17 de setembro de 2013

DUAS GUERRAS ( Frei Bento Domingues, O. P.)


1. A significação das palavras depende, em muito, do seu uso. Por método deveria fazer aqui uma sinopse das significações da palavra religião e religiões, mas é algo pouco apropriado para uma crónica. Espero que se entenda que os maiores inimigos da verdadeira religião- isto é, da intensa relação com a transcendência de Deus e dos outros - são sempre os considerados “mais religiosos”, os mais fanáticos, os que chamam Deus em seu auxílio para fazer o mal, sacralizando os interesses mais perversos. O Antigo Testamento está cheio dessas narrativas arrepiantes. Não vale a pena tentar justificá-las pelo seu contexto histórico e cultural. Também não há contexto histórico, cultural, religioso, que possa legitimar as guerras religiosas da cristandade. O muro levantado entre judeus e palestinos não me parece o melhor templo para as orações de um e de outro lado. Em certas expressões islâmicas do nosso tempo, a tradição da “guerra religiosa” atingiu o delírio. Depois, para a combater retorna-se ao fundamentalismo político-religioso de alguns mundos ocidentais. Parece-me que o “Deus dos exércitos” já tem tropa a mais. Há textos bíblicos que são profundamente reveladores daquilo que, em nome da religião, se pode fazer de pior: colocar na boca de Deus o ódio que nasce da nossa desumanidade. A própria cruz de Cristo nem sempre foi a vacina contra a loucura.
A indústria das armas precisa de guerras. Os caminhos da paz exigem sabedoria. Terá a demência bélica cegado Barack Obama, prémio Nobel da Paz? Espero que tenha tempo para reler o que escreveu: “não podia apoiar uma ‘guerra burra, uma guerra feita à pressão, uma guerra que era produto não da razão mas da paixão’ (...). Sabia que uma invasão do Iraque sem motivos claros e sem forte apoio internacional só iria inflamar os ânimos no Médio Oriente e fomentar não os melhores, mas os piores impulsos no mundo árabe e fortalecer o ramo de recrutamento da Al-Qaeda.” [i]
2. Depois da ida a Lampedusa, de passar pelo Rio de Janeiro, o Papa Francisco convocou os católicos e todos os povos para a troca da guerra na Síria e contra a Síria por um gesto universal de Paz. Os dominicanos portugueses, reunidos em Capítulo Provincial, consternados com a trágica evolução dos acontecimentos fizeram seu o apelo do papa Francisco e o comunicado da Comissão Geral de Justiça e Paz, manifestando:
“O horror e indignação pela utilização de armas químicas no conflito, que provocaram a morte a milhares de pessoas, a maior parte entre a população civil. A confirmar-se este facto, trata-se de graves crimes de guerra, cuja autoria deve ser apurada e os seus autores julgados pelas instâncias adequadas.
A Comunidade Internacional não pode admitir estes crimes e deve trabalhar para ajudar à resolução do conflito. Contudo, julgamos ser um erro grave responder com bombardeamentos ou ataques armados a um dos contendores, já que isso causará mais vítimas inocentes e o agravamento da situação. Pedimos ao governo português que não colabore nem apoie qualquer acção neste sentido.
Sentimos profunda tristeza pela magnitude da violência, mortalidade e destruição geradas neste conflito. Lembrando as palavras do Papa Francisco de que «a violência não traz a paz. A guerra gera guerra. A violência gera violência», unimo-nos à sua convocatória para celebrar no próximo dia 7 de Setembro uma jornada de jejum e de oração pela paz naquele país”.
3. Em Portugal, somos nós que fazemos guerra ao nosso país. Chega o Verão e repete-se a calamidade dos incêndios. Enquanto o fogo alastra reacende-se a pergunta: quem é o responsável por tanta destruição? Este ano, várias pessoas, bombeiros e bombeiras, perderam a vida no combate inglório às chamas. Talvez se possa e deva apurar a responsabilidade do que acontece. Não é uma fatalidade. Há quem sustente que existe uma indústria dos incêndios.
Não basta, porém, fazer a lista da distribuição de culpas e desculpas: não há guardas florestais suficientes, ninguém limpa as matas, nem o Estado nem os particulares, falta de ordenamento do território, interesses de madeireiros e dos negócios ligados aos meios, terrestres e aéreos, que precisam do fogo para prosperarem. Seja como for, estamos mergulhados num pecado colectivo de omissão. Pergunta-se: Não será possível suscitar movimentos que responsabilizem a Assembleia da República, os partidos, os governos, os municípios, as freguesias, as dioceses e paróquias, as forças armadas e policiais pela organização, até ao Natal, de um plano - a executar de Janeiro a Maio - que defenda o território de todos? Evitem-se as habituais astúcias jurídicas que deixam a porta aberta ou semi-aberta às interpretações que paralisam a execução rápida e ajustada das medidas que podem pôr fim às reedições desta guerra estúpida contra nós próprios. Quanto aos pirómanos impunes, lembre-se que há muito trabalho na limpeza das praias
Por falta do exercício da cidadania, gastamos milhões para assistir, em directo, ao espectáculo do empobrecimento de Portugal.  
                                                                              
Barack Obama (Audácia da Esperança, ed. port. Casa das Letras, pág. 281-289).

15.09.2013
in Público

6 comentários:

  1. Magnifico, aliás, como sempre!!!

    Abraço, Pedro!

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    1. Saído da pena de Frei Bento Domingues é normal, Ricardo.
      Aquele abraço!!

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  2. Quanta verdade neste texto.
    E Deus continua em silêncio... A Sua palavra é aproveitada para fanatismo e guerras sem amor

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    1. Se calhar Ele fala, luís.
      O problema é que não é ouvido ou é mal interpretado.

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  3. gosto deste senhor e subscrevo este texto. De facto há um sector industrial a necessitar de vender produtos. o capital fomenta muita desumanidade ...

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    1. Frei Bento Domingues é uma daquelas figuras de pensamento e voz livres dentro da Igreja.
      Não haverá muitas, ele é uma delas, Tétisq

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