18 de abril de 2013

Papa Francisco - o Obama da Igreja?


Publico hoje um artigo e uma entrevista que têm como protagonista Leonardo Boff, o teólogo que foi um dos fundadores da Teologia da Libertação, o mesmo que Joseph Ratzinger, ao tempo liderando a Congregação da Doutrina da Fé, perseguiu e condenou publicamente.
Ambas são um pretexto para reflectir um pouco acerca do que tenho visto e ouvido acerca do Papa Francisco.
O seu carisma, a sua simpatia, a sua simplicidade, inegáveis, estão a ter nas pessoas o efeito que teve a eleição de Obama como presidente dos Estados Unidos.
Como Obama, um negro com um nome estranho eleito presidente dos Estados Unidos, Francisco, um Papa vindo da América do Sul, a romper com  a tradição dos Papas europeus, representa em simultâneo um choque e uma nova esperança.
Um choque, nos dois casos, pela novidade, pela diferença.
Uma nova esperança, porque o Mundo necessita de esperança, necessita de um novo paradigma nas suas lideranças.
Olho para ambos e as reacções que provocam soam imenso a wishful thinking.
No caso de Obama, a justificar até a atribuição do Nobel da Paz.
No caso de Francisco, a levar muitas pessoas a pensar, injustificadamente, que o seu papado representará uma revolução no interior da Igreja.
Francisco, quando escolhe o seu nome, quando recusa os símbolos de uma "igreja dos imperadores" para procurar a prática de uma "igreja dos pobres", está a ser sincero.
Mas só poderá impor essa "igreja dos pobres" a si próprio, não à Igreja, à instituição.
Poderá representar uma Igreja mais modesta, menos opulenta, mas não a poderá impôr doravante.
E essa é só uma das dimensões da profunda crise que a Igreja vive na actualidade.
Nas restantes - crise de vocações, posições da Igreja em temas como o aborto, a posição da mulher na sociedade e na Igreja, abertura da Igreja à sociedade, ao Mundo, reforma do Vaticano e do edifício de poder que o rodeia - Francisco é profundamente conservador.
Francisco e Obama, cada um na sua área, cada um da sua forma, são símbolos da ânsia que o Mundo sente, daquilo que há muito necessitava - simplicidade, discurso e práticas diferentes do habitual, um sorriso honesto, franco, humano.
Apenas isso.
E já é muito.
Pedir-lhes mais é apenas, repito, wishful thinking.

16 comentários:

  1. «Se alguém quiser ser grande, seja servidor; quem quiser ser o primeiro, seja servo de todos; pois o Filho do homem não veio para ser servido mas para servir»(Mc 10-43-45)

    O Papa Francisco veio para ser grande, Pedro!

    Aquele abraço

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    1. Não tenho dúvidas que o papado de Francisco vai ser marcante, Ricardo.
      Mas há uma esperança infundada à volta dele.
      Não vai haver revoluções na Igreja.
      E, em alguns temas (aborto, sacerdócio, papel da mulher) ele é muito conservador e muito dogmático.
      Não lhe vamos pedir o que ele não pode, nem quer, dar.
      Aquele abraço!

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  2. Esperemos que tudo corra como desejamos, mas tenho algumas dúvidas.

    Obama não fez tudo quanto se esperava e creio que com Francisco se passará igual.

    Se me enganar ficarei contente, mas não me agrada nada a sua posição machista quanto à Mulher!

    Bom dia, Pedro.

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    1. São,
      Por isso mesmo comparo Francisco a Obama
      Está a ser pedido mais do que ele pode e que dar.
      A posição relativamente à Mulher é um sinal de pura ortodoxia
      E, com este cenário, as desilusões são mais frequentes.

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  3. Barack Obama não fez tudo quanto se esperava, diz a São.
    Será que pensou na razão, ou razões que tal determinaram?

    O Papa Francisco promete e, se o 'sistema' permitir, 'temos homem'.

    Feliz, a comparação, devidamente colocadas as diferentes situações.

