3 de dezembro de 2014

Hobbes, Locke, Rousseau e Eanes


Na entrevista concedida ontem à RTP, Ramalho Eanes veio retomar a ideia de contrato social que, com variações, Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau, haviam abordado nos séculos XVII e XVIII.
O contrato social, ou contratualismo, é um conjunto de teorizações acerca da formação do Estado e da manutenção da ordem social que tem por base a ideia de as pessoas estarem predispostas a abrir mão de certas prerrogativas em nome do bem comum.
Essa possibilidade seria intrínseca ao indivíduo, estaria na sua natureza, na sua consciência.
Adaptando estas teorias à situação política que actualmente se vive em Portugal, Ramalho Eanes pensa que seria de extrema utilidade um entendimento entre as várias forças políticas, uma espécie de pacto de regime, que permitisse a antecipação das eleições legislativas previstas para Setembro/Outubro de 2015.
Percebo a ideia de Ramalho Eanes, compreendo a sua motivação, acho-a praticamente inexequível e politicamente inútil.
Praticamente inexequível porque o Presidente da República já afirmou por diversas vezes que só um terremoto político o levaria a antecipar a data das eleições.
Terremoto político que só se poderia consubstanciar numa demissão do actual Executivo.
Demissão que, agora mais que nunca, não irá acontecer.
Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, sobretudo depois da detenção de José Sócrates, jogam com o tempo e o possível desgaste que o caso Sócrates venha a ter no seio do PS, para minimizarem o que parecia uma inevitável e estrondosa derrota eleitoral.
Se os partidos que formam a actual maioria se movem neste cenário, ao PS, na actual conjuntura (Sócrates, sempre Sócrates...), também em nada interessa a antecipação de eleições e uma possível erosão de votos resultante da detenção do ex-primeiro-ministro.
E temos assim os três partidos irmanados, não numa ideia de contrato social como Eanes defende, antes na ideia de deixar correr o tempo para tentar minimizar estragos.
Este cenário conduz à inutilidade política de uma iniciativa semelhante à que Ramalho Eanes propõe.
Acompanho o economista Carlos Paz quando este defende que a realização de eleições no actual pantanal político que existe em Portugal só iria adensar a confusão, a conflitualidade, a ingovernabilidade do País.
A maioria absoluta que se anunciava para o PS ter-se-à esfumado à saída da manga de um avião chegado de Paris.
Com esse esfumar, e com a aproximação de votações entre os três partidos do "centrão", a que não corresponde (longe disso!) uma aproximação política entre os seus líderes, o contrato social que Ramalho Eanes propõe seria inútil e até gravoso para o País.
Não é nada habitual discordar das ideias de Ramalho Eanes e, ao mesmo tempo, concordar com as ideias de Cavaco Silva.
Este é um desses momentos.
Quero acreditar que, no espaço que nos separa do próximo acto eleitoral, se possa clarificar o cenário político em Portugal e possa surgir uma solução de poder forte e credível.
E, já a pensar um pouco mais para a frente, um candidato à presidência com carisma e personalidade.
Só assim, e não com um qualquer contrato social negociado à pressa, se poderá sair de uma situação de profundo descontentamento, de profunda descrença, como aquela que se vive actualmente em Portugal.

26 comentários:

  1. Os contratos sociais não se firmam pelo rabisco dos intervenientes que, egoisticamente, persistem em simulações constantes da verdade em exibições mediáticas mandando às malvas a integridade de procedimentos e o interesse coletivo.

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    1. Agostinho,
      Nutro grande admiração por Ramalho Eanes.
      O que não impede que, neste caso, diga que ele meteu a a pata na poça.
      Um qualquer contrato social neste momento seria impossível e inútil.
      Só viria adensar a confusão.
      Concordo com o PR (quem diria!!) - vamos cumprir o calendário eleitoral e desejar que saia das próximas eleições uma solução de governo credível e forte.

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  2. Uma boa leitura de Portugal desde Macau.
    Cordiais saudações!

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    1. Admiro Eanes, Rui.
      Pela sua postura como cidadão, pelo seu exemplo.
      Neste caso, meteu água.
      Eleições, agora, seriam o desastre completo.
      Aquele abraço

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  3. Era tão bom saber desse Homem intrinsecamente bom, preocupado com o bem coletivo.

    Concordo contigo, não vai acontecer tal conjuntura.

    Ainda continuo a considerar o Eanes um político honesto.

    Beijinhos

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    1. Pérola,
      Ramalho Eanes é o exemplo que devia ser seguido por todos os políticos.
      Infelizmente, em vez de ser regra, é excepção.
      Admiro-o, não concordo com esta visão dele.
      Beijinhos

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  4. Pobre país o nosso !

