31 de outubro de 2019

Brexit revisited


O processo do Brexit estará finalmente à beira da conclusão.
Ou não…
Porque vai haver eleições antecipadas que vão clarificar a situação política em Inglaterra.
Ou não…
E porque o prazo para o Brexit foi revisto pela última vez.
Ou não…
E porque o Parlamento e o Governo em Inglaterra finalmente se entenderam.
Ou não…
E porque a União Europeia está farta das indecisões dos britânicos.
Ou não…
E porque a questão das fronteiras está definitivamente ultrapassada.
Ou não…
E porque um novo referendo acerca do Brexit ainda é possível.
Ou não…
E seja qual for o resultado desse improvável referendo os britânicos vão finalmente respeitá-lo e conformar-se com o mesmo.
Ou não…
Acho que ficou tudo claro.
Ou não?

Intemporais (184)

30 de outubro de 2019

Quem é que falou de impeachment?


Donald Trump continua a sua busca desesperada por manchetes, notícias.
Tudo o que não seja falar do processo de destituição (impeachment) é bom.
Abater Abu Bakral-Baghdadi foi assim um momento de glória para Donald Trump.
Não se fala de impeachment, a tal América profunda exulta com o feito do seu líder, Trump pode agora rivalizar com Obama (um abateu o líder da Al Qaeda, o outro o líder do Daesh) e pode triunfalmente dizer que teve o apoio dos seus aliados nesta operação.
Por momentos a América passou indubitavelmente a ser líder e sinónimo do bem no Mundo aos olhos dos indefectíveis apoiantes de Trump e não se falou no processo de destituição de Trump.
Ainda assim, bad news, o impeachment segue dentro de momentos.

Sem comentários

29 de outubro de 2019

Menino das sete saias


Chama-se Rafael Esteves Martins e é por estes dias a grande figura mediática em Portugal.
Porque entrou de saias na Assembleia da República.
E o debate (???) é intenso.
Nas redes sociais, nos jornais, nas conversas de café, fala-se no menino das sete saias, a versão masculina da balada que os Trovante tornaram famosa.
O que é curioso é que, no meio das vozes de indignação (onde já se viu um homem de saias??!! E no Parlamento!!!), e de apoio (são sinais dos tempos, é o Portugal moderno e inclusivo), poucos são os que se interrogam acerca do óbvio – assessor de uma deputada? Os deputados têm assessores? Todos os deputados? E não há assessores da Assembleia da República? Quantos?
A indumentária do ilustre, por muito que possa não ser compatível com o meu gosto pessoal, não é o essencial nem o mais ofensivo.
O possível desperdício de dinheiro público isso sim é bem mais importante que as saias do assessor.

Arte mostra que mulheres já lideraram a comunidades cristãs




Várias obras de arte cristãs dos primeiros séculos mostram mulheres em lugar de grande destaque nas assembleias dos crentes. Uma das imagens é a que representa uma mulher, de nome Cerula, encontrada nas catacumbas de São Januário, em Nápoles, em 1971: a mulher aparece de mãos erguidas, tendo sobre a sua cabeça as letras Qui e Ró, que simbolizam Cristo, e dois evangelhos flamejantes ao lado.
As informações foram dadas por Luca Badini, professor e investigador da Universidade de Birmingham (Reino Unido), que é também director de Investigação no Wijngaards Institute for Catholic Research e autor de vários livros sobre a democracia e o ecumenismo na Igreja Católica.
Num encontro promovido pelo movimento Nós Somos Igreja, em Lisboa, a 19 de Outubro, Luca Badini acrescentou que a iconografia e a forma de representar Cerula era habitualmente reservada a líderes de grande estatuto, como os bispos. E a representação desta mulher é apenas uma entre várias que confirma que, no início, as mulheres tiveram também funções de destaque ou mesmo de liderança nas comunidades cristãs dos primeiros séculos.
Para Luca Badini, factos como estes mostram que não há argumentos suficientes para impedir a ordenação de mulheres no catolicismo, sejam elas de carácter baseadas na tradição ou na interpretação das escrituras ou dos textos do magistério. E hoje os avanços sócio-culturais ou as recentes investigações mostram a insustentabilidade de algumas dessas teses, defendeu Badini.
A iniciativa do Nós Somos Igreja – Portugal concluiu a reunião do comité da Women’s Ordination Worldwide (WOW) em Lisboa. A WOW, fundada em 1996 na Áustria, é uma rede de grupos católicos que defende a possibilidade do acesso das mulheres aos ministérios ordenados. O Nós Somos Igreja – Portugal integra também a WOW, a par de outras organizações como a Women’s Ordination Conference, dos Estados Unidos, e a Roman Catholic Women Priests, responsável pela ordenação de sete mulheres no Danúbio em 2002.
(Texto redigido com base em contributo de Pedro Freitas)

28 de outubro de 2019

Uma Loira que de Burra não tinha nada!