    Abraço para Oriente :)

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    1. É isso mesmo, António.
      Francisco e Obama fazem o que lhes é possível fazer, nao o quereriam fazer.
      Ainda assim, ainda que limitados, representam algo de novo, algo que o nosso Mundo tanto necessita neste momento.
      Hoje, enquanto via o ouvia VA Pensiero, com Ricardo Mutti como maestro e o Teatro de Roma, o público, de pé, a acompanhar, pensava naquelas palavras:
      O mia patria si belle e perduta e no que está a acontecer no nosso país e na Europa.
      E confesso que me emocionei.
      Aquele abraço!

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  4. O Papa Francisco transmite algo de inovador, mas marcar uma diferença muito significativa será algo difícil, até porque ainda está bem na memória um Papa que marcou muito muito! O Papa João Paulo II.

    Não concordo muito com a comparação que é feita com o Obama, até porque em termos de opinião em relação a algumas coisas eles estão bem desfasados.

    Não é que a "concorrência" do Obama fosse flor que se cheirasse, mas como o Pedro sabe, eu não gosto do Obama, acho que ele é um falso simples e aquilo é só fachada e revelou bem no desdém com que se referiu a Portugal e a Grécia, quando afinal a grande América também não está nada bem. Eu sei que pode ter sido um lapso, mas em pessoas que andam a ser constantemente orientadas por assessores de tudo e mais alguma coisa, talvez esse pequeno lapso tenha sido afinal o revelar daquilo que ele é realmente.

    Embora o Papa não deixe de ser um chefe de estado, à política o que é da política e a Deus o que é de Deus.

    :)* Opiniões à parte, amigos na mesma :)

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    1. Poppy,
      Não se pode comparar o incomparável.
      E não é isso que pretendo.
      O que é compárável, penso eu, entre Francisco e Obama, é a nova esperança que traduzem.
      Que, em bom rigor, só se funda numa maneira de ser muito mais humana, muito mais modesta.
      E, aí sim estamos em desacordo, Obama é um tipo muito modesto, um tipo que quer cortar o cabalo no mesmo barbeiro que lhe corta cabelo há anos, que quer dar una passeios a pé, que se sente bem no meio da pessoas.
      Como Francisco.
      Num e noutro caso, de maneiras diferentes, não os deixam ser assim.

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    1. Esta esperança em algo de diferente é sintomática do descontentamento com a actual situação e com as actuais lideranças, Carlos.
      Um tempo novo, com caras novas, com novas ideias e atitudes.
      É isso que o Mundo pretende.
      E, por isso mesmo, agarra-se a qualquer manifestação de diferença com essa esperança.

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  6. Existem coisas que ambos não fazem porque lhes cortam as pernas e sem elas não conseguem andar!

    beijinho e uma flor

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    1. Excatamente, Adélia.
      Acredito que Francisco e Obama seja genuínos na sua simplicidade, na sua bonomia, no desprendimento da vertente materialista da vida.
      Mas, quem está à volta deles, não o é.
      E, quando é assim....
      Beijinho

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  7. Eu creio que ainda não passou tempo suficiente para podermos avaliar bem o Papa Francisco ! É certo que estes primeiros tempos dão boas indicações e o benefício dessa esperança, mas vamos a ver se se manterá assim nos próximos anos !
    Quanto a Obama, já tudo comprovado e sou um seu grande admirador !
    Abraço ! :))
    .

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    1. Acredito que ele queira uma igreja dos pobres e para os pobres, Rui.
      Conseguirá?
      Não sei.
      Como Obama não está a conseguir muita coisa que queria.
      Seja como for, duas personalidades marcantes e que o Mundo bem necessita.
      Aquele abraço

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  8. Gostei das tuas palavras, Pedro.
    Bem assim mesmo.
    Boa Semana!!!!

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    1. Pats,
      Serão as duas figuras que mais esperança transmitem actualmente.
      Mas às quais estão a ser pedidos feitos que eles sozinhos não podem assegurar.
      Boa semana!!

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