqui que planeio viver o resto da vida.
Vim para ficar dois anos, já cá estou há quase vinte, já me sinto Ou Mun Ian.
Por isso, mas também porque oriento a minha vida por valores dos quais não abdico, há momentos que me provocam uma imensa revolta,  que me revolvem as entranhas e me provocam o vómito.
Ouvir ontem Fong Chi Keong, na sua qualidade de deputado, em plena Assembleia Legislativa de Macau, na discussão da lei que criminaliza (crime público) a violência doméstica, defender a ideia que há pessoas que até gostam de apanhar uns tabefes, porque apimenta a relação, foi um desses momentos.
Não sei se Fong Chi Keong é sado-masoquista, nem quero saber.
O que sei é que não pode dizer estas barbaridades, que se repetem ciclicamente, sem quaisquer consequências.
Para completar o ramalhete, ouvir uma insossa subdirectora dos Serviços de Justiça dizer que uns puxões de cabelo, uns empurrões, umas leves chapadas, não são actos graves e não devem ser atendidos na tipificação da violência doméstica como crime público, ofende-me a mim, envergonha a Macau tolerante e inclusiva pela qual facilmente me apaixonei.
Numa época em que muito se fala de liberdade de expressão, dá vontade de dizer que há momentos em que é preciso mandar calar quem regurgita estas nojices que algures ruminou.
Fong Chi Keong é deputado nomeado pelo Chefe do Executivo, a subdirectora dos Serviços de Justiça é também nomeada pelo mesmo Chefe do Executivo.
Chefe do Executivo que não pode ouvir estes dislates e ficar mudo e quedo.
A menos que concorde com os mesmos.
O que não quero acreditar.
Simplesmente porque o Chefe do Executivo repetidamente afirma amar Macau.
E quem ama Macau não se pode rever nesta postura.

37 comentários:

  1. Comentários desses nos tempos que correm… bem… outros locais, outros costumes. Lamentavelmente.

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    1. Este senhor é useiro e vezeiro nesta postura, Catarina.
      Há quem lhe chame palhaço.
      Eu confesso que não consigo rir com estas barbaridades.
      O meu sentido de humor é muito diferente.

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    2. Parece que estes figurantes vão ressuscitando o desrespeito que nutrem pelo povo aí como por cá.
      Parece que alguns ficariam felizes em praticar a justiça pelas próprias mãos ou as de quem se presta para estes atentados.
      Estas afirmações dão vómitos...

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    3. Esta figurinha é inenarrável, luis.
      O Presidente da Assembleia Legislativa acabou por o mandar calar.
      Mas já ele tinha vomitado estas aberrações todas.

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  2. É vulgar dizer-se que a Humanidade está em declínio, em degradação, com desprezo de valores que deviam ser considerados sagrados e «irrevogáveis».Os dois casos que refere são condenáveis. A sua atitude é muito louvável. A tolerância não pode chegar ao ponto de deixar estes tipos impunes, do ponto de vista de crítica social.

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    1. Caro A. João Soares,
      Gostava de ver mais pessoas, e com maiores responsabilidades, puxar as orelhas a esta besta.
      Até porque já não é a primeira vez que se sai com dislates deste calibre.
      Grande abraço, votos de Bom Ano.

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  3. Bravo, nem mais!
    Chega de disparates...
    Mor

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    1. Mas era o Chefe do Executivo, que o nomeou, que lhe devia dizer isso, Mor.
      A ele a ela.
      Não me esqueço de, há muitos anos, o mesmo sujeito ter dado o recado de demolir o Aeroporto de Macau, remodelar o de Zuhai.
      Ganhava a partir este, a construir o outro, a ficar com toda aquela terra livre para poder ali construir e vender.
      Ganhava quatro vezes.
      Alguém lhe segredou ao ouvido que isso não se pode dizer e ele nunca mais repetiu a gracinha.
      Porque é que não lhe segredam ao ouvido que também não pode vomitar estes disparates que ofendem quem o ouve??

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    1. O slogan "Amar a Pátria, amar Macau" é repetido à exaustão, Angela.
      Esta terra é mágica (quem bebe a água da Fonte do Lilau fica enfeitiçado, diz-se).
      Eu fiquei.
      Há já muitos anos.
      E fico seriamente ofendido quando ouça esta escumalha ofender Macau e aquilo que tem de mais único - um espaço multicultural, de convivência, de respeito pelo outro.
      O oposto do que estes palermas apregoam.

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    2. O seu comentário leva-me a uma pergunta - a Angela também viveu em Macau?

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  5. Gajos e gajas como estes com pensamentos absurdos, surgem como cogumelos e a maioria a coberto de governos hipócritas. Levam-se eles o que muitos e muitas levam, que o discurso mudaria por completo!
    Cambada!!!!

    Beijos

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    1. Estes tontos ainda pensam que a violência doméstica se confina ao homem bater na mulher, Fatyly.
      Seria muito grave se fosse assim, é ainda mais grave porque não é só assim.
      No meio do discurso esta luminária ainda teve o desplante de dizer que, quando o homem quer, e a mulher não quer, há problemas e pode haver umas palmadas.
      Homem das cavernas, em bom rigor.
      Que nojo!
      Beijos

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  6. ~ Concordo inteiramente consigo.
    ~ É preciso que se faça algo com brevidade!
    ~ Que se ouça a voz dos mais esclarecidos, mesmo que seja na imprensa.
    ~ Que saibam que no mundo civilizado, nem é permitido maus tratos a animais.

