3 de fevereiro de 2015

Pleonasmite


Quase todos os portugueses sofrem de pleonasmite, uma doença congénita para a qual não se conhecem nem vacinas nem antibióticos.Não tem cura, mas também não mata. Mas, quando não é controlada, chateia (e bastante) quem convive com o paciente.

O sintoma desta doença é a verbalização de pleonasmos (ou redundâncias) que, com o objectivo de reforçar uma ideia, acabam por lhe conferir um sentido quase sempre patético.

Definição confusa? Aqui vão quatro exemplos óbvios: “Subir para cima”, “descer para baixo”, “entrar para dentro” e “sair para fora”.

Já se reconhece como paciente de pleonasmite? Ou ainda está em fase de negação? Olhe que há muita gente que leva uma vida a pleonasmar sem se aperceber que pleonasma a toda a hora.

Vai dizer-me que nunca “recordou o passado”? Ou que nunca está atento aos “pequenos detalhes”? E que nunca partiu uma laranja em“metades iguais”? Ou que nunca deu os “sentidos pêsames” à“viúva do falecido”?

Atenção que o que estou a dizer não é apenas a minha “opinião pessoal”. Baseio-me em “factos reais” para lhe dar este “aviso prévio” de que esta “doença má” atinge “todos sem excepção”.

O contágio da pleonasmite ocorre em qualquer lado. Na rua, há lojas que o aliciam com “ofertas gratuitas”. E agências de viagens que anunciam férias em “cidades do mundo”. No local de trabalho, o seu chefe pede-lhe um “acabamento final” naquele projecto. Tudo para evitar “surpresas inesperadas” por parte do cliente. E quando tem uma discussão mais acesa com a sua cara-metade, diga lá que às vezes não tem vontade de “gritar alto”: “Cala a boca!”?

O que vale é que depois fazem as pazes e vão ao cinema ver aquele filme que “estreia pela primeira vez” em Portugal.

E se pensa que por estar fechado em casa ficará a salvo da pleonasmite, tenho más notícias para si. Porque a televisão é, de“certeza absoluta”, a “principal protagonista” da propagação deste vírus.

Logo à noite, experimente ligar o telejornal e “verá com os seus próprios olhos” a pleonasmite em directo no pequeno ecrã. Um jornalista vai dizer que a floresta “arde em chamas”. Um treinador de futebol queixar-se-á dos “elos de ligação” entre a defesa e o ataque. Um “governante” dirá que gere bem o “erário público”. Um ministro anunciará o reforço das “relações bilaterais entre dois países”. E um qualquer “político da nação” vai pedir um “consenso geral” para sairmos juntos desta crise.

E por falar em crise! Quer apostar que a próxima manifestação vai juntar uma “multidão de pessoas”?

Ao contrário de outras doenças, a pleonasmite não causa “dores desconfortáveis” nem “hemorragias de sangue”. E por isso podemos “viver a vida” com um “sorriso nos lábios”. Porque alguém a pleonasmar, está nas suas sete quintas. Ou, em termos mais técnicos, no seu “habitat natural”.

Mas como lhe disse no início, o descontrolo da pleonasmite pode ser chato para os que o rodeiam e nocivo para a sua reputação. Os outros podem vê-lo como um redundante que só diz banalidades. Por isso, tente cortar aqui e ali um e outro pleonasmo. Vai ver que não custa nada. E “já agora” siga o meu conselho: não “adie para depois” e comece ainda hoje a “encarar de frente” a pleonasmite!

Ou então esqueça este texto. Porque afinal de contas eu posso estar só “maluco da cabeça”.

22 comentários:

  1. Excelente e ainda há dias ouvi "uma cabecinha pensadora" dizer que fazem-se "empréstimos TEMPORÁRIOS e que todos foram unânimes".

    Mas também há imensos na Poesia por exemplo de Fernando Pessoa, os literários e os musicais.

    Seria bom que em vez da porcaria da gripe que entope todas as urgências hospitalares...ouvíssemos coisas de rir à gargalhada para afastar a porca miséria que assola este país:):)

    Beijocas

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    1. Fatyly,
      É para isso quem aqui vou trazendo coisas alegres todos os dias.
      Também apanhou o vírus da gripe?
      Em minha casa amem Portugal estão todos - pai, mãe e irmã.
      Se é o caso, votos de rápido restabelecimento.
      Beijocas

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    2. Já a tive nas últimas três semanas de Dezembro, foi duro e porque não tive febre curei-a de pé...porque tive que ficar com as netas, estas sim...muito mais atacadas do que eu. Todos já fomos brindados, excepto a minha mãe, o que desejo que não aconteça, mas felizmente não foi preciso ir às urgências.

      As melhoras dos teus!

      Beijocas

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    3. Tem sido um fartote este ano, Fatyly.
      Beijocas

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  2. "Maluco da cabeça". Sinal de pleonasmite.

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    1. E que de nós poderá dizer que escapou a um sumarento pleonasmo, António??

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  3. Quem nunca se constipou, Pedro? Com a pleonasmite acontece o mesmo :-)

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  4. Ninguém poderá dizer que esteve a salvo destes exageros! São comuns!
    Abraço

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    1. Remeto para o comentário do Carlos, Carpe diem.
      Aquele abraço

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  5. Pedro , este texto é mesmo uma surpresa inesperada! então não é que terminamos com um sorriso bem nos lábios!
    até amanhã
    Angela

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    1. A minha cabeça também pensa assim, Angela :)))

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  6. O facto é que nem nos damos conta que o mal nos está a atacar. :)

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  7. Caro Amigo Pedro Coimbra!
    Fiquei estupefato, porque até então pensei que o pleonasmo fosse uma praga a vigorar somente aqui do lado de cá do grande oceano e hemisfério que nos separa.
    Fico exasperado quando ouço: subir para cima, acabou de começar, desceu para baixo.
    Caloroso abraço! Saudações surpreendidas!
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento e do bem viver sem véus!

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    1. Muitos e em grande quantidade, Amigo João Paulo de Oliveira :)))
      Aquele abraço

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  8. Silêncio absoluto por estou moca dos ouvidos
    Kis :>}

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  9. :) por acaso, eu adoro os pleonasmos, assim por exemplo quando se sobe para cima sobe-se muito mais que se subir apenas :) e uma vez apanhada a pleonasmar tentei explicar que até se poderia subir para baixo se se fosse a subir uma escada dentro de um elevador que descia :)

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    1. Isso é que é imaginação na cabeça, Gábi!!! :)))

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  10. Muito bom! Diria mesmo que é um prazer agradável ler um texto escrito.
    Mas também é verdade que podes descer (de uma mesa) para cima (de um banco).
    Brincadeiras à parte: há um jornalista na SIC (que creio tens possibilidades de assistir) que de vez em quando sai-se com:
    -uma mulher soterrada nos escombros de um prédio, disse ele: os bombeiros conseguiram extrair a mulher...
    -um avião monomotor perdeu potência e o piloto evitou despenhar-se e poiso no mar: disse ele: o avião aterrou no mar (em vez de amarou, evidentemente); deve ter sido de facto um terror para o piloto mas daí a aterrar no mar...
    E eu acabo, terminando o meu comentário, com akele abraço e um enorme sorriso nos lábios... ;)))

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    1. Comentário cinco estrelas, Kok!!! :)))

      Mas não, não vimos a SIC por estas bandas.
      RTP Internacional.
      Que é uma boa m.....porcaria.

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