14 de fevereiro de 2017

A opinião duma brasileira sobre Portugal


Dentre as coisas que mais detesto, duas podem ser destacadas: ingratidão e pessimismo.Sou incuravelmente grata e otimista e, comemorando quase 2 anos em Lisboa, sinto que devo a Portugal o reconhecimento de coisas incríveis que existem aqui — embora pareça-me que muitos nem percebam.
Não estou dizendo que Portugal seja perfeito. Nenhum lugar é. Nem os portugueses são, nem os brasileiros, nem os alemães, nem ninguém. Mas para olharmos defeitos e pontos negativos basta abrir qualquer jornal, como fazemos diariamente. Mas acredito que Portugal tenha certas características nas quais o mundo inteiro deveria inspirar-se.
Para começo de conversa, o mundo deveria aprender a cozinhar com os portugueses. Os franceses aprenderiam que aqueles pratos com porções minúsculas não alegram ninguém. Os alemães descobririam outros acompanhamentos além da batata. Os ingleses aprenderiam tudo do zero.
Bacalhau e pastel de nata? Não. Estamos falando de muito mais. Arroz de pato, arroz de polvo, alheira, peixe fresco grelhado, ameijoas, plumas de porco preto, grelos salteados, arroz de tomate, baba de camelo, arroz doce, bolo de bolacha, ovos moles. Mais do que isso, o mundo deveria aprender a se relacionar com a terra como os portugueses se relacionam. Conhecer a época das cerejas, das castanhas e da vindima. Saber que o porco é alentejano, que o vinho é do douro.Talvez o pequeno território permita que os portugueses conheçam melhor o trajeto dos alimentos até a sua mesa, diferente do que ocorre, por exemplo, no Brasil. O mundo deveria saber ligar a terra à família e à história como os portugueses. A história da quinta do avô, as origens trasmontanas da família, as receitas típicas da aldeia onde nasceu a avó. O mundo não deveria deixar o passado escoar tão rapidamente por entre os dedos. E se alguns dizem que Portugal vive do passado, eu tenho certeza de que é isso o que os faz ter raízes tão fundas e fortes.
O mundo deveria ter o balanço entre a rigidez e o afeto que têm os portugueses.De nada adiantam a simpatia e o carisma brasileiros se eles nos impedem de agir com a seriedade e a firmeza que determinados assuntos exigem. O deputado Jair Bolsonaro, que defende ideias piores que as de Donald Trump, emergiu como piada e hoje se fortalece como descuido no nosso cenário político. Nem Bolsonaro nem Trump passariam em Portugal .Os portugueses- de direita ou de esquerda — não riem desse tipo de figura, nem permitem que elas floresçam. Ao mesmo tempo, de nada adianta o rigor japonês que acaba em suicídio, nem a frieza nórdica que resulta na ausência de vínculos. Os portugueses são dos poucos povos que sabem dosar rigidez e afeto, acidez e doçura, buscando sempre a medida correta de cada elemento, ainda que de forma inconsciente.
Todo país do mundo deveria ter uma data como o 25 de abril para celebrar. Se o Brasil tivesse definido uma data para celebrar o fim da ditadura, talvez não observássemos com tanta dor a fragilidade da nossa democracia. Todo país deveria fixar o que é passado e o que é futuro através de datas como essa.Todo idioma deveria carregar afeto nas palavras corriqueiras como o português de Portugal carrega. Gosto de ser chamada de miúda. Gosto de ver os meninos brincando e ouvir seus pais chama-los carinhosamente de putos. Gosto do uso constante de diminutivos. Gosto de ouvir ”magoei-te?” quando alguém pisa no meu pé. Gosto do uso das palavras de forma doce.
O mundo deveria aprender a ter modéstia como os portugueses -embora os portugueses devessem ter mais orgulho desse país do que costumam ter.Portugal usa suas    melhores características para aproximar as pessoas, não para afastá-las. A arrogância que impera em tantos países europeus, passa bem longe dos portugueses.
O mundo deveria saber olhar para dentro e para fora como Portugal sabe.Portugal não vive centrado em si próprio como fazem os franceses e os norte americanos. Por outro lado, não ignora importantes questões internas, priorizando o que vem de fora, como ocorre com tantos países colonizados.
Portugal é um país muito mais equilibrado do que a média e é muito maior do que parece.Acho que o mundo seria melhor se fosse um pouquinho mais parecido com Portugal.Essa sorte, pelo menos, nós brasileiros tivemos.


