18 de fevereiro de 2014

CARTA ABERTA A UM DUX




Dux:

Ando aqui com esta merda entalada há já algum tempo. A ouvir as diferentes versões, a pensar nas dúvidas e a pôr-me no lugar das pessoas. Tento pôr-me no lugar dos pais dos teus colegas que morreram. Mas não quero. É um lugar que não quero nem imaginar. É um lugar que imagino ser escuro e vazio. Um vazio que nunca mais será preenchido. Nunca mais, Dux. Sabes o que é isso? Sabes o que é "nunca mais"?

A história que te recusas a contar cheira cada vez mais a merda, Dux. Primeiro não falavas porque estavas traumatizado e em choque por perderes os teus colegas. Até acreditei que estivesses. Agora parece que tens amnésia selectiva. É uma amnésia conveniente, Dux. Curiosamente, uma amnésia rara resultante de uma lesão cerebral de uma zona específica do cérebro. Sabias Dux? Se calhar não sabias. Resulta normalmente de um traumatismo crânio-encefálico. Portanto Dux, deves ter levado uma granda mocada na cabeça. Ou então andas a ver se isto passa. Mas isto não é uma simples dor de cabeça, Dux. Isto não vai lá com o tempo nem com uma aspirina. Já passou mais de 1 mês. Continuas calado. Mas os pais dos teus colegas têm todo o tempo do mundo para saber a verdade, Dux. E vão esperar e lutar e espremer e gritar até saberem. Porque tu não tens filhos, Dux. Não sabes do que um pai ou uma mãe é capaz de fazer por um filho. Até onde são capazes de ir. Até quando são capazes de esperar.

Vocês, Dux... Vocês e os vossos ridículos pactos de silêncio. Vocês e as vossas praxes da treta. Vocês e a mania que são uns mauzões. Que preparam as pessoas para a vida e para a realidade à base da humilhação, da violência e da tirania. Vou te ensinar uma coisa, Dux. Que se calhar já vai tarde. Mas o que prepara as pessoas para a vida é o amor, a fraternidade, a solidariedade e o civismo. O respeito. A dignidade humana e a auto-estima. Isso é que prepara as pessoas para a vida, Dux. Não é a destruí-las, Dux. É ao contrário. É a reforçá-las.

Transtorna-me saber que 6 colegas teus morreram, Dux. Também te deve transtornar a ti. Acredito. Mas devias ter pensado nisso antes. Tu que és o manda-chuva, e eles também, que possivelmente se deixaram ir na conversa. Tinham idade para saber mais. Meco à noite, no inverno, na maior ondulação dos últimos anos, com alerta vermelho para a costa portuguesa? Achavam mesmo que era sítio para se brincar às praxes, Dux? Ou para preparar as pessoas para a vida? Vocês são navy seals, Dux? Estavam a preparar-se para alguma missão na Síria? Enfim. Agora sê homenzinho, Dux. E fala. Vá. És tão dux para umas coisas e agora encolhes-te como um rato. Sabes o que significa dux, Dux? Significa líder em latim. Foste um líder, Dux, foste? Líderes não humilham colegas. Líderes não "empurram" colegas para a morte. Líderes lideram por exemplo. Dão o peito e a cara pelos colegas. Isso é um líder, Dux.

Não sei o que isto vai dar, Dux. Não sei até que ponto vai a tua responsabilidade nesta história toda. Mas a forma como a justiça actua neste país pequenino não faz vislumbrar grande justiça. És capaz de te safar de qualquer responsabilidade, qualquer que ela seja. Espero enganar-me. Vamos ver. O que eu sei é que os pais que perderam os filhos precisam de saber o que aconteceu. Precisam mesmo, Dux. É um direito que eles têm. É uma vontade que eles precisam. Negá-los disso, para mim já é um crime, Dux. Um crime contra a humanidade. Uma violação dos direitos humanos fundamentais. Só por isso Dux, já devias ser responsabilizado. É tortura, Dux. E a tortura é crime.

