Há sempre alguém que diz não


Volodymyr Zelensky é um traquina, um reguila. 
Que dá lições de vida a uma Europa medrosa, uns Estados Unidos erráticos e uma Rússia embrutecida.
Não sei se Volodymyr Zelensky leu Manuel Alegre. 
Mas Volodymyr Zelensky sabe que há sempre alguém que diz não.
O líder ucraniano vai ficar na História, essa é a única certeza que tenho. 
David dos tempos modernos, Volodymyr Zelensky não se assustou com os vários Golias à sua volta.
E, com a sua coragem (“preciso de armas, não preciso de boleia”), contagiou o povo ucraniano. 
Volodymyr Zelensky começou por enfrentar Putin e a toda poderosa Rússia. 
Uma batalha perdida, dizia-se, muito à boleia do jogo de percepções e da guerra mediática que Putin vem desenvolvendo. 
Zelensky não se assustou.
Pelo contrário, quem se assustou foi Putin, o primeiro a perceber a fibra daquele que era apresentado apenas como o palhaço ucraniano.
E Putin tudo tentou, e tenta, para o afastar desde então. 
Com o avanço das tropas russas no terreno, as vozes que pressionavam Zelensky no sentido da cedência, da capitulação, aumentaram de tom e de volume.
Até dentro dos países que supostamente apoiavam a Ucrânia.
Depois de Anchorage o ruído passou a ser ensurdecedor.
Mas não chegava à Ucrânia e aos seus bravo povo e líder. 
O cobarde americano, endividado perante a Rússia (um dia saberemos exactamente porquê…), querendo apresentar-se como o grande promotor da paz, estava disposto a entregar a Ucrânia numa bandeja dourada ao czar russo.
No terreno, na frente de batalha, nas conversas de gabinete (por mais publicamente maltratados que fossem), os ucranianos diziam não.
Enquanto se defendiam como podiam de um agressor bruto e boçal e esperavam por um apoio militar europeu prometido mas nunca entregue.
Percebendo que aos americanos podia comprar armamento através dos europeus, Zelensky redefiniu as suas prioridades. 
A cobardia europeia só poderia garantir dinheiro aos ucranianos (os europeus têm medo de Putin), a cobiça americana garantia armamento comprado, a solução seria reinventar a guerra.
E foi o que fez Zelensky e os ucranianos.
A Ucrânia passou a produzir o seu próprio armamento, desobedeceu a europeus e americanos e abandonou uma estratégia puramente defensiva para passar para uma estratégia de contra ataque.
A guerra foi levada para dentro da Rússia, o jogo mediático e de percepções do Kremlin passou a ser desmascarado no interior do território russo.
Na frente de batalha não há avanços das tropas russas (há até algum recuo…) e na Rússia são atingidos alvos estratégicos com uma precisão e periodicidade notáveis. 
Donald Trump, sempre tão vocal, fica a assistir para se poder colocar do lado vencedor, seja ele qual for. 
Os europeus continuam a reter armamento, a despejar dinheiro, a titubear nas suas decisões, a ter medo da narrativa e das ameaças russas. 
Putin está encurralado. 
Não pode desistir ou assinar um acordo (com quem???) que não possa vender como uma grande vitória. 
Pressionado pela Ucrânia, incapaz de avançar no terreno, pressionado internamente (afinal a “operação especial” já leva mais tempo que a primeira guerra mundial, a tal que acabou com a revolta dos russos), Putin está desesperado. 
Sobretudo porque percebe que Zelensky e o povo ucraniano não o receiam, o enfrentam, não lhe fogem, recusam sair, sabem dizer não. 
Um povo e um líder que reinventaram a guerra, deram novo significado à palavra coragem, ao verdadeiro sentimento patriótico.
Notável. 

Comentários

  1. Respostas
    1. Quem diria que Zelensky tinha esta fibra, Catarina??
      Impressionante.

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    2. Inicialmente, era visto apenas como o comediante. Os críticos “barrocos” não nos deixavam esquecer a sua primeira profissão. Mentes tacanhas e limitadas. Sabe aquelas pessoas que só gostam de criticar de forma destrutiva? Antes de ver o bem, preferem ver o mau?
      Afinal, ele tem provado ser um indivíduo corajoso e dedicado.

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    3. Um verdadeiro líder, Catarina.
      Não há muitos.
      E aparecem quando e onde menos se espera.

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