14 de maio de 2014

Quando o exemplo vem de cima (Joaquim Franco)


Depois de uma década de pressão, cercada pelos casos de pedofilia, pelas revelações do Vatileaks – escândalo que deu a conhecer guerras palacianas pelo poder, contas mal explicadas no Banco do Vaticano e um alegado escândalo sexual com clérigos ligados à cúria –, depois da resignação de um Papa que denunciou divisões na hora da saída, a Igreja conhece um líder «messiânico». Não no sentido teológico do termo, é evidente.
 
Tal era a expectativa geral e o quase desespero entre católicos. Exemplo e palavra(s) de Bergoglio calçam como luva nas «esperas» deste tempo. Marcelo Barros, ecologista e teólogo – sobrevivente da Teologia da Libertação –, adianta que até os cardeais eleitores, que mais entusiasticamente votaram nele, estão "surpreendidos".
 
O «messianismo» de Bergoglio também encaixa – mas ultrapassará... – no modelo de Inácio Ramonet (Tirania da Comunicação, 1999, Campo das Letras), que desenvolveu a ideia de um “messianismo mediático” promovido intencionalmente pela(s) máquina(s) de marketing. A «imagem» é uma preocupação devidamente trabalhada na Santa Sé.

Depois de ser capa em revistas emblemáticas, pela primeira vez há um Papa que é motivo único e exclusivo para o lançamento de uma revista temática, uma espécie de publicação para fãs. Da noite para o dia surgiu numa parede de Roma um Papa «super-homem». A inesperada ousadia de um artista de graffiti retratou o «ícone» mediático que mais prevaleceu no primeiro ano de pontificado. Mas este «ícone» apressou-se a esclarecer que não se revê na euforia, eventualmente apenas na alegria.

Na primeira viagem ao estrangeiro, Francisco foi acolhido por milhões na praia de Copacabana onde apelou aos jovens cristãos para serem coerentes, visitou uma favela do Rio de Janeiro e lembrou que não há segurança sem atenuar as desigualdades sociais. Na exortação apostólica Evangelii Gaudium acusou o sistema capitalista de desenvolver uma economia que “mata” e denunciou os lucros “de poucos”, que “crescem exponencialmente”, enquanto “os da maioria se situam cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz”.

O que mais surpreende... é a surpresa com que o mundo – até os católicos – vai acolhendo estas palavras. Na verdade, Bergoglio apenas cede a voz e disponibiliza a atitude para «centrar» a mensagem. A documentação que sustenta a Doutrina Social da Igreja é fértil. Há dias, enquanto arrumava papeis, tropecei no texto de João Paulo II para o dia mundial da Paz de 1993. Lá relembrava o Papa Woityla, citando a encíclica Centesimus Annus, que “os bens da terra são destinados a toda a família humana e não podem ser reservados para uso exclusivo de poucos” e que os mecanismos económicos precisam das “correções necessárias que lhes permitam garantir uma mais justa e equitativa distribuição dos bens”. 

Nos primeiros dias enquanto Papa, Bergoglio fixou três ideias inquestionáveis no contexto da fé cristã: pobreza (prioridade para as periferias sociais e existenciais), inclusão (“a misericórdia é maior do que o preconceito”) e relação (a ternura na disponibilidade para o encontro, também com outros credos).

Sem perder tempo com manifestos de aniversário, Bergoglio deixou passar quase em branco o primeiro aniversário do pontificado e regressou de um retiro para insistir no discurso social. Recebeu em audiência os trabalhadores de uma fábrica italiana, recentemente comprada por um grupo alemão, e voltou a criticar um sistema económico "incapaz de criar postos de trabalho”, porque põe no centro “o ídolo dinheiro", que afeta "vários países europeus". "Criatividade e solidariedade", com um estilo de vida "mais sóbrio", sugere Bergoglio, que carrega a vivência do hemisfério sul, da periferia e dos extremos.

Esta oportuna obsessão pode ser dirigida à Igreja europeia, esmoler e pouco empreendedora. Vai valendo a ação de muitas instituições. Por cá, algumas Caritas, Misericórdias e outras IPSS's de e da Igreja, rompem a lógica assistencialista com projetos de (re)conversão social, capazes de repor a dignidade e agir politicamente onde a política «formal» não é capaz de chegar. Mas falta a correspondência de uma narrativa institucional clarificadora e denunciante. A hierarquia eclesiástica instalou-se. Receosa de ser confundida com as motivações sindicais ou partidárias – como se a política, em si, fosse um mal –, a Igreja vai oferecendo a resignação, a paciência e o céu, quando o evangelho é da terra, da denúncia e da ação.

Não é sério tomar a parte como o todo. Como não é justo que a maioria apague a exceção. E há exceções. Mas prevalece a timidez e extrema cautela nos discursos do episcopado. Os índices de pessimismo aliados aos últimos dados estatísticos sobre a pobreza em Portugal e à relação desta com o drama da natalidade, deviam soltar gritos dos altares para abanar seriamente as consciências. A Igreja “tem medo”, mudou o Credo, lamenta o bispo emérito de Setúbal Manuel Martins, agora é "creio na Santa Igreja católica, apostólica e... adormecida!" 

Num desconcertante improviso, Francisco desafiou os cristãos a implicarem-se na política, “uma das formas mais elevadas da caridade, porque procura o bem comum”. É fácil “atirar culpas” – constata –, mas o que fazem para mudar o estado da arte? – pergunta.

Mesmo não parecendo, a intervenção de um Papa, como a de qualquer protagonista institucional, é sempre política, externa e internamente. Francisco escapa no entanto aos padrões convencionais. Quando deseja “uma Igreja pobre e para os pobres” e cita o evangelho para questionar a praxis – “quem sou eu para julgar?” –, abre caminho a uma «revolução» que não é de «esquerda» nem de «direita», é herdeira de uma experiência genuína, de uma teologia ctónica e humana, marcada pela coerência, na ética e na moral da relação.

Por ser simples e direto, no equilíbrio entre a emoção e a razão, o papa Bergoglio surpreende e desinstala. O que não agrada a muita gente, sobretudo aos poderes que «reinam» no tempo e no templo. O “verdadeiro poder é o serviço”, diz, chocado com os clérigos que adquirem carros topo de gama. Metáfora? Para servir não é preciso viajar em primeira classe. E “há gente na Igreja que anda muito atenta para ver quando é que o Papa mete o pé na argola”, verifica o teólogo Henrique Pinto.

Tantas vezes indiferentes aos problemas concretos do povo, os púlpitos fazem eco de um escandaloso aconchego à rotina e ao vício do poder. Novidade? Não! É a Igreja e a circunstância. Foi assim ao longo da história, apesar das vozes proféticas nas bases de cada tempo, como a de Francisco, o de Assis. Acontece que, com Bergoglio, o exemplo vem agora de cima.  Uma tremenda ironia! Não estranhe se um dia destes aparecer uma «seita» contagiante, com muitos e novos fiéis. É a Igreja de Francisco, o de Buenos Aires. «Messiânico» em carne e osso, com virtudes e defeitos, e que não gosta de viver sozinho.

7 comentários:

  1. Respostas
    1. Francisco é, em minha opinião, a única figura de referência a nível mundial.
      Um ser humano extraordinário!

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  2. Não se pode clonar?
    Fazem falta no mundo mais homens como ele.

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  3. coerente, elucidativo e muito esclarecedor, alem de ser um belíssimo texto.

    :)

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  4. O que a Igreja Católica precisava há décadas: Francisco. Excelente este artigo!

    Beijos

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