30 de dezembro de 2014

Catálogo das doenças da Cúria, por Anselmo Borges, DN 27.12.2014


Estou convencido de que nunca pensaram ter de ouvir o que ouviram. Estavam os cardeais, bispos, monsenhores na bela Sala Clementina, para a saudação natalícia papal. A Cúria — governo e administração central da Igreja — esperaria palavras diplomáticas, alusivas à data. Mas o Papa Francisco veio com o Evangelho, num discurso profético e arrasador.

A. Como seria belo, começou, "pensar que a Cúria romana é um pequeno modelo da Igreja". No entanto, "como todo o corpo humano, está exposta à doença, ao mau funcionamento". E enumerou, em tom duro, algumas destas doenças da Cúria. Tudo gira à volta da "patologia do poder". Assim, a primeira doença é a de "sentir-se imortal, indispensável", que leva ao narcisismo e a considerar-se superior a todos e não ao serviço de todos. Por isso, aconselhou uma cura de humildade: passar por um cemitério e ver os nomes de tantos que também pensaram que eram imortais e indispensáveis. "Uma Cúria que não se autocrítica, que não procura melhorar é um corpo doente". 2. Outra doença é o "martismo". No Evangelho, há duas irmãs: Marta e Maria e, enquanto esta escuta Jesus, Marta corre e atarefa-se sem descanso. O martismo é, pois, o trabalho excessivo, no stress, na agitação, sem repouso para a meditação e interioridade. 3. Há também a "fossilização mental e espiritual", que leva à perda da sensibilidade necessária para chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram. 4. Lá está ainda a doença do excesso de planificação e do funcionalismo, que conduz a posicionamentos estáticos e imutáveis, com a pretensão de domesticar o Espírito. 5. A doença da má coordenação, perdendo o espírito de colaboração e equipa. 6. A doença do "Alzheimer espiritual": perdeu-se a memória do encontro com Jesus e com Deus e vive-se então na dependência de concepções imaginárias, das próprias paixões, caprichos e manias. 7. Lá estão "a rivalidade e a vanglória", transformando-se a aparência, as honras e as medalhas honoríficas no primeiro objectivo da vida. 8. A doença da "esquizofrenia existencial", que é a de "quem vive uma vida dupla, fruto da hipocrisia típica do medíocre e do vazio espiritual que títulos académicos não podem preencher". Doença que afecta sobretudo quem se limita às coisas burocráticas e perde o contacto pastoral. 9. A doença dos "rumores, mexericos, murmurações, má-língua", que pode levar ao "homicídio a sangue frio". Cuidado com "o terrorismo dos rumores, do diz-se!". 10. A doença de "divinizar os chefes", própria de quem idolatra os superiores: "são vítimas do carreirismo e do oportunismo". 11. A doença da indiferença para com os outros. 12. A "doença da cara de funeral": são pessoas" bruscas e grosseiras", sem alegria nem delicadeza. 13. A doença da acumulação de bens materiais, querendo assim preencher "um vazio existencial no coração". 14. A doença dos "círculos fechados", com o perigo de cortar a relação com o Corpo da Igreja e até com o próprio Cristo. 15. A última é "a doença do mundanismo, do exibicionismo", transformando o serviço em poder.
B. É claro que "estas doenças e tentações são naturalmente um perigo para cada cristão e para cada cúria (diocesana), comunidade, paróquia, movimento eclesial, e podem ferir tanto a nível individual como comunitário", concluiu. Aliás, podemos acrescentar que as tentações de sentimento de imortalidade, Alzheimer espiritual, esquizofrenia existencial, exibicionismo, materialismo, vaidade, nepotismo, martismo... são tentações de governantes e cidadãos em geral, em toda a parte. Mas, aqui, sem adoçar as palavras, Francisco dirigiu-se directamente à Cúria romana, que não quer como corte e que não reagiu entusiasta ao discurso, apenas com palmas tímidas e frouxas. Possivelmente, a Cúria ao longo dos tempos terá feito mais ateus e provocado mais abandonos da Igreja do que Marx, Nietzsche, Freud e outros pensadores ateus juntos.


Recentemente, o historiador da Igreja, Andrea Riccardi, fundador da célebre Comunidade de Santo Egídio, ex-ministro da Itália e amigo de Francisco, advertiu que "o Papa tem muita oposição dentro e fora da Cúria, e sabe-o". Francisco está a operar uma revolução na Igreja e tem consciência de que há maquinações no sentido de um restauracionismo pré-conciliar. Mas também sabe, como acrescentou Riccardi, que, sem o Concílio Vaticano II, "a Igreja teria naufragado e seria uma pequena comunidade com um grande passado". "A Igreja errou ao apresentar-se como o partido dos valores tradicionais", e "aceitar o desafio de ser Igreja-povo é crucial". Francisco é consciente de que, sem reformas estruturais na Igreja, corre o risco de, desaparecendo ele, o seu pontificado vir a ser considerado como um simples parêntesis. Por isso, invocou a urgência de conversão da Cúria. Fê-lo, à luz do Evangelho, frente à Cúria e sabendo que a maior parte da Igreja e da opinião pública mundial está do seu lado.

12 comentários:

  1. Me perdoe Pedro, porque não disponho de tempo para ler o seu artigo agora.
    O ano está a terminar, e passei para agradecer a companhia na caminhada difícil que foi este ano de 2014, e desejar que 2015 seja um bom ano, não só para mim e todos os meus amigos, mas também para a humanidade em geral.
    Um abraço amigo e até para o ano, se Deus quiser.

    ResponderEliminar
  2. Isto hoje é fácil, Pedro. Papa Francisco, sempre e para sempre.
    Um abraço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Anselmo Borges segue Francisco cegamente, António.
      Cada um à sua maneira, em muito diferentes contextos, é uma voz refrescante na Igreja.
      Anselmo Borges é alguém que ainda espero vir a conhecer pessoalmentea através do meu pai.
      Aquele abraço

      Eliminar
  3. Já tinha lido. Muito bom!
    Feliz 2015, Pedro
    Abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Típica do grande Anselmo Borges, Carlos.
      Dá gosto lê-lo.
      Aquele abraço, votos de um maravilhoso 2015

      Eliminar
  4. Esperemos que o Papa consiga , ao menos, debelar algumas das doenças...

    Bom fim de 2014 e óptimo 2015, Pedro, em companhia das meninas e restante família!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. São,
      Francisco, com toda a coragem, toda a frontalidade, está a tentar.
      Admiro-o profundamente.
      Um excelente final de 2014, um magnífico 2015

      Eliminar
  5. Estou completamente a leste do tema que hoje abordas, mas não queria deixar de te desejar a ti e a todos os teus um FELIZ ANO de 2015! :)

    Uma grande beijoca!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Uma grande beijoca, Teté.
      Que 2015 seja FENOMENAL!!

      Eliminar
  6. O Homem tem coragem. Oxalá se mantenha no caminho que traçou.
    O Anselmo é brilhante.
    Bom Ano Pedro.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Um ser humano admirável, Agostinho.
      Anselmo Borges, repito, é alguém que admiro e espero vir a ter o prazer de conhecer pessoalmente
      Bom Ano!

      Eliminar