No escritório:

– Conheço uma maneira de conseguir uns dias de folga! – diz o empregado à sua colega loira.

– E como é que vais fazer isso? – diz a loira.

– Vou demonstrar.

Nisto, ele sobe pela viga, e pendurou-se de cabeça para baixo no tecto. 
Nesse momento o chefe entrou, viu o empregado pendurado no tecto e perguntou:
– Que diabo você está a fazer aí?

– Sou uma lâmpada. – respondeu o empregado.

– Hummm…acho que você precisa de uns dias de folga. 
Vá para casa.

Ouvindo isto, o homem desceu da viga e dirigiu-se para a porta.

A Loira preparou-se imediatamente para sair também.

O chefe puxou-a pelo braço e perguntou-lhe:
– Onde você pensa que vai?

– Eu vou para casa! Não consigo trabalhar às escuras!

BOA SEMANA! 

25 de outubro de 2019

Oferta irrecusável

 
Humor no vigésimo segundo aniversário do nosso casamento
 
BOM FIM-DE-SEMANA! 


24 de outubro de 2019

Vozes de burro não chegam ao céu


Vozes de burro não chegam ao céu é uma expressão que se deve utilizar para comentar algo que é dito de forma infundada ou gratuita.
Muita tinta tem sido gasta porque uma dessas vozes, supostamente de um especialista, se fez ouvir publicamente.
Como não gosto de perder tempo com imbecilidades tentei ignorar mais uma voz que não chega ao céu.
A pequenez e a mesquinhez do raciocínio da criatura só merecem desprezo.
Até porque não quero acreditar que quem o ouve lhe dê mais importância que aquela que merece.
Inclusivamente no “céu” que pretende atingir e bajular.
Vozes de burro não chegam ao céu, alguém tenha bondade de lhe explicar isso para acabar a conversa.

Intemporais (183)

23 de outubro de 2019

A anedota americana



Na minha juventude organizava, juntamente com um grupo de amigos sempre bem dispostos, umas festarolas para a malta.
Que não tinham local fixo, antes eram repartidas pelos locais que achávamos mais apropriados para a ocasião.
Lembrei-me desses tempos por causa no inefável Presidente dos Estados Unidos.
Donald Trump, à medida que o seu mandato caminha para o fim, já só me faz rir.
Mais que tudo Donald Trump passou a ser o meu menino travesso favorito.
Até na organização de festarolas Donald Trump consegue ser anedótico.
Prepotente (I know the best places!), Donald Trump toma estas dificílimas decisões sozinho.
E decide organizar reuniões dos líderes das maiores potências mundiais nos seus resorts.
Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não tem arte, ensina a sabedoria popular.
Donald Trump é tolo mas tem arte.
E manda a malta pagar-lhe para se reunir.
Quando lhe chamam a atenção, e lhe dizem que este comportamento é altamente criticável, faz birra no Twitter porque os outros meninos não o deixam fazer o que lhe apetece.
Por causa de Donald Trump, e das suas trapalhadas estou sempre a relembrar Jorge Valdano e a sua vontade de rir, rir, rir.

Ementa para a cimeira do G7


22 de outubro de 2019

Predomínio do executivo


Na Região Administrativa Especial, como foi pensada e plasmada na Lei Básica, vigora um sistema político em que se consagra o predomínio do poder executivo (executive lead).
Mas esse predomínio não pode nunca influir na clássica tripartição de poderes sob pena de se subverter toda a lógica que sustenta a existência do segundo sistema.
E foi precisamente isso que aconteceu numa tristemente célebre sentença muito recente.
Um tribunal tem que se abster de formular juízos de oportunidade política e cingir a sua análise puramente a argumentos jurídicos, à conformidade com a lei vigente dos actos praticados pelo poder político.
Respeitar sentenças dos tribunais não significa não as analisar, não as discutir.
Só quando isso acontece o sistema, sobretudo o segundo sistema, funciona em toda a plenitude.
Tinha aqui exprimido a opinião que o sistema ainda não tinha sido testado até ao fim em muitos domínios da vida pública.
Não ficaria bem com a minha consciência se agora não deixasse claro que, quando foi testado até ao fim num desses domínios, falhou rotundamente.

