23 de maio de 2017

As notícias na televisão (António Barreto)


É simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão é pena capital. A banalidade reina. O lugar-comum impera. A linguagem é automática. A preguiça é virtude. O tosco é arte. A brutalidade passa por emoção. A vulgaridade é sinal de verdade. A boçalidade é prova do que é genuíno. A submissão ao poder e aos partidos é democracia. A falta de cultura e de inteligência é isenção profissional.
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Os serviços de notícias de uma hora ou hora e meia, às vezes duas, quase únicos no mundo, são assim porque não se pode gastar dinheiro, não se quer ou não sabe trabalhar na redacção, porque não há quem estude nem quem pense. Os alinhamentos são idênticos de canal para canal. Quem marca a agenda dos noticiáriossão os partidos, os ministros e os treinadores de futebol. Quem estabelece os horários são as conferências de imprensa, as inaugurações, as visitas de ministros e os jogadores de futebol.

Os directos excitantes, sem matéria de excitação, são a jóia de qualquer serviço. Por tudo e nada, sai um directo. Figurão no aeroporto, comboio atrasado, treinador de futebol maldisposto, incêndio numa floresta, assassinato de criança e acidente com camião: sai um directo, com jornalista aprendiza falar como se estivesse no meio da guerra civil, a fim de dar emoção e fazer humano.

Jornalistas em directo gaguejam palavreado sobre qualquer assunto: importante e humano é o directo, não editado, não pensado, não trabalhado, inculto, mal dito, mal soletrado, mal organizado, inútil, vago e vazio, mas sempre dito de um só fôlego para dar emoção! Repetem-se quilómetros de filme e horas de conversa tosca sobre incêndios de florestas e futebol. É o reino da preguiça e da estupidez.

É absoluto o desprezo por tudo quanto é estrangeiro, a não ser que haja muitos mortos e algum terrorismo pelo caminho. As questões políticas internacionais quase não existem ou são despejadas no fim. Outras, incluindo científicas e artísticas, são esquecidas. Quase não há comentadores isentos, ou especialistas competentes, mas há partidários fixos e políticos no activo, autarcas, deputados, o que for, incluindo políticos na reserva, políticos na espera e candidatos a qualquer coisa! Cultura? Será o ministro da dita. Ciência? Vai ser o secretário de Estado respectivo. Arte? Um director-geral chega.

Repetem-se as cenas pungentes, com lágrima de mãe, choro de criança, esgares de pai e tremores de voz de toda a gente. Não há respeito pela privacidade. Não há decoro nem pudor. Tudo em nome da informação em directo. Tudo supostamente por uma informação humanizada, quando o que se faz é puramente selvagem e predador. Assassinatos de familiares, raptos de crianças e mulheres, infanticídios, uxoricídios e outros homicídios ocupam horas de serviços.

A falta de critério profissional, inteligente e culto é proverbial. Qualquer tema importante, assunto de relevo ou notícia interessante pode ser interrompido por um treinador que fala, um jogador que chega, um futebolista que rosna ou um adepto que divaga.

Procuram-se presidentes e ministros nos corredores dos palácios, à entrada de tascas, à saída de reuniões e à porta de inaugurações. Dá-se a palavra passivamente a tudo quanto parece ter poder, ministro de preferência, responsável partidário a seguir. Os partidos fazem as notícias, quase as lêem e comentam-nas. Um pequeno partido de menos de 10% comanda canais e serviços de notícias.

A concepção do pluralismo é de uma total indigência: se uma notícia for comentada por cinco ou seis representantes dos partidos, há pluralismo! O mesmo pode repetir-se três ou quatro vezes no mesmo serviço de notícias! É o pluralismo dos papagaios no seu melhor!

Uma consolação: nisto, governos e partidos parecem-se uns com os outros. Como os canais de televisão.

28 comentários:

  1. Concordo com tudo o que António Barreto disse. Não admira pois que eu não queira ter acesso aos canais televisivos portugueses.

    Boa noite.😴😴😴

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    1. Aqui só passa a RTP internacional, Catarina.
      E é uma boa m....@.
      Boa noite, sonhos cor-de-rosa.

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  2. Deveria dizer que estou de acordo, se não tivesse deixado de ver TV há muito tempo.
    Um abraço

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    1. Contam-se pelos dedos de uma mão (e sobram dedos) os programas de televisão que aqui vejo, Elvira Carvalho.
      Já fui um grande consumidor de televisão.
      Agora sou o oposto.
      Um abraço

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  3. há uma senhora nos comentários que escreveu:
    ....Tantas vezes se disse e ainda hoje assim é: "Para o mal vingar basta que os homens do bem nada façam". E é assim que continuamos....
    bom dia Pedro !

