27 de fevereiro de 2019

Cansei-me, rendo-me ...


Leonardo Haberkorn, jornalista e escritor, era professor numa universidade de Montevideo. Corre na internet um artigo seu publicado em papel, em 2015, com o título "Me cansé... me rindo...", onde declara ter deixado o ensino, que antes o apaixonava, e explica porquê.
Tomámos a liberdade de o traduzir, pois, por certo, ele tocará muitos professores e directores de escolas portuguesas. Desejável é que tocasse instâncias superiores e, de modo mais alargado, a sociedade.

"Depois de muitos e muitos anos, hoje dei a última aula na Universidade.
Cansei-me de lutar contra os telemóveis, contra o whatsapp e contra o facebook. Ganharam-me. Rendo-me. Atiro a toalha ao chão.
Cansei-me de falar de assuntos que me apaixonam perante jovens que não conseguem desviar a vista do telemóvel que não pára de receber selfies.
Claro que nem todos são assim. Mas cada vez são mais
Até há três ou quatro anos a advertência para deixar o telemóvel de lado durante 90 minutos, ainda que fosse só para não serem mal-educados, ainda tinha algum efeito.
Agora não. Pode ser que seja eu, que me desgastei demasiado no combate. Ou que esteja a fazer algo mal.
Mas há algo certo: muitos desses jovens não têm consciência do efeito ofensivo e doloroso do que fazem. Além disso, cada vez é mais difícil explicar como funciona o jornalismo a pessoas que o não consomem nem vêem sentido em estar informadas.
Esta semana foi tratado o tema Venezuela. Só uma estudante entre 20 conseguiu explicar o básico do conflito. O muito básico. O resto não fazia a mais pequena ideia. Perguntei-lhes (...) o que se passa na Síria? Silêncio. Que partido é mais liberal ou que está mais à 'esquerda' nos Estados Unidos, os democratas ou os republicanos? Silêncio. Sabem quem é Vargas Llosa? Sim!
Alguém leu algum dos seus livros? Não, ninguém! Lamento que os jovens não possam deixar o telemóvel, nem na aula. Levar pessoas tão desinformadas para o jornalismo é complicado.
É como ensinar botânica a alguém que vem de um planeta onde não existem vegetais. Num exercício em que deviam sair para procurar uma notícia na rua, uma estudante regressou com a notícia de que se vendiam, ainda, jornais e revista na rua.
Chega um momento em que ser jornalista é colocar-se na posição do contra. Porque está treinado a pôr-se no lugar do outro, cultiva a empatia como ferramenta básica de trabalho.
E então vê que estes jovens, que continuam a ter inteligência, simpatia e afabilidade, foram enganados, a culpa não é só deles. Que a incultura, o desinteresse e a alienação não nasceram com eles.
Que lhes foram matando a curiosidade e que, com cada professor que deixou de lhes corrigir as faltas de ortografia, os ensinaram que tudo é mais ou menos o mesmo. Então, quando compreendemos que eles também são vítimas, quase sem darmos conta vamos baixando a guarda.
E o mau é aprovado como medíocre e o medíocre passa por bom, e o bom, as poucas vezes que acontece, celebra-se como se fosse brilhante. Não quero fazer parte deste círculo perverso. Nunca fui assim e não serei assim.
O que faço sempre fiz questão de o fazer bem. O melhor possível. E não suporto o desinteresse face a cada pergunta que faço e para a qual a resposta é o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Eles queriam que a aula terminasse. Eu também."  

18 comentários:

  1. Uma pena que professores deste calibre deixem o ensino por causa do desinteresse dos alunos e seus telemoveis.
    Sempre achei que os telemoveis nao deveriam nunca entrar dentro das aulas. Eu lido com o publico e infelizmente tenho colegas que estao constantemente a olhar para o telemovel em vez de trabalharem mais. E temos pacientes que mal saem do medico olham logo para o telemovel e enquanto pagam a consulta continuam a olhar em vez de verem o que estao a fazer. Outros ate na consulta atendem os seus telemoveis!! O meu fica dentro da mala e olho para ele quando saio da clinica para ver se tenho mensagens.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O telemóvel, eu nos devia auxiliar, tornou-se de repente uma prisão.
      Mundo estranho.

