18 de março de 2014

O Papa e o maldito sexo (ANSELMO BORGES)



Não. Francisco não é o Papa dos "pobrezinhos", ao contrário do que, com menosprezo, escrevem certos comentadores. Ele é o Papa de todos, na justiça, na solidariedade, nas reformas da Igreja, e é esperável que tenha êxito.

Tem gigantescos desafios pela frente e, entre eles, está certamente a questão da sexualidade e da família no mundo actual. Nesse sentido, lançou um inquérito dirigido a todos os católicos do mundo e não apenas aos bispos e aos padres, precisamente sobre este tema, de tal modo que os fiéis todos puderam exprimir-se livremente a Roma, o que nunca tinha acontecido ao longo dos dois mil anos da Igreja. O Papa quer ter conhecimento directo da experiência e do pensar das pessoas sobre estas temáticas. Antes, a Cúria era informada pelos bispos, contendo os seus relatórios "mais desejos piedosos do que factos", como refere a Der Spiegel da passada semana (27 de Janeiro). Não se conhece ainda o número de respostas nem os seus resultados - em Portugal, o interesse parece ter sido diminuto e não se viu empenho forte por parte da Igreja oficial -, mas eles constituirão uma base de reflexão para o Sínodo extraordinário dos Bispos, em Outubro próximo.

O número referido da Der Spiegel, com capa com o título acima - Der Papst und der verdammte Sex -, adianta já respostas de algumas das 27 dioceses alemãs, mostrando "o abismo entre a Igreja e os fiéis". Mesmo na Baviera conservadora, 86% dos fiéis não consideram pecado a utilização da pílula ou do preservativo; 63% dos casados que voltaram a casar continuam a comungar e 90% não foi por causa disso que o não fizeram; 70% declararam que nas fases difíceis da separação não receberam apoio por parte da Igreja.

Muitos condenaram a doutrina católica por "estranha à realidade" e alguns, atendendo à linguagem das perguntas, sentiram-se enquanto "europeus da Europa Central a recuar pelo menos cem anos". Segundo a BDKJ (União dos católicos alemães - juventude), "a moral sexual católica não tem qualquer importância para nove em cada dez jovens católicos"; "sexo antes do casamento e anticonceptivos fazem evidentemente parte da sua vida em relação". Ainda segundo a BDKJ, 96% das pessoas que mantêm "vida sexual" sem casamento católico não têm nenhum problema com isso e, apesar disso, os jovens católicos participam nos sacramentos. O Vaticano está enganado quando pensa que os casais só depois do casamento vivem e dormem juntos. Uma vida em comum à experiência "é hoje uma realidade de que já se não pode abstrair", comunica a diocese de Augsburgo. E assim por diante, na sequência alfabética das dioceses, até Würzburg, onde "uns 90% dos casais praticam uma vida em comum ad experimentum" - Friburgo: "a vida comum antes do casamento pela Igreja não é nenhum caso extraordinário, mas normal".

Alguns sentiram-se inclusivamente "chocados", quando o interrogatório usa, para os divorciados, a expressão "situações irregulares", sendo excluídos da comunhão e não se tendo a Igreja preocupado com os seus "problemas" ou "necessidades de fé". Outro grupo que recebe grande apoio da base é o dos homossexuais. Comunidades houve que acharam muito importante que se acrescentasse um ponto às perguntas do Vaticano, exigindo que se ponha fim à lei do celibato obrigatório.

Os resultados das respostas, que dão um mau testemunho da instituição eclesiástica e mostram a discrepância entre a doutrina e a realidade mereceram este comentário do bispo de Mainz, o famoso cardeal Karl Lehmann, uma voz constante a favor de um catolicismo aberto: "Estes resultados, mesmo que não sejam representativos, testemunham e fortalecem a impressão de uma situação infeliz, fatal." "Há muito que já sabíamos", disse sobre o profundo abismo entre o povo fiel e a hierarquia, "muita coisa foi reprimida".

Os fiéis exigem agora a publicação integral dos resultados. Seja como for, mesmo com todas as suas deficiências, o inquérito desencadeou uma dinâmica que será difícil parar. A pergunta é: como vai Roma lidar com a questão?


in DN

12 comentários:


  1. ~ Olá, J.Pedro.
    ~ Deus queira que tudo corra de uma maneira transparente.