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    1. Infelizmente tenho que concordar, Angela.
      Quem me dera não concordar.
      Um bom dia para Portugal.

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  4. Uma óptima constatação.
    Mas, e depois? Muda alguma coisa?

    Eu já não me dou ao trabalho de ver os serviços noticiosos. Precisamente por tudo isto! A banalidade, e a relevância que a banalidade ganha em relação ao que é importante, relegado para segundo plano! Procuro informações noutros lados, porque a televisão não informa...
    ...despeja informação na maior parte das vezes sem consubstanciação!

    :)

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    1. Um cenário tão mais incompreensível quanto nos dias de hoje a informação se encontrar rigorosamente em toda a parte, Cláudio Gil.
      Devia ser ao contrário, não devia? Devia haver cada vez mais rigor dos meios de comunicação tradicionais.

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    1. Acho que é mesmo essa a intenção, Lina :(

      O comentário também se ajusta ao post anterior (NES e o FCP).

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  6. Caro Amigo Pedro Coimbra.
    Para não ficar apoquentado raramente me entretenho com programas televisivos.
    Caloroso abraço. Saudações seletivas.
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento e do bem viver, sem véus, sem ranços, com muita imaginação, autenticidade e gozo.

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    1. Das poucas coisas que aqui vejo na televisão são os noticiários locais, Amigo João Paulo de Oliveira.
      O resto também não me desperta atenção.
      Aquele abraço

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  7. Ate o final do ano passado aqui em Perth ainda tinhamos as noticias diarias da RTP1 (meia hora) num dos canais televisivos onde so passam noticias de varios paises. Mas pelos vistos os Portugueses nao sao suficientes para manter esse programa noticioso,de maneira que ja nada ha em Portugues! Tambem so era politica e mais politica...

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    1. Aqui apanhamos a RTP internacional, Sami.
      Mas é tão mau que até envergonha.

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  8. Por de trás da informação impera aqueles que lideram consoantes os interesses pessoais!

    Boa semana Pedro.

    Um beijinho

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    1. Por isso é que cada vez mais as pessoas recorrem a plataformas alternativas em detrimento das plataformas tradicionais, Adélia.
      Beijinhos, boa semana

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  9. Cá para mim, o Barreto lê o CR (Gaba-te cesta :-))

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    1. Olhe o que eu respondi à Adélia, Carlos.
      Como dizia o outro, "tou certo ou tou errado"?

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  10. Concordo daí eu preferir ler por aqui do que aguentar o matraquear das notícias.

    Beijocas

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    1. Dai que se fale constantemente em crise dos meios de comunicação tradicionais, Fatyly.
      Vê-se cada coisa!!
      Beijocas

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  11. Nunca li uma crónica tão completa e verdadeira...
    Vejo muito pouco TV e quando ligo o aparelho fico enjoada...
    Vou publicá-la no dia 31 de Maio, dia mundial das comunicações sociais...
    Beijinhos e melhoras.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. O António Barreto é um homem livre, muito inteligente é muito culto.
      Gente assim é um perigo, Majo.
      Beijinhos

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  12. Excelente! Excelente ! Excelente !

    Retrato mais que perfeito da dita comunicação social em Portugal.

    Bom resto de semana

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    1. Como só o António Barreto consegue fazer, São.

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  13. Grande, grande Senhor! Gosto muito dos textos dele, mas sou suspeita, porque ele é Duriense como eu. Mas é sem dúvida uma das poucas pessoas com opinião e uma imagem respeitável no panorama nacional.

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  14. É o que escreveu AB é muito mais.
    Há muito que me interrogo sobre o papel desempenhado pelas televisões.
    Aquilo que apresentam é um insulto a qualquer pessoa com um mínimo de inteligência.
    Esta semana, na "cobertura" instantânea e direta do atentado terrorista de Manchester, dei-me ao trabalho de acompanhar o mimo debitado por uma felozina em estúdio, assessorada inicialmente por sr comentador vitalício, e imagens no ecrã repetidas até à náusea. Andaram uma hora e tal a discorrer sobre o que viam, a dizer disparates, até que desisti e me fui deitar.
    Não seria mais honesto interromper, fazer trabalho de investigação e redacção e só depois retomar a apresentação dos desenvolvimentos entretanto ocorridos?
    Abraço.

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    1. Por isso perdem audiência, por isso plataformas alternativas crescem, Agostinho.
      Não há acasos nestas situações.

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