Sabes, quero me lembrar de ti para o resto da vida, Dux. Sabes porquê? Porque não quero que o meu filho cresça e se torne num dux. Quero que ele seja o oposto de ti. Quero que ele seja um líder e não um dux. Consegues pereceber o que digo, Dux? Quero que ele respeite todos e todas. Que ele lidere por exemplo. Que ele não humilhe ninguém. Que seja responsável. Que se chegue à frente sempre que tenha que assumir responsabilidades. Que seja corajoso e não um rato nem um cobardezinho. Que seja prudente e inteligente. E quero me lembrar também dos teus colegas que morreram. Porque não quero que o meu filho se deixe "mandar" e humilhar por duxezinhos como tu. Não quero que ele se acobarde nem se encolha perante nenhum duxezinho. Quero que ele saiba dizer "não" quando "não" é a resposta certa. Quando "não" pode salvar a sua dignidade, o seu orgulho ou até a sua vida. Quero que ele saiba dizer "basta" de cabeça erguida e peito cheio perante um duxezinho, um patrãozinho, um governozinho ou qualquer tirano mandão e inseguro que lhe apareça à frente. É isso que eu quero, Dux. Quem o vai preparar para a vida sou eu e a mãe dele, Dux. Não é nenhum dux nem nehuma comissão de praxes. Sabes porquê, Dux? Porque eu não quero um dia estar à espera de respostas de um cobarde com amnésia selectiva. Não quero nunca sentir o vazio dos pais dos teus colegas. Porque quero abraçar o meu filho todos os dias da minha vida até eu morrer, Dux. Percebeste? Até EU morrer. EU, Dux. Não ele.

Texto original aqui

10 comentários:

  1. Pedro,

    às vezes, interrogo-me por onde andam os chamados "Códigos de Praxe"? Para que servem?

    A "tradição académica" não se compra vamos, ao longo do tempo, construindo!

    Aquele abraço, Pedro!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Estas novas instituições de ensino não têm códigos, não têm tradições.
      Copiam estupidamente o que outros fazem e nada mais, Ricardo.

      Eliminar
  2. Excelente texto.
    Gostaria de conhecer a reacção do Dux se lhe chegasse às mãos esta carta.
    Será que se conseguiria perceber nele algum sentimento?

    Aquele abraço, Pedro.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O texto é arrepiante, António.
      Mas não produzirá efeito nenhum junto dos cretinos que invocam tradições que claramente não têm

      Eliminar
  3. Para aplaudir de pé!

    Por mim, as praxes seriam duramente reprimidas ou os excessos castigados exemplarmente.

    Incrível que jovens de uma estupidez atroz defendam o direito à humilhação!!!

    Tudo de bom, Pedro

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Subscrevo, São.
      E, quem se submete a estas práticas degradantes, e tão doente como quem as cria

      Eliminar
  4. Já tinha lido, por sugestão da São. Não tenho palavras...

    ResponderEliminar
  5. Se antes podia pensar algo parecido com o que está nesta carta, agora comecei a ver mais o outro lado (deformação profissional ou espírito da contradição). Aqueles que estavam lá, de alguma forma tinham aderido à praxe e talvez até quisessem ser dux um dia, e o que é dux, antes terá estado naquela casa a ser praxado pelo dux anterior. E pode ser que tenha sido um acidente terrível porque muitos jovens correm riscos e estivessem na altura só a passear e o dux pode estar tão abalado com o choque e a culpa por ter perdido os amigos que não consegue a força para encarar os pais dos que morreraram. Quem escreveu a carta não terá pensado como seria se fosse o pai não de um dos que morreu, mas do dux
    (quando estive na faculdade só me lembro de ter apanhado com perfume e de uma aula dada por um falso professor, e depois ter rejeitado participar em ser praxada ou praxar)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Gábi,
      Se bem percebo, esta carta aberta não é apenas para aquele Dux.
      É para todos os Dux que submetem os colegas a práticas degradantes e perigosas até.

      Estamos no mesmo barco, Gábi - também recusei ser praxado.
      Não acho piada nenhuma a essas tolices.
      E estou mesmo a referir-me a tolices.
      Práticas degradantes, ou violentas, nem pensar!

      Eliminar