    Não simpatizo com Ramalho Eanes por causa de diversas atitudes que teve, mas respeito-o porque o acho sério e responsável.

    Boa semana

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    1. São,
      É curioso que passei a simpatizar com Eanes, e a admirá-lo, depois de ele ter deixado a presidência da República
      Neste caso, não concordo com ele.
      Mas louvo a honestidade, o desprendimento, o serviço e a dedicação à causa pública do cidadão Antonio Ramalho Eanes.
      Boa semana para si também (fria e húmida por estas bandas)

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  5. O Ramalho Eanes doutorou-se há pouco tempo, não foi? Acho que numa universidade aqui de Espanha... Vê-se que foi beber aos calhamaços algumas destas ideias. :)
    Abraço

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    1. Ramalho Eanes é um homem culto, Miú Segunda.
      A ideia que apresenta, em teoria, é muito boa.
      O problema é a vertente prática e os protagonistas.
      Abraço

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  6. Vai ser muito difícil uma vez que a Justiça anda a passo de caracol e o caso vai arrastar-se de forma a estar ao rubro quando forem as eleições...
    Estamos feitos! :(

    Rosa dos Ventos

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    1. Rosa dos Ventos,
      Independentemente da velocidade da Justiça, Sócrates vai ser o ausente mais presente na campanha eleitoral.

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  7. ~ ~ ~ À primeira impressão, estaria de acordo consigo...

    ~ Não vivemos no cerne da questão, pelo que, duvido que possamos abranger, com precisão, toda a presente questão económico política.
    ~ A nossa opinião, forjada pelos media, será "grosso modo".

    ~ Como já afirmei, continuo a admirar o arguto discernimento de Ramalho Eanes.
    ~ Ainda que não seja completamente original, mas com eficácia comprovada, a solução por ele apresentada talvez conseguisse salvar da alienação os nossos melhores valores materiais e humanos.

    ~ Cavaco provou, inquestionavelmente, ser incapaz de qualquer decisão altruísta e patriótica. Apenas consegue alcançar os interesses do seu partido.
    ~ Fez uma tristíssima figura ao tentar negociar com os árabes, a venda de uma empresa falida que opera num país com a fama de corrupto, ao rubro.

    ~ ~ ~ Beijinhos. ~ ~ ~

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    1. A solução, em teoria, seria excelente, Majo.
      Vamos tentar pô-la em prática neste cenário político e com os actuais protagonistas.
      Impossível, tarefa impossível.
      Onde está o Homem bom que os autores dizem existir?
      Esse seria talvez alguém como Eanes, não os líderes políticos que agora temos.
      No que se refere ao PR já o afirmei muitas vezes - ele está a fazer o que os americanos diziam de Bush, isto é, a little presidenting.
      Para depois se reformar.
      Espero que o sucessor não seja quem Carlos Paz disse que será (Santana Lopes).
      Era o que nos faltava!!
      Beijinhos

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  8. Começando pelo fim, Pedro, diria que Eanes tem o perfil certo para voltar a ocupar o Palácio de Belém.

    Quanto ao restante texto - brilhante diga-se em abono da verdade - concordo que as "coisas" poderiam ter sido menos extremadas, no que respeita à solução dos problemas financeiros que enfrentamos, nos últimos três anos.

    Porém, o Sr. Ex -Primeiro - Ministro de Portugal, doravante denominado por Recluso 44, não o permitiu, fruto da desgraça em que deixou os cofres nacionais, resultado de obras faraónicas, de uma corrupção crescente que lesava (e ainda lesa) os cofres do Tesouro Nacional, e um abundante compadrio na nomeação dos cargos públicos que não foram, de todo, ocupados pelos mais capazes.

    Pedro, nem imagina o asco que sinto pela campanha de beatificação do Recluso nº 44 do EP de Évora, uma campanha que visa o descrédito da Justiça e dos seus operadores, em detrimento de alguém que se riu e ainda se ri de nós todos com os seus malabarismos.

    Citando um amigo querido : «Não há cu que aguente.»

    Aquele abraço.

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    1. Não faço ideia de quem possa ser o amigo que diz uma coisa dessas, Ricardo :))))

      Eanes é demasiado honesto, demasiado homem, para querer fazer a História repetir-se, Ricardo.
      Tem a intervenção cívica que o estatuto que muito justamente atingiu lhe autoriza e não passa disso.

