13 de setembro de 2016

As dúvidas da santa da sarjeta (Padre Anselmo Borges)


1. Era assim que lhe chamavam: a "santa das sarjetas". Ela foi a encarnação da compaixão e da misericórdia, da generosidade pura, junto dos mais pobres, daqueles e daquelas junto de quem ninguém está, dos "não pessoas", dos que nem na morte têm alguém e, por isso, morrem como cães, na valeta da rua, da estrada e da vida. "Passei toda a minha vida num inferno, mas morro nos braços de um anjo do céu", foram as últimas palavras de um desses moribundos que ela acolhia.

Teresa de Calcutá foi canonizada pelo Papa Francisco no domingo passado, na presença de mais de cem mil pessoas. "Declaramos e definimos Santa a Beata Teresa de Calcutá e inscrevemo-la no Livro dos Santos, decretando que em toda a Igreja ela seja venerada entre os Santos." O povo há muito que sabia que ela é Santa: já era venerada por cristãos e também por hindus, muçulmanos, budistas...

E Francisco falou. "A Deus agrada toda a obra de misericórdia, porque no irmão que ajudamos reconhecemos o rosto de Deus que ninguém pode ver." "Sempre que nos inclinámos perante as necessidades dos irmãos, demos de comer e de beber a Jesus, vestimos, ajudámos e visitámos o Filho de Deus." "Não há alternativa à caridade: quem se coloca ao serviço dos irmãos é que ama a Deus, mesmo que não o saiba." E agradecendo a todos os voluntários: "Vós sois aqueles e aquelas que servem o Mestre e tornam visível o seu amor concreto para com cada pessoa." "Esta incansável trabalhadora da misericórdia nos ajude a compreender cada vez mais que o nosso único critério de acção é o amor gratuito, livre de toda a ideologia e derramado sobre todos, sem distinção de língua, cultura, raça ou religião."

2. Madre Teresa foi duramente atacada, concretamente pelo jornalista e escritor, ateu militante, Christopher Hitchens, que criticou os meios precários que utilizava a favor dos mais pobres e ter aceitado dinheiro de fontes pouco limpas.

Sim. Ia buscar dinheiro aonde ele está: aos bolsos dos ricos. Mas ela própria disse um dia aos jornalistas que é urgente que os poderosos discutam nos fóruns internacionais os problemas da organização da justiça no mundo e a distribuição da riqueza, mas que, enquanto se alcançam ou não acordos eficazes, as Missionárias da Caridade dedicar-se-ão a recolher das ruas, um a um, os moribundos e os doentes que já ninguém ampara nem cuida.

É preciso lutar de modo lúcido e enérgico pela justiça no mundo, transformando as estruturas sociais, mas seria intolerável, a pretexto de agudizar as contradições sociais para acelerar a revolução, não acudir à criança esfomeada nem ajudar o desgraçado caído na valeta. Era o dramaturgo B. Brecht, marxista lúcido e que conhecia bem a Bíblia, que tinha razão: "Contaram-me que em Nova Iorque,/na esquina da Rua Vinte e Seis com a Broadway,/nos meses de Inverno, há um homem todas as noites/que, suplicando aos transeuntes,/procura um refúgio para os desamparados que ali se reúnem./ Não é assim que se muda o mundo,/as relações entre os seres humanos não se tornam melhores. /Não é este o modo de encurtar a era da exploração./No entanto, alguns seres humanos têm cama por uma noite./Durante toda uma noite estão resguardados do vento/e a neve que lhes estava destinada cai na rua./Não abandones o livro que to diz, homem./Alguns seres humanos têm cama por uma noite,/durante toda uma noite estão resguardados do vento/e a neve que lhes estava destinada cai na rua./Mas não é assim que se muda o mundo,/as relações entre os seres humanos não se tornam melhores./Não é este o modo de encurtar a era da exploração."

3. Preocuparam-na mais a sua crise espiritual, chegando a duvidar da existência de Deus. Aquele Cristo que ela, na entrega do Prémio Nobel da Paz, declarou que "está nos nossos corações, nos pobres que encontramos, no sorriso que oferecemos e no que recebemos", deixou-a no vazio espiritual durante parte de uma vida torturada pela sua ausência.

Aquando desta revelação, houve quem chegasse a pôr em questão a sua sinceridade e a verdade da sua vida. Alguns crentes, incluindo clérigos, sentiram um abalo profundo: tratar-se-ia apenas daquela ausência de consolação que a fé concede. Esqueceram-se de que São Tomás de Aquino escreveu que a fé convive com a dúvida. Aliás, sem esta convivência, ainda seria fé? Não falaram os místicos da "noite escura"? Também Santa Teresa de Lisieux, conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus, foi assaltada pela dúvida, parecendo-lhe, nas vésperas de morrer, que lhe diziam: "Crês que um dia sairás das trevas que te rodeiam? Avança! Avança! Alegra-te com a morte, que te dará não o que esperas, mas uma noite mais profunda ainda, a noite do nada."

