16 de outubro de 2014

Baralhar e dar de novo (Teresa de Sousa)



« (…) Na sexta-feira, a ortodoxa Finlândia (o país que mais deu dores de cabeça a Bruxelas em matéria de contribuição para os resgates) viu o seu “triplo A” ser reduzido para um “duplo A” pela Standard & Poor’s. Já só restam a Alemanha e o Luxemburgo. Vale a pena lembrar o que disse em 2011 o actual primeiro-ministro finlandês, Alexander Stubb, agora às voltas com uma inevitável recessão, citado pela Reuters: “Os princípios darwinistas devem aplicar-se à zona euro e as economias mais fortes devem ter a decisão final sobre a maneira de dirigi-la”. Agora lembra que a crise na Ucrânia e o abrandamento da economia russa trocaram as voltas à economia finlandesa. (…)

2. Vale, aliás, a pena começar pela Alemanha, que esta semana andou nas bocas do mundo por duas razões mais ou menos inesperadas. A primeira, quase hilariante pelos seus contornos, foi o estado das suas Forças Armadas. A questão foi debatida no Bundestag a partir de um relatório a que os jornais tiveram acesso, que as descreve como um desastre. Meia dúzia de exemplos: só um dos seus quatro submarinos funciona; só 70 dos seus 180 tanques Boxer estão em condições operacionais; apenas sete da sua frota de 43 helicópteros da Marinha podem voar, etc. É irresistível reproduzir um título de um jornal alemão, citado pela Reuters: “Se os tanques Boxers se mantêm de pé é graças à laca da ministra da Defesa”. Úrsula von der Leyen é criticada por gostar mais de se deixar fotografar do que de tratar da Bundeswehr. Médica e mãe de sete filhos, quer ser a sucessora de Angela Merkel na CDU. Judy Dempsey, do Carnegie Europe, recordava há dias que a Alemanha está a ter dificuldades para trazer os seis soldados no Afeganistão de volta a casa porque os aviões estão avariados. Dos 56 há apenas 24 operacionais. A analista também lembra que a Alemanha viu-se obrigada informar a NATO de que não consegue arranjar os aviões pedidos para patrulhar a fronteira dos Bálticos. Os exemplos são infindáveis. Para um país a quem toda a gente pede que assuma maiores responsabilidades internacionais, não é o que se estava à espera. A redução do orçamento da Defesa para 1,3 % do PIB pode ser uma explicação. A falta de prioridades é outra. Talvez valesse a pena explicar aos alemães que as despesas com a defesa têm de aumentar num mundo cada vez mais caótico, incluindo à volta das fronteiras da Europa.

A segunda questão que irrompeu no debate alemão tem a ver com a economia. Marcel Fratzscher, director do DIW (Instituto Alemão para a Investigação Económica), conselheiro habitual do Governo, acaba de publicar um livro sobre “A Ilusão Alemã”, que aponta para as fragilidades de uma economia que se apresenta como o modelo a seguir. As infra-estruturas de transportes estão envelhecidas e ninguém as repara. O desemprego baixo deve-se aos “mini-jobs” mal pagos e em part-time. O investimento caiu para 17 por cento e cada vez mais as grandes empresas preferem investir fora da Alemanha, por exemplo nos EUA. A produtividade cresceu muito pouco nos últimos anos (entre 2007 e 2002, 0,3%, para 0,5 na Dinamarca, 0,7 na Áustria, 0,9 no Japão ou 1,5 nos EUA e 3,2 na Coreia). Os salários continuam a perder valor real. Só exportar, exportar, exportar torna a economia alemã particularmente vulnerável a cada desaceleração da economia europeia e mundial. O director do DIW lembra que a Alemanha está em condições de se financiar a custos baixíssimos e era o que devia fazer para estimular a economia. O último sinal de alarme foi a queda inesperada das encomendas à indústria de 5,7% no segundo trimestre. Como escreve o Telegraph, “a Alemanha apenas parece saudável porque as outras economias europeias estão moribundas.” 

8 comentários:

  1. ~ ~ Nem os "finns", nem Angie tiveram cabecinhas para avaliar o real impacto do "efeito dominó".

    ~ ~ "The Telegraph" parece dizer-nos que em terras de sua majestade, não se consideram europeus... ... ...

    ~ ~ ~ ~ Beijinhos. ~ ~ ~ ~

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    1. Os britânicos tiveram sempre essa postura, Majo - um pé dentro e um pé fora.
      Basta lembrar que não estão na génese da integração europeia para perceber porquê.
      Beijinhos

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  2. Pois é Pedro a Dª. Merkel está a braços com o efeito boomerang...mas se a Alemanha se constipa o resto da UE fica com gripe e se o EUA dá um espirro então todo o mundo ficará em coma:):):)

    Estou cansada de tanta aldrabice, desumanidade etc...em prol do vil metal!!!!!

    Beijocas

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    1. Tantos conselhos deu a terceiros, tantas críticas lançou, e agora vê-se a braços com os problemas que criticava a terceiros, Fatyly.
      Nunca digas desta água não beberei é o que apetece comentar.

      No meio de tudo, a maior maleita seria a China espirrar.
      Aí é que era gripe generalizada.

      Beijocas

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  3. A Frau Merkel está em maus lençóis. Tudo o que ela e o paraplégico andaram a defender e a impor, demonstra-se agora que está errado. A Alemanha pensava passar incólume pela crise, mas agora está a sentir-lhe os efeitos. O problema é que a crise alemã nos vai afectar a todos.

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    1. É o que chama atirar pedras e depois perceber que se tem telhados de vidro, Carlos.

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  4. O reinado da senhora de Berlim e da europa (com minúscula) pode repentinamente chegar ao fim. A França e a Itálía estão a pisar o risco apesar das diretivas dimanadas do Reichstag. Se esta atitude de desafio for seguida por outros países a Alemanha corre risco sério de vir a ter problemas apesar de estar a nadar em papel.

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    1. Algo que a China há muito descobriu, Agostinho.
      Produzir em massa para o mercado externo, se o mercado externo não absorve essa produção, é a receita infalível para o desastre.

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