      Eliminar
  2. "É como ensinar botânica a alguém que vem de um planeta onde não existem vegetais."
    Acredito em todas as palavras do desiludido professor. Este mundo está perdido. É uma vergonha o que se vê por todo o lado. Os culpados são muitos, a começar pelos pais.
    Há dias vi uma reportagem sobre proibição de utilização de telemóveis numa escola portuguesa. Os telefones são entregues à entrada a um funcionário, que os guarda em caixas com a indicação da turma e os devolve quando os alunos deixam a escola. As imagens mostravam alunos atentos nas aulas e socializando alegremente nos intervalos.
    (O mesmo devia ser feito nos cinemas, pois adultos há que continuam vergonhosamente "brincando" com o telemóvel na escuridão da sala.)
    Obrigada, Pedro, por partilhares. Eu, vou agora partilhar com outros amigos.
    Muito, muito bom!
    Beijo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. As escolas que as minhas filhas frequentaram (a mais nova ainda frequenta) têm essa política, teresa.
      Telélé nas aulas?
      Era o que faltava!
      Fica no cacifo até saírem da escola.
      Quem não gostar que procure outra escola.
      Beijo

      Eliminar
  3. Pedro, bom dia de 4a feira.
    Eu como ele desisti, só que fazem
    muitos anos. Desisti de verdade e deixei
    de ministrar aulas em escolas, minha área e
    Educação Religiosa e Artes.
    Hoje me irrito com os grupos de Whatsapp
    criados por mães e pais, por amigos da escola.
    Se me permite: é um inferno! Todos
    se intrometem em um trabalho fundamental que
    é o ensino.
    Ótima publicação.
    Bjins
    CatiahoAlc.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Curioso que com os meus pais era ao contrário, CatiahoAlc.
      À partida o professor tinha razão.
      Eu é que tinha que explicar tudo muito bem explicadinho.
      Bjins

      Eliminar
  4. Infelizmente esta é uma triste realidade dos nossos dias e como eu compreendo este angustiado professor.
    Um abraço e muito obrigado amigo Pedro por ter publicado este fantástico e reflexivo artigo.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O respeito pelos professores foi-se perdendo pelo caminho, Francisco.
      E começa aqui o desrespeito que se arrasta a outros domínios da vida.

      Eliminar
  5. Já conhecia, um texto enviado directamente pelo nosso Henriquamigo.

    O papa latino também se cansou de limpar a igreja católica e rendeu-se, não deitando a culpa aos telemóveis, mas sim, ao diabo 😈 "Os abusos sexuais são obra do diabo"!!!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Este não recebi do FerreirAmigo, Tereas.
      Mas gosto muito do desabafo.

      Não foi o diabo que abusou de crianças, Teresa.
      Foram padres e freiras.
      Que deviam proteger essas criança, não violentá-las.

      Eliminar
  6. "Claro que nem todos são assim", sempre é um consolo.

    ResponderEliminar
  7. O mundo está tomado de uma estranha febre que se pela pela velocidade a que tudo rola. Razão tinham os nossos antepassados quando foi inventada a máquina a vapor.
    Abraço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Respeito pelos professores é fundamental, Agostinho, é a base

      Eliminar
  8. Não tinha visto este post, e fiquei...?!:(

    Estas situações não deviam merecer a atenção dos responsáveis, a começar pelos pais, supondo, sim, supondo, que ainda têm tempo de OLHAR/VER os filhos?

    Fala-se muito, e bem, de violência, e esta atitude será o quê? E querem professores motivados? E querem que a sociedade alcance um patamar acima, um pouquinho que seja, do medíocre?
    Para onde caminham os "cegos" do nosso tempo?
    Onde ficam a cultura, o saber, o respeito, o evoluir inerente ao Homem? Progredimos ou regredimos? A escolha é nossa, mas como lutar contra um "monstro" chamado "novas tecnologias"? Podem/deviam ser o motor de desenvolvimento, nunca o caminho do obscurantismo.

    Desculpa o arrazoado, mas isto...

    Gostaria de publicar este texto, dando a fonte, claro, isto se não te importasses.

    Beijinho e desculpa o desabafo a que este texto me obrigou.:(

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É um texto que deve ser o mais divulgado possível, GL.
      Não percebo como é possível deixarem os alunos sequer pegar nos telemóveis dentro da sala de aula.
      Nem pensar nisso!
      Paguei e continuo a pagar uma fortuna pelas propinas das escolas que as minhas filhas frequentam.
      Uma das regras de ouro é esta - telemóveis no cacifo desde que chegam à escola até que saem.
      Tão simples quanto isto.
      Beijinho

      Eliminar
  9. O procedimento feito nas escolas que as tuas filhas frequentam é - ou deveria ser ! - o correcto, mas concretizá-lo?!

    Para que conste:
    Venho proceder ao "roubo" anunciado.

    Aqui vai o texto, que devia ser de leitura OBRIGATÓRIA.

    Boa semana.

    Beijinho, Família.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Beijinho, GL.
      A escola que a Catarina frequentou e que a Mariana ainda frequenta é muito rigorosa na disciplina.
      Uniforme bem cuidado, nada de jóias, de maquiagem, nada de telemóveis.
      Concentração nas aulas e nos estudos.
      Cá fora podem fazer o que quiserem e os pais permitirem.

      Eliminar