7 de outubro de 2015

Ilumina-o ou elimina-o (por ANSELMO BORGES DN 03OUT2015)


1. O Papa Francisco terminou no domingo passado uma visita triunfal a Cuba, aos Estados Unidos e à ONU. E qualquer pessoa atenta pergunta que magnetismo tem este homem para arrastar multidões, os jovens o escutarem, os políticos prestarem atenção, também os não crentes ficarem atentos. O que move este homem de 78 anos, com pulmão e meio, sofrendo de ciática e problemas num joelho, e que em oito dias correu cidades, presidiu a um sem-número de celebrações, encontrou grupos tão diferentes, pronunciou 24 discursos, para todos teve uma palavra encantatória, sem procurar honra e glória para si, até porque sabe, como disse à rádio Renascença, que "Jesus também era muito popular e acabou como acabou"? Tornou-se o principal líder moral planetário. Porquê? Obama viu bem, quando o chamou "imperador da paz" e observou: "O senhor é o exemplo vivo dos ensinamentos de Jesus."
2. Dos ensinamentos e dos gestos: foi ao encontro daquele menino com paralisia cerebral e beijou-o; quis que viesse até ele aquela menina com uma carta a pedir intercessão pelos imigrantes sem-papéis; visitou 200 sem--abrigo: "Deus entrou neste mundo como alguém que não tem casa"; na Zona Zero de Nova Iorque: "Lutemos por ser profetas de construção, de reconciliação, de paz"; em Cuba e aos jovens imigrantes de Harlem: "É belo ter sonhos e poder lutar por eles. Não se esqueçam"; na Casa Branca: "Como filho de imigrantes, alegra-me estar neste país construído por imigrantes"; recebeu algumas vítimas de abusos sexuais do clero, assegurando que terminou a era do silêncio e do encobrimento e que chora como "Deus chora" e que os responsáveis pagarão pelos seus delitos; abraçou um preso na cadeia de Filadélfia e pediu o direito à reinserção: "É penoso constatar sistemas penitenciários que não procuram sarar chagas e gerar novas oportunidades"; quer mais participação dos leigos, nomeadamente das mulheres, na vida da Igreja; depois de anos de mal-estar com a Igreja oficial, encontrou-se com religiosas americanas: "Que seria da Igreja sem vós, mulheres fortes na primeira linha do Evangelho? Gosto tanto de vós!" No encerramento do Encontro Mundial das Família: "Deus quer que todos os seus filhos participem na festa do Evangelho." Fez questão de viajar num pequeno Fiat. Na base, está a sua convicção da igual dignidade de todos e da fraternidade universal.
3. E falou aos poderosos. Pediu a Cuba e aos Estados Unidos que sejam "exemplo de reconciliação" nesta "atmosfera de III Guerra Mundial que estamos a viver". Na Missa da Praça da Revolução, em Havana: "Nunca o serviço é ideológico, pois não se serve ideias, mas pessoas." "Quem não vive para servir não serve para viver." A Raúl Castro pediu "liberdade na dignidade".
No Capitólio, a 500 congressistas, muitas vezes aplaudido: "Uma nação é considerada grande quando defende a liberdade." E o seu discurso histórico acentuou os ideais de quatro americanos ilustres, "quatro pessoas, quatro sonhos: A. Lincoln, a liberdade; M. Luther King, uma liberdade que se vive na pluralidade e na não exclusão; Dorothy Day, a justiça social e os direitos das pessoas; Thomas Merton, a capacidade de diálogo e a abertura a Deus". É nosso dever defender a vida em todas as etapas do seu desenvolvimento. E isto também significa abolir a pena de morte, colocar esta pergunta: "Porque são vendidas as armas letais aos que pretendem infligir um sofrimento indizível aos indivíduos e à sociedade?" "Se é verdade que a política deve servir a pessoa humana, segue-se que não pode ser escrava da economia e das finanças." "Tratemos os outros com a mesma paixão e compaixão com que queremos ser tratados."
Nas Nações Unidas: "A sede egoísta e sem limites de poder e prosperidade material levam à má utilização dos recursos naturais e à exclusão dos fracos e desfavorecidos." Os "pilares do desenvolvimento integral": direito a tecto, trabalho, terra, liberdade religiosa, liberdade de educação. Insiste na defesa da vida, com todas as consequências: necessidade de "total proibição" das armas nucleares, luta contra o narcotráfico, também contra o comércio de órgãos, a exploração sexual, trabalho escravo, terrorismo e crime internacional organizado. Pede a reforma do Conselho de Segurança e dos organismos financeiros internacionais, que "devem velar pelo desenvolvimento sustentável dos países".
4. Francisco também tem adversários e até inimigos. Porque grandes interesses se sentem abalados. Políticos há que o consideram "o homem mais perigoso do planeta". Os mais refractários, porém, talvez estejam na Igreja. E aí está o confronto explícito, mas o pior é a luta sub-reptícia, mesquinha e odienta, escondida cobardemente no anonimato. Não faltarão os que vão dizendo lá no íntimo: "Senhor, ilumina-o ou elimina-o." As próximas três semanas do Sínodo, que amanhã começa em Roma, serão das mais difíceis para Francisco. Ele sempre pede: "Por favor, rezem por mim." Ele sabe porquê.