Deus não é evidente e a fé não tem a certeza da lógica ou das ciências empírico-matemáticas. A prova e o milagre da fé de Madre Teresa foi o amor vivo, numa dedicação sem desânimo, aos mais pobres dos pobres. A fé é um combate que se ganha no amor.

in DN 10 DE SETEMBRO DE 2016

14 comentários:

  1. Gostei muito.
    Também andei agnóstica durante muito tempo...
    Foi um privilégio ter vivido no tempo da Santa Teresa
    de Calcutá.
    ~~~ Abraço ~~~

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    1. Majo,
      O padre que me casou sofreu um AVC que, de acordo com o que pessoal médico dizia ao lado dele, e ele a ouvir quando todos pensavam que não, teria cerca de 90% de probabilidades de o matar.
      Enquanto todos aguardavam pelo momento da morte, depois de lhe terem sido administrados todos os cuidados possíveis, ele esteve a conversar (ralhar, como ele me disse) com Ele e com a sua Santa Teresa, então ainda só Madre Teresa de Calcutá.
      E a dizer-lhes que achava que ainda não era a hora de partir e porquê.
      De um momento para o outro, cada um interpretará como quiser, ele acredita que foi por meio de Santa Teresa, o caminho que parecia não ter outro sentido que não o fim anunciado, fez uma volta de 180 graus.
      O Luís Sequeira, é este o nome dele, ainda muito debilitado, contou-me isto num jantar em minha casa quando estava já possibilitado de aqui vir.
      E contou-mo com evidente emoção e devoção.
      Dei-lhe uma abraço então, dou um abraço à Majo agora.

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  2. Muito bom ,aliás, como sempre,Pedro!
    Abraço

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    1. Anselmo Borges a escrever acerca de Santa Teresa, Ricardo.
      Só podia ser bom.
      Aquele abraço

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  3. Não poderiam ter dado a Santa Teresa de Calcutá um aposto ou continuado mais apropriado e k correspondesse tanto à verdade e à realidade.

    As pequeninas coisas é k mudam o mundo, em minha opinião, pke grão a grão é k a galinha enche o papo, mas para um marxista, a "coisa" resolver-se-ia de outro mod.
    Anselmo Borges tem uma visão mto nítida e humanista do assunto, como sempre!

    Boa semana, Pedro!

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    1. É rara a semana em que Anselmo Borges por aqui não passe, CÉU.
      Porque ele é uma das figuras que representa a Igreja como eu a concebo, na qual acredito.
      Boa semana!

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    2. O Anselmo Borges foi meu professor de Filosofia da Religião em Coimbra. É boa pessoa.

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    3. João José Horta Nobre,
      Você foi colega do meu pai no curso de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra????
      Começo o dia com uma grande dúvida e, possivelmente, uma grande surpresa.

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    4. «Você foi colega do meu pai no curso de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra????»

      Está louco ou quê?!?

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    5. Aqui tem a minha tese de mestrado:

      https://drive.google.com/file/d/0B36ZSj_O0FdYQWFuTC1tSmVyM2M/edit

      Agora vai insinuar o quê? Que também essa tese não foi escrita por mim, à semelhança do outro tarado que vive ai em Macau e mais não faz do que andar a difamar pessoas que ele não conhece de lado nenhum?

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    6. João José Horta Nobre,
      Você é um precipitado.
      O meu pai foi aluno do Prof. Anselmo.
      O aluno mais velho do Prof. Anselmo, o aluno mais velho da Universidade de Coimbra, por acaso, mas aluno do Prof. Anselmo com quem ainda mantém contacto.
      Não, não estou louco.

      Vou espreitar a sua tese de mestrado que isso é que me interessa.

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    7. Você cursou História, o meu pai Filosofia.
      A sua tese de mestrado é de 2013.
      Cruzou-se com o meu pai na Faculdade de Letras de certeza.
      Sim, o aluno mais velho que andava lá na Faculdade (acho que era mesmo na Universidade), que entrou para a Universidade quase ao 70 e saiu depois dos 70, é meu pai.
      Como vê, não estou louco.
      E, quando tiver tempo, vou ler a sua tese porque o tema é excelente e o orientador também.

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  4. Sempre admirei a Madre Teresa de Calcutá e toda a sua história e percurso. Só uma alma rara procederia como ela procedeu durante a sua vida terrena e fez-nos acreditar que uma pessoa pode mudar a perspectiva do mundo. Como bem dizia "Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota"

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    1. Santa Teresa, agora Santa Teresa, foi uma mulher invulgar, de um espírito ecuménico e de auxílio ao próximo que são raros.
      A fé de cada um, que não é discutível, fará acreditar que se trata efectivamente de uma santa ou não.
      Que foi um Ser Humano excepcional, isso foi.

      Amanhã a Esmy vai ser mencionada aqui no blogue.
      Adivinhe e a que propósito... :)))

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