21 de maio de 2013

Holanda pode provocar o colapso do euro (Matthew Lynn, El Economista)




A bolha imobiliária estourou, o país está em recessão, o desemprego sobe e a dívida dos consumidores é 250% do rendimento disponível. O grande aliado da Alemanha na imposição da austeridade por todo o continente começa a provar o amargo da sua própria receita. Por Matthew Lynn, El Economista
ARTIGO | 13 MAIO, 2013 

A Holanda começa a provar o amargo da austeridade que o seu ministro das Finanças quer aplicar em toda a Europa. 

Que país da zona euro está mais endividado? Os gregos esbanjadores, com as suas generosas pensões estatais? Os cipriotas e os seus bancos repletos de dinheiro sujo russo? Os espanhóis tocados pela recessão ou os irlandeses em falência? Pois curiosamente são os holandeses sóbrios e responsáveis. A dívida dos consumidores nos Países Baixos atingiu 250% do rendimento disponível e é uma das mais altas do mundo. Em comparação, a Espanha nunca superou os 125%.
A Holanda é um dos países mais endividados do mundo. Está mergulhada na recessão e demonstra poucos sinais de estar a sair dela. A crise do euro arrasta-se há três anos e até agora só tinha infetado os países periféricos da moeda única. A Holanda, no entanto, é um membro central tanto da UE quanto do euro. Se não puder sobreviver na zona euro, estará tudo acabado.
O país sempre foi um dos mais prósperos e estáveis de Europa, além de um dos maiores defensores da UE. Foi membro fundador da união e um dos partidários mais entusiastas do lançamento da moeda única. Com uma economia rica, orientada para as exportações e um grande número de multinacionais de sucesso, supunha-se que tinha tudo a ganhar com a criação da economia única que nasceria com a introdução satisfatória do euro. Em vez disso, começou a interpretar um guião tristemente conhecido. Está a estourar do mesmo modo que a Irlanda, a Grécia e Portugal, salvo que o rastilho é um pouco mais longo.
Bolha imobiliária
Os juros baixos, que antes do mais respondem aos interesses da economia alemã, e a existência de muito capital barato criaram uma bolha imobiliária e a explosão da dívida. Desde o lançamento da moeda única até o pico do mercado, o preço da habitação na Holanda duplicou, convertendo-se num dos mercados mais sobreaquecidos do mundo. Agora explodiu estrondosamente. Os preços da habitação caem com a mesma velocidade que os da Flórida quando murchou o auge imobiliário americano.
Atualmente, os preços estão 16,6% mais baixos do que estavam no ponto mais alto da bolha de 2008, e a associação nacional de agentes imobiliários prevê outra queda de 7% este ano. A não ser que tenha comprado a sua casa no século passado, agora valerá menos do que pagou e inclusive menos ainda do que pediu emprestado por ela.
Por tudo isso, os holandeses afundam-se num mar de dívidas. A dívida dos lares está acima dos 250%, é maior ainda que a da Irlanda, e 2,5 vezes o nível da da Grécia. O governo já teve de resgatar um banco e, com preços da moradia em queda contínua, o mais provável é que o sigam muitos mais. Os bancos holandeses têm 650 mil milhões de euros pendentes num sector imobiliário que perde valor a toda a velocidade. Se há um facto demonstrado sobre os mercados financeiros é que quando os mercados imobiliários se afundam, o sistema financeiro não se faz esperar.
Profunda recessão
As agências de rating (que não costumam ser as primeiras a estar a par dos últimos acontecimentos) já se começam a dar conta. Em fevereiro, a Fitch rebaixou a qualificação estável da dívida holandesa, que continua com o seu triplo A, ainda que só por um fio. A agência culpou a queda dos preços da moradia, o aumento da dívida estatal e a estabilidade do sistema bancário (a mesma mistura tóxica de outros países da eurozona afetados pela crise).
A economia afundou-se na recessão. O desemprego aumenta e atinge máximos de há duas décadas. O total de desempregados duplicou em apenas dois anos, e em março a taxa de desemprego passou de 7,7% para 8,1% (uma taxa de aumento ainda mais rápida que a do Chipre). O FMI prevê que a economia vai encolher 0,5% em 2013, mas os prognósticos têm o mau costume de ser otimistas. O governo não cumpre os seus défices orçamentais, apesar de ter imposto medidas severas de austeridade em outubro. Como outros países da eurozona, a Holanda parece encerrada num círculo vicioso de desemprego em aumento e rendimentos fiscais em queda, o que conduz a ainda mais austeridade e a mais cortes e perda de emprego. Quando um país entra nesse comboio, custa muito a sair dele (sobretudo dentro das fronteiras do euro).
Até agora, a Holanda tinha sido o grande aliado da Alemanha na imposição da austeridade por todo o continente, como resposta aos problemas da moeda. Agora que a recessão se agrava, o apoio holandês a uma receita sem fim de cortes e recessão (e inclusive ao euro) começará a esfumar-se.
Os colapsos da zona euro ocorreram sempre na periferia da divisa. Eram países marginais e os seus problemas eram apresentados como acidentes, não como prova das falhas sistémicas da forma como a moeda foi estruturada. Os gregos gastavam demasiado. Os irlandeses deixaram que o seu mercado imobiliário se descontrolasse. Os italianos sempre tiveram demasiada dívida. Para os holandeses não há nenhuma desculpa: eles obedeceram a todas as regras.
Desde o início ficou claro que a crise do euro chegaria à sua fase terminal quando atingisse o centro. Muitos analistas supunham que seria a França e, ainda que França não esteja exatamente isenta de problemas (o desemprego cresce e o governo faz o que pode, retirando competitividade à economia), não deixa de continuar a ser um país rico. As suas dívidas serão altas mas não estão fora de controlo nem começaram a ameaçar a estabilidade do sistema bancário. A Holanda está a chegar a esse ponto.
Talvez se tenha de esperar um ano mais, talvez dois, mas a queda ganha ritmo e o sistema financeiro perde estabilidade a cada dia. A Holanda será o primeiro país central a estourar e isso significará demasiada crise para o euro.
Matthew Lynn é diretor executivo da consultora londrina Strategy Economics.
Publicado originalmente em El Economista, republicado em Jaque al Neoliberalismo.