    ~ ~ ~ Beijinhos. ~ ~ ~
    .

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    1. Uma lei que está a ser tratada aqui também, Majo.
      O imbecil não se pronunciou muito acerca dessa lei.
      Mas teve o desplante de sugerir que se recolhessem os jovens que andam à noite na rua da mesma forma que se recolhem os cães vadios (sic)
      Beijinhos

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  7. Houve uma época em que o lems era "só se perdem as que caem no chão". Parece-me ressurgir esse maneira de agir perante as frustrações pessoais até de muitos jovens. Preocupante!

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    1. Tenho vontade de dizer que, no caso dele, até seria assim, Agostinho :(

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    2. Voltei aqui e reparo na gralharia da escrita num smart...

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  8. Enfim, calados são grandes oradores, Pedro.

    Acompanho-o no seu repúdio e vomito às declarações proferidas por Fong Chi Keong e corroboradas pela subdirectora dos Serviços de Justiça de Macau.

    Aquele Abraço.

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    1. Esta gente existe, Ricardo.
      E ocupa altos cargos na Administração de Macau.
      Aquele abraço

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  9. Não há quem dê um par de bofetadas a Fong Chi Keong?
    Há cada um!!!
    Um abraço, Pedro.

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    1. Vontade não me falta, António.
      Mas isso seria descer ao nível primário e boçal dele.
      E eu recuso tal hipótese.
      Aquele abraço

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  10. Ontem, aqui, a advogada de um tipo que matoua mulher a tiro, porque não aceitou que ela o deixasse, dizia à comunicação social:
    É verdade que ele a matou, mas tem atenuantes, porque ela tirou-lhe o tapete.
    Creio que começa a haver um movimento de desculapblização da violência doméstica. Quiçá inspirado naquele juiz que disse que bater numa mulher, na medida certa, não é violência.

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    1. Nunca poderá haver desculpa para actos de violência no seio da família, Carlos.
      Venham de onde e de quem vierem.
      Para quem não compreende isso, aconselho que vejam o vídeo que hoje vou publicar (já tinha publicado no Facebook)

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  11. Lamentavelmente há muita gente que pensa assim, mas pessoas com essa responsabilidade é indesculpável e até criminoso.

    Beijinho

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  12. Para que essas alarvidades tivessem o devido e merecido repúdio geral, caberia à Imprensa criticar severamente essas declarações do homem, ou, como alternativa, a imediata oposição dos outros deputados presentes.

    Pelos vistos, ao estudar os trâmites legais que irão penalizar, aí em Macau, a violência doméstica, só não vai valer matar e tirar olhos...

    Revoltante, mesmo, Pedro! Para quem ama Macau e para quem tem vergonha na cara.

    Não há bela sem senão...! :((

    Beijinhos.

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    1. Janita,
      A comunicação social em língua portuguesa exprimiu alto e bom som a sua revolta.
      A comunicação social em língua chinesa passou ao lado da questão.
      O que também me entristece sobremaneira.
      Não há mesmo bela sem senão :(
      Beijinhos

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  13. É muita estupidez de uma só vez!!!
    Revoltante.xx

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  14. Boa noite Pedro, não nunca tive essa alegria de visitar Macau, mas fazia parte das minhas aulas quando andava na escola, sem qualquer nostalgia de algum tempo de colónia! Simplesmente penso que as pessoas têm o direito de "amar" esses países que guardam memórias e vivências do nosso modo de viver, arquitetura, arte, língua portuguesa, seria trágico se não houvesse amor por parte dos portugueses.


    e pelos textos (em língua inglesa por exemplo) pelas imagens e vídeos é-nos dito que Macau é considerada a cidade "ocidental" mais bem conservada da Ásia com uma vivência multicultural bem sucedida.
    abraço
    Angela

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    1. A Macau que eu conheci há 20 anos já não existe e não voltará a existir, Angela
      Esta, a nova, a Meca do Jogo, tem outro tipo de sedução.
      Mas também apresenta faces bem negras.
      A paixão ainda existe.
      E resiste à desilusão que por vezes se instala.

      Se puder, não deixe de visitar.
      Vale a pena.

      Abraço

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  15. Compreendo a sua revolta, Pedro! Mas, mesmo vivendo aí há 20 anos, não consegue - e ainda bem - esquecer a sua intrínseca cultura ocidental. Os orientais, por muito "civilizados" e tolerantes que se digam, têm inculcadas determinadas formas de ver as coisas que em muito se afastam das nossas.
    Beijinhos ocidentais...

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    1. A prova do acertado do que escreve está no silêncio barulhento da comunicação social em língua chinesa acerca destas barbaridades, Graça :(
      Beijinhos

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  16. Acho que a insanidade dessas criaturas é de arrepiar, principalmente porque estão em lugares públicos de importância !!

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    1. O primeiro a dizer que não via necessidade de tipificar os actos de violência doméstica como crime público foi o Chefe do Executivo, São.
      Quando o exemplo que vem de cima é este.....

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