8 de outubro de 2014

O princípio do fim de um período histórico


Com o acordo a que chegaram os estudantes que se vêm manifestando na ruas de Hong Kong e os representantes do Governo da Região Administrativa Especial para uma reunião na próxima sexta-feira, destinada a  discutir aquilo que o Chefe do Executivo qualificou como "questões de reforma constitucional"(sic), poderemos estar a assistir aos últimos dias de um movimento de desobediência civil que vai por certo transformar-se num case study no futuro.
Um movimento sem líderes formais, mas com rostos visíveis e muito jovens, que conseguiu trazer para a mesa das negociações a toda poderosa China.
Apenas pela força das ideias, das convicções, da resiliência, da profunda certeza de se estar a defender algo que é justo ainda que possa parecer utópico.
Um movimento que, a par com aquele que Macau testemunhou em Maio, me dá a certeza de estarmos perante um conjunto de gente muito jovem que, ao contrário do que se pensava e dizia amiúde, sabe bem o quer, sabe lutar e sabe defender as suas posições.
Tudo com um civismo, uma elevação, que terão que ser tomados como exemplo para outros movimentos similares no futuro.
O comportamento da juventude de Macau em Maio, de Hong Kong agora, é motivo de orgulho para quem adoptou esta parte do Mundo como lar.
Rebeldia já não equivale ao chavão tantas vezes ouvido - "vamos lá para fora partir tudo" - como repetia incessantemente um jovem num debate (??) a que assisti há alguns anos na televisão portuguesa.
O comportamento da juventude de Macau e Hong Kong foi o oposto deste chavão idiota.
Montar uma máquina bem oleada para fazer passar a mensagem e tocar a reunir; conseguir manter essa máquina fazendo revezar os manifestantes, evitar o cansaço e permitir um regresso às aulas dos mesmos; distribuir material de propaganda, alimentos e bebidas pelos manifestantes no local; limpar voluntariamente o lixo produzido todos os dias; ter a sabedoria e a sensibilidade de abrir vias para a que a cidade fosse perturbada ao mínimo na sua actividade depois de uma semana de agitação; são exemplos de um movimento que estou certo vai ser objecto de estudo no futuro.
Independentemente do que acontecer na reunião de sexta-feira, os estudantes de Hong Kong, como antes os de Macau, já conseguiram ganhos de escala, já conseguiram demonstrar que o exercício do poder não pode ser bruto e levado a cabo à bruta, já conseguiram ser um exemplo para futuros movimentos de protesto aqui ou em qualquer outro local.
Disso não tenho dúvidas.

20 comentários:

  1. O movimento estudantil mete medo a todos os governos.
    Pena que nem sempre os jovens saibam aproveitar esta capacidade democrática.

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    1. Os movimentos estudantis aqui em Macau e em Hong Kong foram exemplares, luís.
      Surpreendentes até.
      Quer na sua dimensão, quer na sua envolvente, quer na forma como se desenrolaram.
      Bonito de se ver.

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  2. ~
    ~ Regozijo-me consigo.

    ~ Uma forma exemplar de fazer cumprir os direitos humanos e democráticos.

    ~ ~ ~ Beijinhos. ~ ~ ~

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    1. Ver garotos ter este comportamento cívico é reconfortante, Majo
      Fizeram passar a mensagem, conseguiram algo, sem serem insolentes, muito menos arruaceiros.
      Beijinhos

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  3. Citando-o, com a devida vénia, concordo quando diz que : «(...)o exercício do poder não pode ser bruto e levado a cabo à bruta». Resta saber se Pequim é da mesma opinião.
    Aquele abraço, Pedro

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    1. Pequim é que acalmou a brutidade do governo de Hong Kong, Ricardo.
      E foi Pequim a obrigar os governantes de Hong Kong a dialogar com os estudantes.
      A cara do Chefe do Executivo de Hong Kong a anunciar que seria a secretária-chefe a dialogar com os estudantes, e não ele, dizia tudo.
      Aquele abraço

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  4. Com inteligencia e educação se vai longe. Até na hora de protestar tem que se ter bom senso. Tomara que os estudantes consigam seu intuito. Por aqui no sul principalmente no Rio grande do Sul a terra das batalhas, se inicio manifestação no ano passado, os estudantes queriam passe livre nos ônibus para irem até as escolas e faculdades. O que acontecei o PT partido da presidente atual e comunista, infiltro bandidos, trouxeram de cuba e das guerrilhas aqui de país vizinho e destruíram a capital Porto Alegre. Ai virou uma loucura quebra quebra em todas as capitais. Aqui no sul não se faz mais esse tipo de manifestação mas no resto do país tem quebra quebra seguidamente. Os gaúchos agora estão se preparando para nos desvincular do Brasil, queremos ser uma nova nação sem essa corrupção que existe e nos rouba e torna nossa vida tão árdua. Assim são os povos cada um luta com as armas que possuem. O poder em mão erradas é muito difícil de combater.
    Tenha um ótimo dia.

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    1. Aqui também houve infiltrados, Anajá.
      A táctica é conhecida.
      Mas até nesse momento estes meninos souberam responder sem violência e ganharam pontos.
      Cada povo luta com as armas que possui, como diz.
      Mas não há arma mais terrível que a força da razão, a força das convicções.
      À custa dela, aqueles meninos que vê na foto dobraram o poder imenso de Pequim
      Tenha um óptimo dia também

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  5. Este tipo de acontecimentos e a maneira como foram geridos demonstram a paciência oriental tal como a sua habitual subtileza ( ou , pelo menos, aquilo que assim se considera por estes lados).

    É bom que tudo tenha acontecido assim , esperemos agora os resultados...

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    1. Dos estudantes, São.
      Daqueles meninos ali na foto.
      Que até a provocações descaradas souberam reagir.
      Nem todos os jovens estão alheados do seu presente e do seu futuro.
      E isso é gratificante de ver.

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  6. Comportamentos que deveriam servir de exemplo a outros movimentos, que a meu ver viram violentos devido aos infiltrados e instala-se o pânico.

    Não é a destruir, pilhar, matar que se resolve o quer que seja.

    Parabéns a todos eles e que consigam tudo o que desejam!

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    1. É isso mesmo que espero aconteça, Fatyly - que seja um exemplo.
      Porque é um exemplo muito bom

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  7. Já acabou? Não tenho visto notícias,nem dei por nada...

    Beijocas

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    1. Princípio do fim, Teté.
      Ainda não acabou, caminha nesse sentido.
      E de uma forma muito bonita.
      Beijocas

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  8. O civismo foi uma das coisas que salientei no primeiro post sobe este assunto. Espero - e desejo- que tenha razão nas suas expectativas para o futuro.

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    1. Eu também, Carlos.
      Estes garotos merecem toda a atenção e todo o respeito.

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  9. Tem toda a razão, caro Pedro!
    No passao FDS presenciei a manifestação mais ordeira que alguma vez vi.
    Boa quinta-feira!
    Mor

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    1. Esta rapaziada, e em Macau aconteceu o mesmo, mostrou que se pode ser contestatário sem ser minimamente desordeiro, Mor
      Boa quinta-feira também

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  10. Ainda bem que os ânimos serenaram. Um exemplo para o mundo. Se os diferendos fossem resolvidos sem violência a terra seria o Céu.
    Bom dia.

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    1. Hoje as notícias são más, Agostinho.
      O executivo de Hong Kong recuou na decisão de se reunir com os estudantes.
      Não virá nada de bom de uma decisão dessas

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