14 de outubro de 2015

A "chapelada" (A Revolta das Palavras)



De 1966 a 1974 lutei pela democracia, como mo permitia o ser jovem. Era-me impossível conviver sem revolta com um regime político que amputava as liberdades públicas, impunha censura à imprensa, apreendia livros, congelava a participação política num partido único, semeava a sombra de informadores e outros esbirros, prendia por delitos de opinião, apodava de "comunistas" todos quantos não eram pela Situação. Paguei por isso o preço de me ter sido negado o acesso à magistratura e ter sido castigado militarmente com uma arma que não era obviamente para pessoas como eu, magríssimo de peso e soldado cadete de "armas pesadas de infantaria".
Com a democracia dei o contributo que me foi possível nas funções para que fui convocado. Nunca se me colou um lugar às mãos.
Hoje penso que chegou a altura de recolher.
Progressivamente fui diminuindo a participação na vida política. Limitava-me a votar e cada vez com menos convicção.
Nestas eleições aflui à mesa de voto que julgava ser aqui na Universidade Nova, à Avenida de Berna. Recambiaram-me para a secção de voto junto à Mesquita em Lisboa. Lá, estando certo o número da mesa, não constava dos cadernos eleitorais. Teria de me esclarecer na junta de freguesia, devido à unificação desta com outra. Para ali fui, para apurar que, afinal, teria de votar no lugar onde inicialmente tinha estado desde a manhã.
Nove dias depois, os partidos estão a fazer dos resultados dessas eleições o que lhes convém. Apoderaram-se do voto e as direcções partidárias interpretam o sentir popular num sentido e no seu contrário. Em resumo todos ganharam. Eu sinto ter perdido.
Não estamos longe dos gregos em que se tornou um "não" num "sim".
É deprimente o espectáculo de incerteza e o circo que se armou em torno do que é afinal a sorte do País.
Se isto é a democracia, prefiro abster-me. Não foi para isto que se fez o 25 de Abril!
Em 1969, tinha 20 anos, fui, orgulhosamente, delegado a uma mesa de voto. Morava na Amadora. Devido a ordens dos que então mandavam, capitaneados por um façanhudo regedor, nós os delegados, estávamos encurralados, numa espécie de ringue de boxe, delimitado por uns cordões, no meio da sala da junta de freguesia. Em frente a nós, tapando-nos a visão, a massa compacta dos votantes. Protestei porque, assim, não se saberia o que resultaria das urnas. Levava comigo um dossier que tinha sido preparado para o efeito. Quando consegui entregar ao presidente da mesa o meu protesto este, erguendo-o ao ar, proclamou «olha-me este, já começa a arranjar sarilhos!».
De facto. 
Hoje, ao ver os novos regedores e o que fazem das urnas, nem sei como poderia arranjar sarilhos, protestando contra a "chapelada", muito menos com quem.

2 comentários:

  1. Eram "um facto", as "chapeladas" naquela época, Pedro !
    Os eleitores muito mais dos que se inscreviam voluntariamente, eram inscritos pelos conhecidos (da sua rua e ligados à situação) desde que houvesse a perspectiva de que os sugeridos inscritos mesmo sem o saberem), seriam pessoas que votariam de acordo.
    Já os da oposição ao regime, conhecidos, esses, só se se inscrevessem oficialmente.
    No dia da votação e especialmente nos últimos minutos, era normal desviar a atenção dos "fiscais às mesas" presentes e sem que eles se apercebessem eram metidos nas urnas uma quantidade de votos com a cruzinha respectiva e anteriormente preparada ! Seguidamente era só "descarregar" esse nº de votos fantasma, em nomes ao calha, que não tivessem ido votar !

    ... mas um outro assunto, uma questão :

    Quando das eleições de 4 de Outº todos conhecíamos e bem os "programas" dos partidos concorrentes e as suas intenções pós eleitorais!
    Será que os resultados eleitorais seriam hoje os mesmos, se se soubesse que afinal o PS não iria seguir aquilo com que todos contavam e inclusive foi dito no próprio discurso pelo seu leader no seu discurso de derrota, ao dar os parabéns ao vencedor, dizer que deveriam formar governo e que ele PS, como partido responsável não o inviabilizaria ? ...
    Creio que metade do próprio PS não votaria PS !

    Isto não é mais do que uma tentativa de "fuga para a frente" do AC para salvar o seu lugar no partido e pela sua tremenda ambição de querer ser a todo o custo, 1º Ministro, aconteça o que acontecer depois !

    Abraço ! :)

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    1. Pois é, Rui, essas perguntas que o Rui faz acho que qualquer pessoa de bom senso de deve fazer.
      António Costa, que hoje vai ser tema de um post aqui no blogue, agiu com reserva mental.
      Esta coligação não surge do dia para a noite, Rui.
      Andava a ser cozinhada por uma camarilha desde o dia em que começaram a perceber que iam levar uma porrada valente nas eleições.
      Aquele abraço

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