    ~ Soube de uma deputada psd, qie chorou no parlamento, afirmando que não queria, mas votou contra a coadoção, porque foi pressionada?
    ~ A pobrezinha de espírito obedeceu, depois arrependeu-se!

    ~ Há muitas formas de condiciomar resultados! ~

    ~ ~ Um bom dia. ~ ~ Beijinhos. ~ ~

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    1. Majo,
      A disciplina de voto, a carneirada, é das coisas mais estúpidas que conheço.
      Seja qual for a matéria, obrigar ao "Maria vai com as outras" é uma perfeita estupidez.
      Beijinhos

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  2. Ouvi Anselmo Borges aquando da morte de Policarpo e , mais uma vez, gostei da sua sinceridade e capacidade de análise , não caindo naquela nossa característica estranhisima de tornar a pessoa num ser excepcional e exemplar, logo que morre.

    A Igreja Católica portuguesa continua atrasada séculos . Caso contrário não viria concordar com a manobra do PSD sobre a co-adopção, dado ser uma questão de consciência e de existirem crianças já em situação.

    Nem Manuel Clemente, com aquele seu sorriso melífulo diria que todos os direitos das minorias devem ser referendados e que a sociedade tem que entender o esforço do Governo, porque têm uma enorme responsabilidade e demonstra competência.

    Essa falta de apoio nos momentos mais dolorosos corresponde, desgraçadamente, à realidade...

    Realmente os resultados não me surpreendem, pois o abismo entre o Vaticano e a sociedade é abissal.

    Esperemos que a Francisco não aconteça o que aconteceu a João Paulo I.

    Desejo que já esteja totalmente recomposto.

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    1. São,
      Como Francisco, e com pessoas com Anselmo Borges, há algum ar fresco a entrar na Igreja.
      Como dizia Deng Xiaping, quando se abre a janela, entra ar fresco.
      Também podem entrar moscas, mas vale a pena deixá-las entrar se também entrar ar fresco.
      E é isso que detecto em alguns sectores da Igreja, sob o impulso e o chapéu de Francisco.

      Já estou quase a 100 por cento :)

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  3. Há uma lacuna enorme entre o que a Igreja “consente” e a prática da maioria dos católicos. Não obstante as suas boas intenções (algumas delas concretizou e concretizará), necessitaremos de muitos Papas como ele para que a Igreja aceite a realidade do “seu povo fiel”.

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    1. catarina,
      Lá vou eu recorrer à sabedoria chinesa - "uma longa caminhada começa com um pequeno passo".
      Estamos perante os primeiros passos do que será uma longa caminhada.
      Mas esses passos estão a ser dados.
      Só o escutar as pessoas e discutir os assuntos, que eram tabu, são sinal evidente disso mesmo.

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    2. Sem dúvida. Este Papa é uma baforada de ar fresco!

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  4. Como é que isto vai acabar não sabemos mas, uma vez aberta a janela, como refere o Pedro, é imparável o processo iniciado. Os que por tradição tapam os olhos e os ouvidos vão ser incomodados pelas moscas os outros vão respirar melhor. Os primeiros com profunda caridade, piedosas mentiras e tradição vão instrumentalizar as coisas de modo a que tudo fique quase na mesma. Os segundos vão ter a coragem de admitir mudanças que adaptem a Igreja à realidade das pessoas e fiéis.
    Provavelmente haverá cismas.

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    1. Francisco teve a coragem e a capacidade de colocar o comboio em andamento, Agostinho.
      Vamos ver com que resultados no futuro.

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  5. Francisco I em Roma / Vaticano a lavar os pés aos presos como a pecadora Madalena lavou os pés de Jesus. Que símbolo magnífico.

    Francisco de Assis, candidato do PS ao Parlamento Europeu, que também quer mudanças em Bruxelas.

    Há tantos chicos que querem mudar o mundo...

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    1. Francisco é excepcional, ematejoca.
      Chicos-espertos??
      Passo! :))

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    2. Claro que o Francisco I não é um "chico esperto".

      Certo é, que ele vai tentar mudar algumas coisas numa igreja moribunda, mas nada que valha a pena, a meu ver.

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