7 de maio de 2014

Canonizações e seus perigos (Anselmo Borges, in DN)



No passado domingo, Roma concentrou mais de um milhão de pessoas, vindas de todo o mundo para a canonização dos papas João XXIII e João Paulo II, duas figuras que marcaram de modo decisivo a Igreja católica e o mundo no século XX, como tentarei mostrar no próximo sábado. Hoje, quereria tão-só reflectir sobre os perigos das canonizações.

É normal que em todas as instituições e sociedades se lembre e honre figuras que se destacaram. Assim, também na Igreja, desde o início, se venerou a memória dos mártires, que deram a vida por Cristo, e, depois, dos "confessores", cristãos exemplares. Também por causa dos abusos - durante quase todo o primeiro milénio do cristianismo, foi a comunidade crente a tomar a decisão de declarar quem era santo -, o papa Urbano VIII, em 1634, reservou a canonização dos santos ao bispo de Roma, sem que isso tenha significado o fim dos abusos. Em 1983, João Paulo II reforçou este centralismo papal, determinando que é "unicamente ao Sumo Pontífice que compete o direito de decretar" se o servo de Deus em causa merece ou não ser proposto como exemplo e modelo para "a devoção e imitação dos fiéis".

O teólogo J. M. Castillo, que escreveu uma história da canonização, faz notar que, nos santos que canoniza ou não, o poder papal acaba por pôr em evidência o modelo de Igreja que quer impor. Por exemplo, quando Eugénio III canonizou, em 1146, o imperador Eugénio II da Baviera, o que estava sobretudo em causa era "propor um modelo de governante político, piedoso e submisso à Santa Sé". Como consequência das Cruzadas, mudou o ideal de santidade, a ponto de uma pintura do Fim do Mundo retratar Cristo como soldado a cavalo. Outro exemplo eloquente é o papa Gregório VII, que morreu em 1085, sendo canonizado em 1728. Foi ele que operou a chamada "reforma gregoriana", que impôs o celibato obrigatório e centralizou o poder da Igreja no papa, de tal modo que o teólogo cardeal Y. Congar pôde escrever que, desde então, "obedecer a Deus significa obedecer à Igreja e isto, por sua vez, significa obedecer ao papa e vice-versa". Em pleno século do Iluminismo, era preciso exaltar o papado, recuperando a memória de um papa que já poucos podiam recordar.

Foi por Celso Alcaina que soube do número de pessoas envolvidas numa canonização: uns 24 funcionários permanentes na Congregação para as Causas dos Santos, 14 advogados de defesa, 2 promotores da fé, 20 cardeais, 10 relatores, 228 postuladores adscritos, 70 consultores, muitos peritos em diferentes assuntos, vários notários. Pode-se, pois, imaginar as somas de dinheiro que esta parafernália burocrática custa, percebendo-se os perigos de discriminação em que ficam homens e mulheres verdadeiramente santos, pois levaram uma vida heróica, no cumprimento do dever e na entrega aos outros, mas que não têm suporte financeiro, publicitário, político. Pergunto sempre: porque é que não se canoniza o Padre Américo e tantos casais exemplares?

Castillo: Num dos estudos mais fiáveis que se fizeram mostra-se que "de 1938 casos examinados de santos canonizados, 78% pertenceram à classe alta, 17% à classe média e só 5% à classe baixa".

E lá está a magnificência de uma canonização, que pode ferir a simplicidade do Evangelho. Quando se trata de canonizar papas, sobrevém o perigo da endogamia e da canonização do poder.

E tem de haver o "milagre" exigido como comprovativo de santidade. Isso é magia. E pensar que Deus interrompe ou suspende as leis da natureza supõe que Ele está fora do mundo e que, de vez em quando, vem dentro e vem para uns e não vem para outros. Ora, Deus não está fora mas dentro, como fundamento do milagre da existência de tudo. Precisamente porque tudo é milagre - o milagre de existir - não há "milagres".

Também nisto, estou com a minha irmã, que diz: "Eu ligo pouco a estas coisas. Eu sou como o nosso pai que só rezava ao Nosso Senhor".

10 comentários:

  1. ~ Concordo com a irmã do padre Anselmo, apesar de saber que os canonizados eram boas almas.

    ~ ~ ~ Um ótimo dia. ~ ~ ~

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    1. O processo de canonização de João Paulo II será sempre controverso, Majo.
      Pela rapidez, por tudo o que envolve, porque claramente Francisco não se sentiu nada confortável com o mesmo.
      A fé nos santos é um assunto que não discuto.
      É demasiado pessoal, íntimo, para ser discutido de ânimo leve.
      Mas gosto, mais uma vez, da postura do padre Anselmo Borges.

      Votos de um óptimo dia também

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  2. No adn da Igreja Católica os cromossomas são os santos. Houve uns anos em que a propagação esteve mais ou menos suspensa mas voltou em força no tempo do Papa João Paulo II. Pelo menos tenho essa impressão.

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    1. A canonização de João Paulo II ainda vai fazer correr muita tinta, Agostinho.
      Um processo muito polémico.

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  3. Quanto a mim, o Papa polaco nunca deveria ter sido canonizado ( protecção de Maciel, santificação ultra rápida de Josemaria Escrivá,indiferença absoluta por Monsenhor Óscar Romero, ....).

    Também não entendo a beatificação de Paulo VI.

    Enfim...

    Já conhecia este texto e mais uma vez me congratulo com a lucidez do seu autor.

    Sou crente, mas jamais percebi porque motivo a relação das pessoas com Deus ( ou a designação que lhe queiram dar, é-me indiferente) tem que ser mediada: a minha é pessoal, directa e intransmissível!

    Boa semana


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    1. Precisamente o ponto de vista da irmã do padre Anselmo Borges, São.
      Respeito quem é devoto (a minha mãe é devota da Rainha Santa)
      Mas eu também me relaciono directamente com Ele.
      Boa semana também

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  4. Também me faz impressão um santo feito tão à pressa.
    Mas a Igreja tem destas coisas. É uma questão de fé.
    Sou católica mas não consigo perceber estes fenómenos.
    Beijinho. :))

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    1. ana,
      O facto de sermos católicos não nos pode fazer acríticos.
      Bem pelo contrário como tão bem o demonstra Anselmo Borges.
      O processo de canonização de João Paulo II é tudo menos pacífico.
      Beijinho

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  5. Sobre isto já dei a minha opinião no CR. A posição de Anselmo Borges, que conheço há muitos anos não me surpreende.

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    1. Ainda não conheço pessoalmente Anselmo Borges, Carlos.
      Espero ter essa oportunidade muito brevemente.

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