QUE COISA SÃO AS NUVENS (JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA)


PASSE-VITE

A VELHICE APRESENTA INTERROGAÇÕES E DILEMAS ESPECÍFICOS, MAS É BEM MAIS DO QUE UMA IMAGEM ESTEREOTIPADA

A patente deste equipamento de cozinha tem registo datado de 1928, em nome do inventor belga Victor Simon, mas a verdade é que o famoso ralador de inox, mais ou menos se universalizou, e por duas razões: passa depressa os alimentos e deixa-os com uma consistência que facilita a deglutição. Dá que pensar a expressão “passe-vite”. De facto, não são apenas os legumes que giram em velocidade entre as hélices do ralador. Da nossa própria vida podemos dizer que um dos seus traços é esse: no seu trânsito frágil, fascinante e inelutável, ela passa depressa. Tenho um bando de amigos que, pesando tudo isso, se autodenominou ‘passe-vite’. Cruzaram-se nos tempos de universidade, cimentaram a amizade nessa outra escola de vida que é o voluntariado social, maturaram as próprias escolhas na partilha da palavra e do silêncio, da fé e da procura. Há anos que se encontram regularmente, que se encontram a bem dizer por nada, apenas no desejo de regar as raízes do seu futuro comum, pois a conspiração que os anima é a de, na velhice, poderem viver todos juntos (na mesma casa, no mesmo lar, na mesma jangada, no mesmo bosque). Um dia convidaram-me para um desses encontros, e sinto também que por nenhuma razão em especial: queriam simplesmente estar, estar com a pessoa, mais do que ouvir falar sobre um tema. Foi aí que me explicaram a rir o seu projeto, esclarecendo que, entre eles se chamavam assim, “porque a vida passe vite e porque quando arrancarem finalmente com a comunidade de idosos terão já de comer a paparoca mais passada”. Primeiro ri com eles até às lágrimas, com a sua louca e sapientíssima ligeireza, mas depois dei por mim só com lágrimas descendo-me pelo rosto, pois aquele bando de jovens adultos, que aparentemente não queria nada, me estava afinal a mostrar oceânicas profundezas da vida.

Cada um de nós envelhece à sua maneira, com a sua própria dicção e os seus limites, os seus contextos e os seus sonhos, mas temos muito que aprender uns com os outros

Recordei-me deles estes dias ao ler um livro de Marta C. Nussbaum e Saul Levmore, amigos de longa data e colegas na Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, intitulado “Envelhecer Com Sabedoria. Diálogos Sobre a Vida, o Amor e o Remorso”. E a lição que se retira dessas conversas entre a filósofa e o jurista é que há um défice de pensamento sobre a velhice que se torna urgente inverter. Cada um de nós envelhece à sua maneira, com a sua própria dicção e os seus limites, os seus contextos e os seus sonhos, mas temos muito que aprender uns com os outros. E a verdade é que falamos pouco sobre isso ou, pelo menos, não de forma suficiente e aberta. Trata-se, no fundo, de preparar juntos uma etapa da vida como, a seu tempo, foi acompanhada a infância, a iniciática adolescência ou cada um dos ciclos da vida adulta. E da mesma maneira que, nessas outras etapas, também o discurso das competências externas e dos recursos internos se deve colocar. A velhice apresenta interrogações e dilemas específicos, mas é bem mais do que uma imagem estereotipada. Associadas às dores há o saborear de alegrias talvez ainda não experimentadas. A par das preocupações, é possível provar, não raro, uma serena liberdade na forma de estar com os outros, uma compreensão mais ampla e maturada do real, uma criatividade mais afetuosa e menos temerosa. No meio de tanta transformação que a velhice comporta, ela permite enfrentar não só a perda, mas também o amor; não só a solidão, mas também formas novas de presença e companhia; não só a avolumar das necessidades, mas também o gratuito perfume do dom. A velhice pode ser uma oportunidade para viver de forma mais reconciliada, pacificadora, espiritual e atenta, na fidelidade a essa arte que nos está confiada: a de dizer e redizer infinitamente o amor.

