8 de outubro de 2015

Carta enviada de Bruges, pelo Infante D. Pedro a D. Duarte, em 1426


  

Resumo feito por Robert Ricard e constante do seu estudo «L’Infant D. Pedro de Portugal e “O Livro da Virtuosa Bemfeitoria”», in Bulletin des Études Portugais, do Institut Français au Portugal, Nova série, tomo XVII, 1953, pp. 10-11).


    «O governo do Estado deve basear-se nas quatro virtudes cardeais e, sob esse ponto de vista, a situação de Portugal não é satisfatória. A força reside em parte na população; é pois preciso evitar o despovoamento, diminuindo os tributos que pesam sobre o povo.
Impõem-se medidas que travem a diminuição do número de cavalos e de armas.
    É preciso assegurar um salário fixo e decente aos coudéis, a fim de se evitarem os abusos que eles cometem para assegurar a sua subsistência.
    É necessário igualmente diminuir o número de dias de trabalho gratuito que o povo tem de assegurar, e agir de tal forma que o reino se abasteça suficientemente de víveres e de armas; uma viagem de inspeção, atenta a estes aspetos, deveria na realidade fazer-se de dois em dois anos.
    A justiça só parece reinar em Portugal no coração do Rei [D. João I] e de D. Duarte; e dá ideia que de lá não sai, porque se assim não fosse aqueles que têm por encargo administrá-la comportar-se-iam mais honestamente. A justiça deve dar a cada qual aquilo que lhe é devido, e dar-lho sem delonga. É principalmente deste último ponto de vista que as coisas deixam a desejar: o grande mal está na lentidão da justiça. Quanto à temperança, devemos confiar sobretudo na ação do clero, mas ele [o Infante D. Pedro] tem a impressão de que a situação em Portugal é melhor do que a dos países estrangeiros que visitou.
    Enfim, um dos erros que lesam a prudência é o número exagerado das pessoas que fazem parte da casa do Rei e da dos príncipes. De onde decorrem as despesas exageradas que recaem sobre o povo, sob a forma de impostos e de requisições de animais. Acresce que toda a gente ambiciona viver na Corte, sem outra forma de ofício.»

    Quase 600 anos depois, nada parece ter mudado!

4 comentários:

  1. Bom dia Pedro. Parabéns pela sua análise ao resultado das eleições. Muito tinha para dizer sobre estas eleições, sobre a comunicação social, sobre os 43% de abstenções, (às vezes penso que o voto devia ser obrigatório), mas depois de ter lido todos os comentários à sua análise e as suas respostas (uma óptima "mesa redonda" sobre política) dou-me por satisfeita e fico-me por aqui. Quanto à carta do Infante D. Pedro a D. Duarte está mais do que actual, uma perfeição..
    Uma abraço da Celene

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    1. Célere,
      Quem diria que uma missiva tão antiga podia ser tão actual??
      Tinha-a guardada para uma ocasião como esta.

      O que se está a passar em Portugal entristece-me muito.
      Não sou militante nem apoiante de nenhum partido.
      O que ainda me deixa mais equidistante e à vontade para criticar estas manobras palacianas.
      Baixaria!
      Um abraço

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  2. D. Pedro foi um dos mais brilhantes governantes de Portugal .A falta que nos fazem os testemunhos de homens como este.

    Um beijinho amigo Pedro

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    1. Estadistas, Fê.
      É o que nós precisamos de estadistas neste momento particularmente conturbado.
      Onde é que estão?
      Beijinhos

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