12 comentários:

  1. Penso que se todos os Papas fossem como Francisco a religião católica seria muito mais forte do que aquilo que é. Mas acredito que sim , ele terá muitos inimigos. Desde logo porque a sua pregação segue os ensinamentos de Cristo e todos sabemos o que aconteceu ao Mestre. Os poderosos não gostam de quem lhes aponta o dedo e lhes ameaça o poder.
    Um abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Francisco está a deixar a ala mais conservadora da Igreja, que é maioritária, com os cabelos em pé, Elvira Carvalho.
      Curiosamente, se dentro da Igreja, nos seus sectores mais conservadores, Francisco estará longe de ser um fenómeno de popularidade, a sua mensagem ecuménica, a sua postura humilde e tão humana, têm conquistado adeptos por toada a parte.
      Um abraço

      Eliminar
  2. Um papa real, humano, que não me recordo de ver no vaticano antes. Adivinham-se, naturalmente, ninhos de viboras à espera de uma oportunidade para o abater.
    Abraço, Pedro.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Francisco é único, Agostinho.
      Ainda hoje comentava com uma amiga que gostava de o ver receber o Prémio Nobel da Paz.
      Seria uma forma de mostrar que o diálogo ecuménico, o estender e mão a outros credos, têm lugar neste mundo tão conturbado.
      E que a Igreja não está fechada, não esconde fantasmas nem esqueletos no armário, que o capitalismo não pode ser um mantra, não pode ser lei.
      Aquele abraço

      Eliminar
  3. Tudo que possa dizer sobre Francisco seria pouco. Apenas digo que é um ser humano de excelência!

    Gostei desta narrativa de Anselmo Borges.

    Beijocas

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Uma referência, um símbolo, Fatyly.
      Numa época em que ambos escasseiam.
      Beijocas

      Eliminar
  4. Olá Pedro,
    a continuação da postura do papa Francisco é um grande desafio para grande número de pessoas ou seja para a vontade daqueles que sentem que a perda de valores pode ser um grande perigo e obviamente para outros com interesses contrários
    boa noite Pedro
    é tempo de alguma esperança

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Angela,
      Francisco é ele próprio símbolo de esperança, de fé, de ecumenismo.

      Eliminar
  5. ~~~
    ~ Interessante, como sempre.
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

    ~~~ Beijinhos. ~~~~~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Anselmo Borges a escrever sobre Francisco tinha que ser interessante, Majo.
      Beijinhos

      Eliminar
  6. Não sou católico. Não acredito na existência de Deus. Estou convencido que quando morrer (parto do princípio que isso acontecerá), morri e "acabou-se" para mim. Se acaso estiver enganado vou ter uma grande surpresa.
    Esclarecida a coisa tenho que dizer que há dois papas que admiro, e que são:
    João XXIII e agora este Francisco I.
    Ambos inovadores no pensar da igreja e ambos sofreu/sofre de contestação interna e externa pelas ideias que divulgam.
    Porque quem detém o poder não gosta que ele seja questionado.
    Akele abraço pah!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Essa é uma das grandes qualidades de Francisco, Kok - chegar aos não crentes, fazer a ponte com outras religiões, outros credos.
      Os dois Papas que refere mexeram fundo com a Igreja e com muitos dogmas e interesses.
      fica a minha pergunta, que é também o meu receio - e depois de Francisco??
      Aquele abraço

      Eliminar