10 comentários:

  1. Esses incompetentes ainda não viram o veneno que produziram para matar a actual sociedade e a Europa.
    Morrerão atolados no próprio veneno.
    Desejo que todos esses assassinos sejam duplamente atingidos pelo mal que causaram...

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    1. O que é mais curioso é que não se trata de um desses países cheios de preguiçosos e corruptos, luis.
      Trata-se do aliado fidedigno da Alemanha de Merkel.
      A vida tem destas ironias, não é?

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  2. Aqui está algo que me deixa surpresa, não fazia de todo ideia, mas ao mesmo tempo era de esperar, a recessão é como as peças do Dominó que vão caindo, assim que começou seria dificil de parar, e vão cair todos. Ontem ouvia uns comentários em que se constatava que o continente europeu era o único continente que não apresentava crescimento económico... Acho isso muito revelador...

    Inevitável também recordar-me de uma reportagem em que certa vez uns jornalistas entrevistavam um casal de holandeses e eles demonstraram e bem, o seu desdém pela nossa cultura, lembro-me bem deles apontarem o dedo a uma coisa simples como... "ah e tal, parece impossível que num país pobre se vejam os restaurantes cheios em dias de semana à hora de almoço" enquanto proclamavam o seu óptimo exemplo de que almoçavam uma sandocha que levavam numa marmita, o que eles se esquecem é que esse género de práticas coloca a economia a girar, e que, as pessoas podem se ter endividado por muitas razões, mas ninguém se endividou para fazer as suas refeições diárias.
    Quanto a mim perderam uma óptima oportunidade de estar calados, e este género de noticias vem confirmar que chega também de nos auto acusarmos de ser esbanjadores e blá blá blá, podemos ter sido, mas o problema não foi por aí, até nos acusam de ser pouco produtivos, mas volto ao velhinho exemplo da agricultura, quem é que nos impôs limites na produção?
    É nestes momentos que eu tenho pena de não saber um pouquinho mais sobre estes assunto, porque são de facto interessantes, mas mesmo assim e com conhecimentos MUITO limitados sobre o assunto, para mim esta é a prova de que falharam, como um todo, a União Europeia falhou, não porque o projecto fosse mau, mas porque foi mal implementado, como se pode ter a mesma moeda no mesmo espaço, quando a mesma acaba por ter valores diferentes consoante o sitio onde é usada? E claro a austeridade a longo prazo só serve para tornar as pessoas mais pobres, hoje pode safar as grandes empresas, mas a longo prazo nem essas serão poupadas.

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    1. A vida dá-nos cada lição Poppy.
      Os grandes aliados da Alemanha afinal também estão na m#%^*
      E esta, hein?!!

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  3. Um artigo muito interessante que me fez lembrar um poema de Bertold Brecht: "primeiro levaram os negros, mas não me importei com isso..."

    Vamos ver no que isto dá, mas não auguro nada de bom!

    Beijocas!

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    1. Vou publicar hoje, Teté.
      Com uma actualização.
      Beijocas!

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  4. Tinha lido o artigo e pensava escrever um post sobre o assunto, mas entretanto fui desviado para outros asuntos. A seguir à Holanda outros virão e quando a Europa acordar vai ser tarde.
    Hoje o Gaspar vai ao beija mão do Schaueble

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    1. E enquanto andam distraídos, enquanto a orquestra toca, o barco vai afundando.
      Ninguém aprendeu nada com o Titanic?

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  5. É natural que o barco se afunde. A União Europeia é um mero instrumento da Alemanha para manter e, se possível, alargar a sua hegemonia económica e tecnológica. Segundo o diário alemão Der Spiegel ("Deutscher Spitzenbeamter in Brüssel unter Korruptionsverdacht" - "Alto funcionário alemão em Bruxelas sob suspeita de corrupção" - de 11.09.2008), o Estado alemão até avalia os altos funcionários alemães da Comissão Europeia, uma instituição independente do Estado alemão que tem funcionários supostamente independentes de acordo com o Estatuto dos mesmos. Mas as recomendações e decisões do Provedor de Justiça Europeu, como por exemplo no caso 2365/2009/(MAM)KM (http://www.ombudsman.europa.eu/cases/decision.faces/en/12442/html.bookmark), passam despercebidas. Aliás, tenho a impressão que o próprio Provedor quer que passem despercebidas, já que ele tem o hábito de demorar vários anos para tomar uma decisão nos casos mais comprometedores e tenta desvalorizar práticas inaceitáveis. Se alguém tiver curiosidade, pode pedir ao Provedor os documentos do caso 2365/2009 (dá mais trabalho, mas é a melhor maneira de se formar uma opinião sem ser através do filtro das recomendações e decisão do provedor) e garanto que quem ler estes documentos ficará bem-humorado com as explicações hilariantes da Comissão Europeia.

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    1. Anónimo,
      Posso apostar que é um Anónimo de Macau e com as iniciais JCM? :)
      Com esta excelência de comentário, só pode.
      Por favor, volte sempre e comente sempre.
      Grande abraço!

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