6 de dezembro de 2016

Motim 1-2-3, ainda um tema tabu


3 de Dezembro de 1966 - o ambiente de tensão que existia entre as autoridades portuguesas em Macau e a grande maioria da população chinesa, em conjunto com os ventos da Revolução Cultural e o rastilho que foi a recusa de autorização para a construção de uma escola nas Ilhas, davam origem a um dos períodos mais conturbados da vida de Macau.
A população chinesa, subjugada, maltratada, esfomeada, revolta-se e sai à rua afrontando a potência administrante e colocando em causa a governação de Macau por parte das autoridades portuguesas.
Autoridades portuguesas que reagem de forma brutal dando origem a dias de grande agitação e caos social, com vítimas a lamentar nos cerca de dois meses que durou o conflito.
Conflito que só se veria sanado com intensas negociações entre Pequim e Lisboa, ainda que mantidas de algum modo em segredo, e com a chegada de Nobre de Carvalho a Macau, mandatado por Salazar para resolver a questão mesmo que para isso as autoridades portuguesas tivessem que de algum modo se humilhar perante os revoltosos, informalmente apoiados pela China. 
Cinquenta anos depois, estes acontecimentos, essenciais para se compreender o passado e o presente de Macau, e evitar que erros semelhantes se repitam no futuro (a administração pode ter mudado mas as populações, quando são levadas ao desespero, reagem...), continuam a ser evitados, esquecidos nas escolas de Macau.
O slogan da convivência pacífica entre duas culturas não pode ser encarado como um dogma.
Houve momentos de tensão, uns mais graves que outros, nenhum tão grave como o motim que ficou conhecido pela sigla 1-2-3.
Qual o receio de enfrentar essa realidade e a transmitir às gerações mais novas é algo que não consigo perceber.
Mais a mais quando ainda há muita gente que pode falar destes acontecimentos na primeira pessoa e se podem aprender lições da História na voz de quem a viveu por dentro.

37 comentários:

  1. É sempre bom lembrar a história para que não se cometam os mesmos erros, erros esses que são tão frequente na nossa história recente.
    Um abraço e boa semana.
    Andarilhar

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É essa a razão que me leva a não perceber que não se aproveite esta oportunidade única de ouvir relatos de quem os viveu, Francisco.
      Aquele abraço

      Eliminar
    2. Esqueci-me de dizer ao meu amigo que aqui em Portugal saiu a revista mensal referente a Dezembro "Volta ao Mundo" com um artigo bastante interessante sobre Macau relatado e comentado pelo escritor José Luís Peixote.
      Um abraço.

      Eliminar
    3. Vou procurar ler, Francisco.
      Obrigado pela informação.
      Um abraço

      Eliminar
  2. E eu acho que deveriam mesmo falar, faz parte da história e se existem pessoas que a podem relatar em primeira mão, brilhante =)
    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Uma circunstância que diria muito difícil de acontecer, Cic'Ana.
      E não se aproveita??
      Beijinhos

      Eliminar
  3. Nunca tomara conhecimento desta situação !!!

    A História é escrita por quem vence e esta gente , geralmente, tende a silenciar certos factos....veja-se franco, por exemplo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mas o que é curioso é que, neste caso em particular, há silêncio dos dois lados.
      Parece que há receios de melindrar uma das partes.
      Aconteceu, há testemunhas vivas, porque é que não se conta, não se transmite às gerações mais novas que revelam um completo desconhecimento dos factos?!

      Eliminar
  4. Desconhecia por completo a existência do motim 1-2-3.
    Porquê e para quê tanto silêncio?
    Um abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vergonha, receio, paz podre, a resposta andará por estes tópicos.
      Que são absolutamente estúpidos
      Aquele abraço

      Eliminar
  5. Não faço a menor ideia do que foi esse motim 1-2-3, nem porque te limitaste a dar essa referância, sem o explicar. É que vivendo em Lisboa e tendo 7 anos à época, obviamente passou-me ao lado... ;)

    Beijocas

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Revolta da população chinesa contra as autoridades portuguesas, fartos de serem espezinhados e fartos de sofrer provações, à boleia da Revolução Cultural, não está explicado no post, Teté??
      Para mais pormenores tem que se procurar outras fontes, não é um post num blogue.
      Beijocas

      Eliminar
  6. Respostas
    1. Se não é divulgado em Macau muito menos em Portugal, luisa

      Eliminar

  7. Também há pouco tempo, eu tinha visto as noticias sobre os refugiados da China para Macau quando houve a revolução chinesa e que foram filmados neste video :
    https://www.youtube.com/watch?v=_k0wgfYT_B0
    Macau refugee problem in 1958

    não conhecia o assunto!
    abraço
    Angela

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Foi essa tradição de bem receber de Macau, associada ao estatuto de neutralidade do Portugal salazarista e marcelista que deu a Macau a qualificação de porto de abrigo, Angela.
      Um abraço

      Eliminar
  8. Quando vivia em Macau, apercebi-me que muita gente ( nomeadamente portugueses) não sabia o que tinha sido o 1,2,3. Ai, como cá, e muito especialmente na Europa de hoje era muito útil que se desse mais atenção à História.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Para os portugueses é um tema especialmente sensível, Carlos.
      A realidade é que tivemos que nos humilhar perante a China para pôr um fim ao conflito.
      Ainda assim nada justifica que não se divulgue e ensine o que aconteceu.
      A ignorância não aproveita a ninguém.