Ruth Manus ( é advogada e professora universitária e assina um blogue no Estado de São Paulo, Retratos)

20 comentários:

  1. Já conhecia.
    Sei que visto de fora não se lhe notam certas chagas mas também padecemos do velho mal: "a galinha da minha vizinha..."
    Abraço.

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    1. Se calhar só quando se sai de Portugal, e se vive longe, se dá o devido valor ao País, Agostinho.
      Tem defeitos?
      Tem, como todos os outros.
      Mas tem TANTAS qualidades.
      Aquele abraco

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  2. Que bom! É claro que temos muitas qualidades. Mania que temos de nos rebaixarmos por vezes...
    Um abraço.

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    1. Esta tarde falava com um colega de origem paquistanesa, com nacionalidade portuguesa, que viveu toda a vida em Macau, muçulmano, filho do Ímã aqui em Macau, que me dizia que o país em que se sentia melhor, ele e a família, era Portugal.
      Quantas vezes precisamos de ouvir isto para perceber que temos uma Pátria extraordinária, Elisabete?
      Um abraço

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  3. Olá Pedro
    é verdade que na internet os brasileiros são muito expressivos!
    nós refletimos mais para dentro !
    Angela

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    1. Faz bem ao ego ver alguém elogiar Portugal assim, Angela.

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  4. Temos uma Pátria extraordinária, Pedro, mas 20% da população emigrou! Qual é a explicação para estas estatísticas? O aumento de emigrantes – nas últimas décadas – tem sido superior ao crescimento da população que reside em Portugal.

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    1. Na grande maioria dos casos a falta de oportunidades em Portugal e condições económicas e financeiras muito mais atractivas nos locais de acolhimento.
      Foi e é assim comigo, por exemplo.

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    2. Compreendo perfeitamente, Pedro. Por isso, a nossa Pátria não é assim tão extraordinária. A hospitalidade da nossa gente não é motivo de discussão, nem o sol, nem as praias, nem as lindas paisagens.

      “Nem só de pão viverá o homem/mulher” – eu sei! Mas sem pão não se poderá viver...

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    3. Catarina,
      Os chamados paraísos terrestres deram todos um resultado extraordinário, como todos sabemos.
      Não há paraísos terrestres.
      Portugal também não o é.
      E os males são muito facilmente detectáveis.

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  5. Pela minha experiência que adquiri viajando por esse mundo fora, acho que a autora do texto tem toda a razão.
    Somos bons, o problema é que não sabemos valorizar o que temos, o que somos e o que fazemos.

    Beijos Pedro

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    1. Pelo contrário, Manu.
      Quantas vezes não somos nós os primeiros a deitar abaixo o que é nosso?
      Quantas vezes não ouvimos a expressão "Só neste país..."?
      Beijos

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  6. Caro Amigo Pedro Coimbra.
    Com sabes sou lusófilo de carteirinha e,inclusive, quando mantenho colóquios cibernéticos convosco tento escrever à lusitana.
    Isto posto, assino embaixo o comentário da minha perspicaz patrícia.
    Vossos patrícios são muito diretos quando indagados sobre algo e vão direto ao ponto o que, a princípio, pode parecer que são rudes, mas depois que nos acostumamos percebemos que não gostam de rodeios e respondem sem titubear.
    Caloroso abraço. Saudações lusófilas.
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento e do bem viver, sem véus, sem ranços, com muita imaginação, autenticidade e gozo.

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    1. Portugal, como todos os países, tem coisas e pessoas muito boas, outras muito más.
      Mas, no cômputo geral, é um país bestial, tolerante.
      Que ainda tem um longo caminho a percorrer, que ainda tem muito a aprender.
      Aquele abraço!

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  7. Gostei muito, sabe bem ler esta análise.
    Eu adoro o nosso país.
    Bjs

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  8. Gostei muito...
    Já tenho o blogue da Ruth na minha lista.
    Beijinhos.
    ~~~~

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    1. Quem escreve assim acerca de Portugal merece, Majo.
      Beijinhos

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