19 de fevereiro de 2014

Francisco e Obama (ANSELMO BORGES)


Bento XVI teve um gesto histórico único ao determinar que no dia 28 do mês de Fevereiro passado, às 20 horas, a sede de Roma ficava vacante, abrindo assim caminho à eleição de um novo Papa. No dia 13 de Março, aconteceu pela primeira vez um Papa jesuíta: o cardeal de Buenos Aires, Bergoglio.

O nome escolhido, Francisco, foi todo um programa, que tem realizado. A sua atitude tem sido autenticamente franciscana. Conquistou o mundo, ao inclinar-se, despojado, perante a multidão e pedindo a sua bênção. Depois, com a sua humildade, simplicidade, bondade, compaixão, deixou o Palácio Apostólico para viver normalmente em Santa Marta. O seu interesse pelas pessoas é real e genuíno. Foi a Lampedusa, beija, diz piadas, sorri, ri, acaricia, escreve cartas, telefona. Não tem medo. Declara que também tem dúvidas.

Mas Francisco tem pela frente imensos problemas. Diria que o primeiro é tentar converter a sua Igreja ao cristianismo, começando pelos hierarcas. Que os cardeais, bispos, padres, católicos, se convertam ao Evangelho de Jesus.

Os problemas são ad intra e ad extra, isto é, no interior da Igreja e na sua relação com o mundo. Dentro, para lá da questão decisiva da conversão, há todo o problema de uma nova Constituição para a Igreja, a começar pelo papado. Não é compreensível que o Papa sozinho tenha tanto poder como o Papa e os bispos juntos, no quadro de uma monarquia absoluta. Significativamente, Francisco não fala de si como Papa, mas como bispo de Roma, o que indica que quer descentralizar, no quadro de maior participação dos bispos e das conferências episcopais. A Igreja Católica é a única instituição verdadeiramente global, e isso tem de implicar descentralização nos vários domínios da vivência do cristianismo. Se a Igreja é de todos, Povo de Deus, impõe-se a participação activa de todos, e será necessário dar também lugar às mulheres nos lugares cimeiros de decisão.

Para a pedofilia, tolerância zero. Essencial é a transparência no Banco do Vaticano. No contexto da moral, o próprio Francisco já condenou o legalismo e o ritualismo e avisou que não pode viver obcecada com o sexo. Assim, mostra compreensão em relação aos homossexuais, mandou um inquérito audaz a todos os católicos sobre o novo mundo da vivência familiar. É expectável que se abra a uma revisão da Humanae Vitae e aos anticonceptivos, à participação em toda a vida da Igreja, incluindo a comunhão, por parte dos divorciados recasados. Não irá ainda para a abolição da lei do celibato dos padres, mas poderá abrir as portas aos padres que entretanto casaram e à ordenação de homens casados.

Quanto à missão da Igreja para o seu exterior, Francisco já manifestou o seu empenhamento no ecumenismo - diálogo com as outras Igrejas cristãs, nomeadamente a ortodoxa, não sendo impossível vê-lo a visitar Moscovo - e no diálogo inter-religioso, concretamente com o islão. As Nunciaturas Apostólicas, isto é, as Embaixadas do Vaticano em quase todos os países do mundo terão o papel de pontes para a paz e a promoção dos direitos humanos. O Papa Francisco continuará a intervir no mundo como voz político-moral global, proclamando a justiça e a paz.

O efeito Francisco é inegável. Está aí a sua imensa influência nos média. Tem 11 milhões de seguidores no Twitter. Foi considerado a personalidade do ano 2013. Granjeou empatia, simpatia e admiração global. A prática religiosa tem aumentado. E a razão é simples: tomou a sério o Evangelho.

Mas não se pode ser ingénuo. Encontrará muitas resistências dentro e fora da Igreja. Sobretudo dentro, correndo o risco de, como Obama, cuja popularidade desceu, ver em parte bloqueada a sua revolução pacífica. É o que aconteceria se não conseguisse uma nova Constituição para a Igreja, uma profunda e rápida transformação da Cúria, transparência plena no Banco do Vaticano.

Mas há razões para uma esperança fundada. Rodeou-se do G8 cardinalício e quer rapidamente reformar a Cúria. Francisco faz a síntese de franciscano e de jesuíta. Ele é cristão franciscano, com formação de jesuíta para uma estratégia na eficácia.

in DN

14 comentários:

  1. Não sabia que vive na residência do Vaticano! Muito interessante,
    Tem muitos desafios... Gostaria que resolvesse, com sucesso, a maior parte deles. Que Deus o acompanhe!
    ~ ~ ~ Beijihos. ~ ~ ~

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    1. Foi uma das primeiras decisões dele, Majo.
      Carregada de simbolismo - despojar-se de bens materiais, do luxo, dar o exemplo, e apresentar-se como Bispo de Roma, não Papa.
      A grande esperança neste Mundo complexo, Majo.
      Obama, que também o foi, desiludiu muito.
      Esperemos que Francisco siga, e o deixem seguir, um caminho diferente.
      Beijinhos

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  2. Levar em linha de conta o poder do Senado e da Câmara dos Representantes. Obama tem tido uma série de obstáculos.

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    1. Por isso mesmo, quando me refiro a Francisco, sublinho, se o deixarem, Catarina.
      Boa vontade não chega.
      É preciso colaboração.
      E, ligando com o outro post, muitas vezes há que saber negociar essa colaboração.

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  3. Aposto nisto, Pedro:

    "Mas há razões para uma esperança fundada. Rodeou-se do G8 cardinalício e quer rapidamente reformar a Cúria. Francisco faz a síntese de franciscano e de jesuíta. Ele é cristão franciscano, com formação de jesuíta para uma estratégia na eficácia."

    Aquele abraço.

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    1. Eu também, António.
      Tudo nele é genuíno.
      Não há ali nada plástico, estudado.
      Que Deus o ilumine e o auxilie nesta tarefa ciclópica.

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  4. O papa Francisco é uma surpresa para mim: é um homem!
    Há muito que se viam na cadeira de Pedro figuras, como dizer, abstratas.

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    1. É isso mesmo, Agostinho - um ser humano de uma simplicidade desarmante.
      A pessoa que mais admiro na actualidade

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  5. Adoro este homem (Francisco), Pedro!
    Abraço, amigo

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    1. Quem não gostar de Francisco, não gosta de pessoas, Ricardo.
      Que Deus o abençoe nesta sua difícil caminhada

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  6. Todos aqueles que no mundo marcam a diferença pelo que se sabe...logo saltam os tubarões do bota abaixo por não quererem perder mordomias e serem senhores únicos e cada vez mais anafados e a nadar em dinheiro.

    Francisco e Obama...muita coisa em comum...e "que Deus os ilumine e os auxilie nas tarefas ciclópicas". Eu acredito que SIM!

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    1. São dois seres humanos invulgares, Fatyly.
      Francisco é mesmo, ouso afirmar, uma luz de esperança no mundo.

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  7. Mais uma vez , Borges demonstra a sua acuidade.

    E subscrevo tudo quanto aqui escreveu.

    Esperemos que Jorge não morra tão inesperada e convenientemente como Albino.

    Tudo de bom.

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    1. Se tiver tempo para isso, espero conhecer pessoalmente Anselmo Borges este ano, São.
      Mestre do meu pai no curso de Filosofia em Coimbra, é uma ser humano de uma cultura e inteligência invulgares.
      Às quais alia, pelo que me diz o meu pai, uma enorme simplicidade.
      Como é que não se identificaria com Francisco?
      Que Deus proteja o Santo Padre, São.
      O mundo precisa dele vivo e actuante.

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