17 de outubro de 2019

Continua o diálogo de surdos


Em Hong Kong mantém-se o diálogo de surdos.
E é fácil prever que se mantenha por mais algum tempo (quanto tempo é que ninguém sabe).
Com a cambiante de agora também haver “surdos” no exterior de Hong Kong.
Se a nível interno se mantém o extremar de posições, e o discurso estafado da não interferência em assuntos internos (como se isso fosse possível hoje em dia em algum ponto do Globo!!), a nível externo, Donald Trump e Boris Johnson agradecem o apelo dos manifestantes de Hong Kong.
Por momentos deixou de se falar no processo de destituição nos Estados Unidos, e do aproximar vertiginoso da data limite para o Brexit, para se falar na hipotética restrição de liberdades em Hong Kong e nos possíveis excessos das forcas policiais.
Rigor na informação, na investigação, credibilidade das fontes, são pormenores despiciendos quando o fim pretendido é desviar atenção, mudar o tema.
Quem é que falou em fake news??

Intemporais(182)

16 de outubro de 2019

O povo saiu à rua


As redes sociais mudaram o Planeta.
O acesso ilimitado a todo um mundo de notícias, de contactos, tantas vezes sem rosto, é um novo desafio para os decisores políticos.
Ruas cheias de pessoas descontentes com o rumo da governação começam a ser quase um hábito.
Na actualidade, e no futuro, quem decide terá que se preocupar com o impacto imediato que as decisões que toma poderão provocar.
Já não é um efeito a médio prazo, fechado entre paredes de gabinetes ou parlamentos, é um efeito imediato resultante de uma convocação em massa que só as redes sociais permitem.
A internet efectivamente democratizou as sociedades.
E está cada vez mais a responsabilizar quem decide.
Porque agora já não é preciso o rei fazer anos para o povo sair à rua com a alegria que costumava ter.

O talento de Kevin Spacey

15 de outubro de 2019

Ainda e sempre os táxis


Passei uns dias em Portugal em visita a familiares e amigos.
Já de regresso a Macau, no voo entre Lisboa e o Qatar, uma das assistentes de bordo, Portuguesa, disse-me que já tinha visitado Macau e tinha odiado.
Confesso que me incomodou o comentário tão desassombrado e simultaneamente tão assertivo.
Quando lhe perguntei o que tinha provocado tão forte sentimento de repulsa, começou por me dizer que aconteceu logo à chegada.
Porque os taxistas eram mal educados, rudes, não entendiam nada do que lhes era dito nem se preocupavam com isso, porque seleccionavam clientes, porque os táxis estavam porcos e a cair de podres.
Não sendo novidade, entristece quem aqui vive e fez de Macau o seu lar.
Quantos visitantes ficam, logo à entrada, com este sentimento?
Estes patifes, fora da lei e acima da lei, é assim que demonstram o seu tão falado amor à Pátria e amor a Macau?
Slogans não têm qualquer valor ou significado quando a prática diária os desmente frontalmente.
Fiquei triste, aborrecido.
E calado porque tenho consciência que não se pode discutir o indiscutível.

Sínodo para a Amazónia: um mini-Concílio Vaticano II (Anselmo Borges Padre e Professor de Filosofia)


