24 de abril de 2014

Sexo em tempo de FMI (Por Miguel Carvalho)


No princípio era a manteiga.

Querias sempre um último tango, uma grande farra.

Não precisávamos da Marta Crawford para saber que o sexo oral é como o bacalhau com natas - todos gostam, desde que bem feito – e não havia estudos a garantir que a duração «desejável» de uma relação sexual é de sete a 13 minutos.

Para felicidade nossa, nem sequer havia estudos.

Os homens aplicados tinham os relatórios de Shere Hite para perceber que a vagina não vive de monólogos.

As mulheres previdentes não precisavam de seis páginas de uma revista para perceber que a versão portuguesa do cérebro dos homens não é o Kama-Sutra, mas sim o Kome-se Outra.

Uns e outros acabavam devotos de uma única máxima: «Vá pelos seus dedos». E para isso não precisavam de enciclopédias, bastavam as Páginas Amarelas.

Éramos desregrados, irresponsáveis, por vezes insensíveis. Mas felizes. E sempre acima das nossas possibilidades.

Agora, o Facebook é a tua nova garganta funda.

Trocaste o animal na cama pelo Farmville e fazes amigos entre assessores e fanáticos do ioga e do jogging com carinha laroca e ar de chamuça.

Lembras-te? Tinhas orgasmos como um quadro de Pollock. Mas agora és mais do género trolha e trincha: basta-te uma ou duas de mão. No My Space ou no teu?

Ocorre-te que a ménage à trois foi arrumada pela ménage à troika?

Repara, nem sequer te dão a escolher entre troika-troika ou truca-truca porque isso, meu amigo, só o Strauss Kahn. E mesmo assim, safa-se.

Foste longe demais. Nos desejos, na vida.

Isso é para outros campeonatos: Wall Street, inside job, blowjob, ferra aqui a ver se eu deixo.

Para ti, sobra a austeridade. A austera idade.

Enquanto eles se excitam com o rating, tu precisas de um plano de estabilização, um ajustamento, como agora se diz. O teu rácio é descendente: já devias ter percebido que o que é novo cresce e o que nasce morre.

Vais ter de fazer sacrifícios.

Livra-te de voltar a mijar fora do orçamento.

Não tens escolha: a esquerda é a direita soft-core e a direita é hard days night, 1º escalão. Help, I Need Somebody, pois, mas o vizinho não te ouve e é grego…

Perdeste demasiado tempo em preliminares, em parcerias públicas e privadas quase pornográficas, meu insolvente. O big brother deu-te alavancagem, deu, mas andava a topar-te pelo buraco da fechadura, que julgas?

Agora vais ter de fazer como eles querem.

De joelhos, de costas, amarrado. Sado-maso, pois, que esperavas? Eles estão mais do que nunca decididos a implementar-te, que é uma palavra linda, se for devagarinho.

Agora há um plano de mobilidade à tua espera, tens de ser competitivo e arriscas ser despedido por inadaptação. Acabarás por te habituar, é uma justa causa. Mas fica sabendo que a Angela Merkel não é de engonhar como a Sylvia Kristel: fazes o que ela te mandar e rapidinho que, para isso, existe um memorando de entendimento.

Se mesmo depois disto ainda te vieres, serás taxado a 50 por cento. É tão bom, não foi?


14 comentários:

  1. Umas entendi ... outras, deduzi!! : ))

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    1. Hoje ando às voltas com créditos e credores, Catarina

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  2. São assim os tempos que correm por cá.
    Uns mamam à fartazana e outros pagam com lágrimas e suor o luxo dos nossos governantes bem como as parecerias pornográficas que eles fizeram porque as criaram para continuarem numa vida faustosa . Eles todos tem lá o futuro garantido.

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    1. Essas roubalheiras das PPP, dos BPP e BPN, é que devem sempre ser lembradas, luís.
      Não são os tostões que o Zé Povinho gastou que deitaram a economia do País abaixo.

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  3. Ou seja, as rebaldarias têm contrapartidas, toda a gente sabe mas às vezes ainda aparecem anjinhos que coram.

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    1. Mesmo ruborizados têm que se sujeitar às contrapartidas, Agostinho :))

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  4. Caro Amigo Pedro Coimbra!
    A lambisgoia da Agrado, aquela mexeriqueira mor que tudo sabe e tudo vê, adorou esta publicação!
    Caloroso abraço! Saudações orais!
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento

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    1. Imaginei logo que a Agrado se ia deleitar com este texto, Amigo João Paulo de Oliveira :)))
      Grande abraço!

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  5. Cruzes, credo, abrenuncio!! O que práqui vai!

    O que mais me chocou foi saber que a Sylvia Kristel engonhava...quem me manda não ter ido ver o 'Último tango em Paris' logo a seguir ao 25 de Abril.

    Não percebi patavina, mas faz de conta. :)))

    Beijinhos, Pedro.

    Bom fim-de-semana.

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    1. O texto é excelentes, Janita! :)
      Beijinhos e votos de bfds

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  6. Miguel Carvalho, um dos melhores e mais sérios jornalistas portugueses que mais uma vez nos brinda com um estupendo e inteligente texto!

    Obrigada pela partilha, Pedro.

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