      No que se refere a José Sócrates repito o que aqui escrevi - ninguém tem o direito de o condenar ou de o absolver em público.
      Essa é a função da Justiça.
      No dia em que não acreditarmos na Justiça, então fechemos as portas, encerremos para balanço e comecemos tudo de novo.
      Até lá, chame-se o juiz Carlos Alexandre, Manel ou Joaquim, é a ele que compete julgar, condenar, absolver.
      Porque só ele conhece o caso em toda a sua plenitude.
      Nós só conhecemos o ruído público.
      Dito isto, e para que fique claro, até porque é fácil ver isso aqui pelo blogue ao longo dos anos, não gosto de José Sócrates nem um bocadinho.
      Mas presumo-o, como a todos os arguidos, inocente dos crimes que é acusado até ao trânsito em julgado da sentença
      Aquele abraço

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  9. Ora aqui está um homem - Ramalho Eanes - por quem tenho uma admiração enorme!
    100% honesto, incapaz de uma deslealdade, Homem, com H maiúsculo! (sei do que falo, conheci-o de perto, foi colega de meu marido na Academia Militar)

    Por outro lado... uma que recebi hoje:
    "De cravos a escravos, foi um passo de coelho"

    Boa semana
    Beijinhos
    Mariazita

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    1. Também eu, Mariazita.
      Circunstancialmente não concordo com uma tomada de posição dele.
      Mas só isso.
      Este é um Homem de coluna direita, não é uma criatura de coluna de bambu.

      Gostei do passo de coelho :)))

      Beijinhos e votos de boa semana

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  10. À muitos anos que tenho uma forte admiração por Eanes, mas não posso concordo com tudo, acho até que um contrato social agora iria ser um desastre!
    Quanto ao Sócrates nunca gostei dele, no entanto não concordo da forma como se procedeu o desenrolar da situação, muito menos concordo com o país estar totalmente, ou quase, parado em prol desta telenovela.

    E eu tinha dito que não comentava sobre politica :) :)

    Beijinho Pedro

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    1. Seria um desastre se fosse possível realizar, Adélia.
      Mas nem isso é.

      Eanes é um cidadão exemplar.
      Que tem toda a autoridade para falara, para dar sugestões.
      Ainda que a gente possa não concordar com algumas.

      Como já afirmei, não gosto, nunca gostei, de José Sócrates.
      Mas agora é tempo de deixar a questão nas mãos da Justiça.
      Na qual (ainda) acredito.

      Beijinhos

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  11. Depois da «burrice» do PRD lhe ter passado e depois de muito estudar, Eanes voltou a ser aquele homem inteiro e vertical que conhecêramos. Fala bem e tem ideia corretas, mas neste caso fala apenas teoricamente porque esse entendimento que preconiza dificilmente se dará.
    Porém... nada de subestimar o PS.... Havemos de lá chegar, a bem do país!!

    Beijinhos socialistas cá do ocidente...

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    1. Neste caso foi demasiado teórico, Graça.
      Este entendimento, neste momento, com estes líderes políticos, é de todo impossível.

      O PS vai vencer as eleições na mesma
      Com ou sem o fantasma Sócrates vai vencer as eleições.
      No entanto, se fosse agora, muito provavelmente não seria com a margem que se antevia.
      No futuro, a ver vamos.
      Esse jogo é um dos sérios obstáculos à efectivação de um entendimento como este que Eanes propõe.

      Beijinhos independentes a Oriente :))

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  12. Caro Amigo Pedro Coimbra!
    Esta publicação política me fez lembrar do mar de lama (ou de fezes) que constrange sobremaneira meus patrícios, que é o escândalo da corrupção na Petrobrás.
    Caloroso abraço! Saudações enojadas/constrangidas/exasperadas/desgraçadas.
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento e do bem viver sem véus!

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    1. Amigo João Paulo de Oliveira,
      O pantanal (título de uma série/novela brasileira) não é um exclusivo da política portuguesa, longe disso.
      Infelizmente sente-se e vive-se em muitos locais por esse mundo fora.
      Grande abraço

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  13. Posso estar enganado, mas tenho enorme consideração por este Homem, uma das raras excepções à regra na política portuguesa desde o 25 de Abril !!!
    Um Homem em quem eu não hesitaria um momento para dar o meu voto caso ele se candidatasse de novo à Presidência da República ou até a 1º Ministro !!!
    Um Homem invulgar, nesta vulgaridade de medíocres ! ...

    Grande abraço !
    .

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    1. Não está nada enganado, Rui.
      Bem pelo contrário.
      Eu também admiro muito o cidadão António Ramalho Eanes.
      Neste caso, diria que excepcionalmente, não concordo com a proposta dele.
      Grande abraço

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