Começou em Roma no passado dia 6 e estará activo até ao próximo dia 27 o Sínodo para a Amazónia. Estão presentes 185 Padres sinodais, mas participam também membros da Cúria, religiosos e religiosas, auditores e auditoras, peritos, membros de outras confissões religiosas, convidados..., o que perfaz, em números E se dirija directamente só a uma zona determinada do planeta, ainda que extensíssima e tocando nove países (Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), a sua temática -"Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral" - é universal e vai marcar este pontificado com um antes do Sínodo e um depois. Penso que estaremos num processo de recuperação da dinâmica do Concílio Vaticano II, um dos acontecimentos mais importantes, se não o mais importante, do século XX, para a Igreja e para o mundo. O Papa Francisco acentua que a sua missão fundamental é criar "processos" no tempo, irreversíveis, sem possibilidade de voltar atrás, a caminho de objectivos essenciais, que já vêm do Vaticano II.
2. Destaco quatro desses pontos fundamentais, a debater no Sínodo e que influenciarão a Igreja universal.
2. 1. Logo na terminologia. O Papa quer uma Igreja sinodal, isto é, na qual, como diz o étimo da palavra sínodo, se faça o caminho juntos. Repete constantemente: "a Igreja somos nós todos". Se é assim, o que é de todos deve ser partilhado por todos. Na véspera da abertura do Sínodo, aquando da imposição do barrete cardinalício aos novos cardeais, lembrou-lhes que não são príncipes, e pediu-lhes "lealdade" e "compaixão", também no sentido etimológico da palavra: partilhar as alegrias, as tristezas e as angústias de todos, a começar pelos "descartados", com os quais devem ser samaritanos, e que evitem ser "funcionários". Um desses novos cardeais, Cristóbal López, arcebispo de Rabat, sabe que assim deve ser, ao afirmar: "Os cristãos são todos iguais, o ser bispo ou cardeal não nos torna superiores a ninguém". Na Igreja, não pode haver duas classes: os clérigos e os leigos, pois toda a Igreja é uma Igreja de iguais, ministerial.
2. 2. Francisco propugna por uma "ecologia integral". Disse-o na sua encíclica Laudato Si, que fica para a História. É a mesma lógica economicista que está na base da depredação da mãe Natureza, a nossa casa comum, e da injustiça social, do escândalo da pobreza e da exclusão de multidões de homens e mulheres. Quando é que se entenderá que o grito dos descartados e o grito da mãe Terra devastada são o mesmo grito e que os pecados ecológicos são pecados contra Deus e contra a Humanidade?
Quando se olha para a situação da região panamazónica, percebe-se a urgência de mudar de rumo. Aliás, um conjunto de cientistas de vários países, que inclui o Prémio Nobel Carlos Nobre, acaba de entregar ao Sínodo e dar a conhecer um documento, "Um quadro científico para salvar a Amazónia" (assinam 44 especialistas), no qual se lê que "hoje a Amazónia e os seus habitantes estão ameaçados de extinção, representando a sua agonia uma ameaça dramática para o bem-estar humano, da nossa geração e das gerações futuras." Constatando que a Amazónia "possui uma imensa riqueza natural, cultural e singular diversidade", sendo "o maior repositório de biodiversidade do mundo", apelam "aos governos, às empresas, à sociedade civil e aos povos de boa-fé de todas as partes do mundo para se unirem num esforço comum pelo bem da Humanidade e da Terra hoje e no futuro."
Aí está um desses problemas que exigem o esforço de toda a comunidade internacional e uma nova ordem mundial, no quadro de uma Governança global, já que todos são afectados, sem excepção.
2. 3. Uma Igreja com rosto amazónico.
Muitas vezes me interrogo sobre qual seria a nossa compreensão de Jesus e do Evangelho, se, logo no princípio, a evangelização, em vez de partir de Jerusalém para Atenas e Roma, isto é, para a cultura helenista, tivesse derivado para a China ou para a Índia, por exemplo. A linguagem e a conceptualidade que utilizamos seriam diferentes; por exemplo, o Credo tem muitos conceitos gregos, de tal modo que quando se diz sobre Jesus Cristo: "gerado, não criado, consubstancial ao Pai", quem entende hoje esta linguagem?