      Eliminar
  9. Desconhecia completamente este (e tantos outros) pormenores da História de Macau, mas este foi o ano em que reflecti acerca dessa ligeireza com que se esquece a História, os seus ensinamentos e exemplos, e se perde a oportunidade de a ouvir pelos seus protagonistas enquanto ainda vivem. Reflecti nisto acerca da nossa Guerra do Ultramar, do fenómeno dos retornados e até sobre os meandros da opressão, da Pide e do Estado Novo. Enquanto estudante, senti que não aprendi grande coisa sobre isso, só recentemente, por iniciativa própria, me informei.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Briseis,
      Essa possibilidade de aprender História com quem a viveu e a sentiu na pele é extraordinária.
      E não percebo como é que é desaproveitada.

      Eliminar
  10. Pedro, ainda me veio à ideia um texto que li há algum tempo numa revista francesa, assim feito por um jornalista francês não seria ligado a algum patriotismo, onde explicava que por exemplo em Goa antes da ocupação pela União Indiana, o nível de vida dos habitantes indianos era o dobro do nível de vida dos habitantes da India. Ainda assim a versão oficial era a de que os portugueses exploravam as gentes de lá e que mereciam ser atacados.
    Às vezes a versão oficial tem muita política à mistura e devemos aprender por outros meios

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Infelizmente não é o caso, Angela.
      Os chinas (era assim que eram tratados) eram mesmo explorados.
      Leia os livros do Henrique Senna-Fernandes que vem lá retratada alguma desta realidade.

      Eliminar
  11. Gosto destas «histórias» daqueles tempos! Obrigada.

    Beijinhos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Estes acontecimentos deviam ser transmitidos às gerações mais novas, Graça.
      Quem é que tem medo da História??
      Beijinhos

      Eliminar
  12. Realmente, fica difícil de entender.
    Um abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O currículo das escolas de Macau devia incluir este e outros acontecimentos relevantes.
      Sem complexos, sem culpas, apenas para que conheça o passado, se possa melhor compreender o presente, não se cometam os mesmos erros, ou outros semelhantes, no futuro.
      Um abraço

      Eliminar
  13. «A população chinesa, subjugada, maltratada, esfomeada,»

    LOOOL, deixe estar que na China maoísta onde morriam de fome aos milhões devia de ser melhor...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Essa é a face mais trágica desta situação, João José Horte Nobre - fugiam da miséria no interior da China para encontrarem miséria aqui em Macau.
      Arrepiei-me ao ouvir o relato de uma das pessoas que viveram estes acontecimentos quando dizia que, entre a confusão, as balas, algo de bom aconteceu - encontrou três batatas, repito, três batatas!!!, para poder dar aos filhos para comerem.
      Isto aconteceu, é História, não é história.

      Eliminar
  14. FOCAS-TE um dos grandes problemas e mistérios da actualidade! Não só em Macau, mas no mundo... O meu veredicto? A culpa é do POLITICAMENTE CORRETO.

    O não querer ferir susceptibilidades é tratar as pessoas como crianças, imbecis incapazes... DEVE-SE conhecer a vida, para dela se tirar lições. Ponto final. Afinal, quem é que sai a lucrar com a ignorância do povo??? Não o povo!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mas é que é isso mesmo, Portuguesinha - o politicamente correcto, o não querer melindrar ninguém.
      E, em nome desse politicamente correcto, prefere-se a ignorância.

      Eliminar
  15. Recordo-me, era eu rapaz, destes acontecimentos. Na rádio foram uns zuns-zuns sem qualquer enquadramento político.
    Estes acontecimentos não devem ser silenciados pois a maioria das pessoas não os conhece. A História deve ser passada de geração em geração.
    Bom trabalho, Pedro.

    ResponderEliminar
  16. Esse Colmeia saiu-se das cascas.
    Houve por aí um rapazinho que contracenava com os figurões do mundo, sempre de espinha vergada, que anda em grande depressão por não ter tido tempo de empandeirar o resto.
    O destino do povo deste país está há muito definido: uns embarcar nas caravelas ou outros amolecer nas praias de papo para o ar.
    E a inveja? Nem é bom falar...
    Abraço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Com a mania do politicamente correcto não se ensina História, Agostinho.
      Não se pode aceitar.

      Eliminar
  17. Caro Pedro:
    Muita treta, muita opinião , muita "repressão" dos portugueses sobre os chineses, que fugiam da R.P.C. mortos de fome e que morriam de facto nas beiras dos passeios. O 1,2,3 que até podia ser 4,5,6, mais não passou duma manobra maoísta para desviar a atenção dos fracassos da política económica e agrícola das coletivizações do pC chinês controlado pelo mais mortífero imperador do Império do meio, o bem conhecido rosto das actuais notas chinesas. Óbviamente quasi tão depressa como começou, também acabou, por ordem do mesmo, pois era de todo o interesse para a ditadura maoísta, manter um casino para entreter os membros do partido e os canais para obtenção de moeda forte. Mas nisso ninguém fala pois é incorrecto, mas logo que o sucessor do ditador, quebrou os tabus do livre comércio e se marimbou na ortodoxia comunista e começaram a entrar dólares no império do meio, não foi preciso mais que fazer um 7,8,9 a Hong Kong e um 10,11,12 a Macau e tudo bem pois quem pode pode. Cumprimentos para si e Bom Natal

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro aguerreiro,
      Conhece assim tão bem a História de Macau?
      E em que é que ficamos - os portugueses exploraram os chineses ou não?
      E o dinheiro de Macau não alimentou clientelas em Portugal?
      Salazar procurou resolver todos os problemas, ainda que com uma enorme perda de face, mas não beneficiava nada de Macau...
      Ser patriota é muito bom.
      Tentar reescrever a História é um erro.
      Tenha um Santo Natal

      Eliminar
  18. Sou mais pelo reverso: Os chineses sempre exploraram e continuam a explorar os portugueses!
    Cumprimentos para si.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Em Macau, álvaro silva???
      Olhe que não, olhe que não.
      Cumprimentos para si

      Eliminar