Que é que isto quer dizer? O Evangelho é o mesmo, mas, uma vez que a nossa identidade é dada numa determinada cultura, sempre aberta, a mensagem de Jesus e a fé devem inculturar-se, atender às diferentes culturas, para que possam ser compreendidas e vividas. Juan Carlos Scannone, um dos teólogos de referência e antigo professor do Papa Francisco, acaba de afirmar, contexto do Sínodo: "A fé faz-se cultura e, portanto, não é a mesma coisa ser cristão na Amazónia ou na Espanha, Argentina, Índia ou África. Quando se adoptam formas culturais, há ao mesmo tempo um movimento de encarnação, de purificação e de transformação. Penso que esse momento de inculturação é muito importante, sobretudo nesses povos originários da Amazónia, que são muito diferentes. E, por outro lado, também a sinodalidade, entendida como uma grande orquestra na qual cada um toca um instrumento diferente mas a partir da unidade. A Igreja manifesta-se como uma comunhão e um caminhar juntos." As Igreja locais são uma porção da Igreja universal e, com a sua identidade cultural, histórica, litúrgico-celebrativa, canónica, enriquecem-na. Há um só Povo de Deus, numa pluralidade de rostos.
Dou exemplos. Pensando na ecologia, não terão esses povos uma lição a dar-nos na sua relação contemplativa e familiar com a Natureza, que não pode ser reduzida a um reservatório de energias e possíveis negócios a explorar? Quanto à celebração litúrgica, concretizando quanto à Eucaristia, pergunto: "Se o pão de trigo e o vinho de uva não são elementos essenciais dessas culturas, como o são na cultura mediterrânica, a celebração da Eucaristia não deverá também adaptar-se?"
Já na abertura do Sínodo, mas isto é menos importante e quase folclórico, Francisco queixou-se: "Deu-me muita pena ouvir aqui dentro um comentário a dar piadas de mau gosto sobre esse senhor piedoso que na Missa levou, com penas na cabeça, as oferendas ao altar. Digam-me: qual é a diferença entre levar penas na cabeça e o tricórnio que usam alguns funcionários dos nossos Dicastérios?", e arrancou um aplauso dos presentes na sala. Aqui, entre parêntesis, permito-me um comentário: penso sinceramente que, nos tempos que correm, já é altura de acabar com tanta pompa aquando da criação de cardeais, e, sinceramente, olhando para o barrete e vestimentas cardinalícias, ouvi muita gente, sobretudo jovens, a reclamar algum decoro, para se não cair no ridículo. Já não se trata só de uma questão de simplicidade...
2. 4. Ordenação de homens casados e os ministérios das mulheres. No Instrumentum Laboris (instrumento de trabalho) para o Sínodo, contempla-se a possibilidade de ordenar como padres homens casados, preferencialmente indígenas, respeitados e indicados pela comunidade, e também identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido à mulher. Apesar da indignação dos rigoristas e ultraconservadores, o tema está a ser debatido no Sínodo e estou convencido de que essa possibilidade se vai tornar realidade, primeiro para a Amazónia e, lentamente, estender-se-á a toda a Igreja.
Afinal, não foi isso que aconteceu na Igreja durante o primeiro milénio? A lei do celibato obrigatório só começou a impor-se no século XI. Mesmo depois do Concílio de Trento, no século XVI, a lei não se estendeu às Igrejas católicas orientais e, actualmente, os pastores protestantes que se convertem ao catolicismo continuam com as suas famílias. Há uma pergunta essencial: porventura não é a Eucaristia o centro da Igreja? Sendo assim, o que deve estar em primeiro lugar: a manutenção da lei do celibato ou a possibilidade da celebração eucarística? No Novo Testamento, por exemplo, na Primeira Carta a Timóteo, lê-se: "É necessário que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, ponderado, de bons costumes, hospitaleiro, capaz de ensinar, que não seja dado ao vinho, que governe bem a própria casa, mantendo os filhos submissos, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará ele da Igreja de Deus?"
Na presente situação, opor-se a esta possibilidade é um suicídio.
E quanto às mulheres? Estão 35 a participar activamente no Sínodo e reclamam poder votar o documento final. Poderá a Igreja continuar a discriminá-las? Não é verdade que Jesus tinha discípulos e discípulas? Não foi a Maria Madalena que Jesus se manifestou após a sua morte para que fosse anunciar aos outros que está vivo, que Ele é o Vivente, a ponto de São Tomás de Aquino, entre outros, lhe chamar a "Apóstola dos Apóstolos"? No princípio, não houve mulheres cristãs que presidiram à Eucaristia? Que razões se opõem à sua ordenação? Só para dar um exemplo, cito o maior teólogo católico do século XX, Karl Rahner, que tive o privilégio de ter tido como professor: "Sou católico romano e, se a Igreja me disser que não ordena mulheres, aceito-o por fidelidade. Mas, se me der cinco razões e todas elas são falsas face à exegese e à teologia, tenho que protestar. Penso que o Magistério que apela para essas razões falsas não acredita no que diz ou não sabe ou mente ou estas coisas todas juntas. Além disso, a Igreja é infalível em questões de fé e moral, e o tema da ordenação das mulheres não é de fé, nem de costumes, mas de administração". O Cardeal José Policarpo também teve problemas porque afirmou o mesmo: que teologicamente nada se opõe à ordenação de mulheres. Aliás, digo eu, há uma razão de fundo: é uma questão de direitos humanos e Deus não pode ir contra os direitos humanos.
in DN, 13.10.2019

14 de outubro de 2019

Brinquedos para adultos



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Talvez não tenham coragem de perguntar por eles, mas podem colocar todas as vossas questões por mensagem privada.

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Não se armem em esquisitos, pois não estamos em idade de fingir que não interessam!

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BOA SEMANA!