18 de fevereiro de 2014

"A civilização da praxe" por Inês Pedrosa


“Hey por bem e mando que todo e qualquer estudante que por obra ou palavra ofender a outro com pretexto de novato, ainda que seja levemente, lhe sejam riscados os cursos”. Esta ordem foi lavrada por El-Rei D. João V, no ano da graça de 1727, na sequência da morte de um aluno da Universidade de Coimbra. 
Não se pode dizer que tenha sido muito eficaz; a prática da humilhação como ritual de entrada numa comunidade parece demasiado humana para ser arredada pela luz da razão. 
De onde vem este impulso de aviltar o outro ou acatar aviltamentos? 
Enquanto não soubermos desmembrá-la e combatê-la, a chamada 'radição' das praxes prosseguirá, com o seu cortejo de tragédias. 
O espectro das mortes provocadas por esta barbárie apresentada como 'acto de integração e cultura' é muito mais amplo do que aquele que as estatísticas sugerem. 
A humilhação desfigura as pessoas e as suas existências a longo prazo, e a ideologia das praxes entranha-se na sociedade cada vez mais cedo.
Os actos de abuso continuado que a globalização baptiza como bullying são a praxe da infância e da primeira juventude. 
Ao bullying entre adultos chama-se 'espírito competitivo' ou 'esperteza'; o lema é: 'salve-se quem puder'. Há uma caterva de teóricos do instantâneo que usam a nobre palavra 'mérito' como sinónimo de voracidade. 
Nesta era de individualismo vertiginoso, instauramos paradoxalmente um sistema de anulação da responsabilidade individual - isto é, do pensamento livre e da auto-determinação. 
O bem e o mal tornam-se definições exteriores ao sujeito, reguladas por decretos discricionários e sinuosos, numa encenação ética leviana de voto-ou-veto. 
O poder, por sua vez, é cada vez menos identificável e mais disseminado: está em toda a parte e em lugar nenhum. 
Esta semana, o presidente do Conselho de Administração da Universidade Lusófona defendeu o direito à praxe, alegando que só sociedades totalitárias e ditatoriais proíbem e censuram. A liberdade, como o terror, parece ter deixado de ter limites.
O direito à máxima expressão potencia o direito à opressão.
Vivemos na hiperrealidade do Big Brother, num mundo assombrado por ameaças altamente sofisticadas e invisíveis e dominado pelo espectro soberano do medo. 
O medo desumaniza: fecha as comportas do pensamento e da sensibilidade. 
Fala-se de “praxes graves” ou “excessivas”; não entendo que ligeireza pode existir na ideia de “integrar” através de rituais colectivos de submissão. O facto de a praxe ser circunscrita no tempo e perfumada pelo erotismo da extrema juventude não atenua o seu impacto de intimidação, antes define uma sociedade repartida entre intimidantes e intimidados. 
Proibir as praxes não acabará de imediato com elas; ainda hoje a escravatura e a tortura resistem à lei. 
Mas, pelo menos, será um sinal de recusa de uma civilização de autómatos castigados e castigadores. 
“Que lhes sejam riscados os cursos”, como postulava D. João V. Que paguem multas pelo menos tão criativas e assustadoras quanto os jogos de desmoronamento da personalidade de que se compõe isso a que tantos insistem em chamar “brincadeira”. 
Gente destruída compõe um rebanho manso, infinitamente manipulável pelos mercados, pelos pulverizados poderes, por todos os papões. E capaz de tudo para sobreviver.

8 comentários:

  1. Concordo com a Inês e acrescento que a Uiversidade Lusófona muito perdeu quando defende a praxe como prática de um estado democrático.
    A bem da conservação de tradições, ainda poderíamos apreciar espetáculos de gladiadores, numa arena.
    ~ Uma boa noite, amigo. ~

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  2. O raciocínio é o mesmo, Majo.
    Se é tradição, que importa que se degradem as pessoas, que algumas inclusivamente morram?

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  3. Se para nada mais servir, que a discussão sobre as praxes sirva, pelo menos, para melhor percebermos que tipo de gente estamos a formar e vislumbrar o que pode suceder se um dia chegarem ao poder. Aterrador, só de imaginar!

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    1. Esse é um aspecto que muitas vezes se esquece - estes meninos são quase adultos.
      E são os futuros líderes amanhã.
      Deus nos acuda!!

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  4. Inês Pedrosa, como sempre, desmontou muito bem a situação que escolheu analisar - e eu concordo inteiramente com ela!

    Bons sonhos

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  5. Eu pasmo perante a defesa do absurdo por parte dos responsáveis da Lusófona e de professor como se viu num debate telenovelístico Prós e Contras da RTP.
    A praxe é a prática da doutrina amestradora de "rebanho manso", com objetivos malévolos como bem escreve Inês Pedrosa no último §.
    Isto resolve-se com determinação. A argumentação para convencer os aprendizes de Sade passa por: tenham paciência, tem de ser.

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    1. A receita do Raul Solnado, Agostinho - "meu filho, quer queiras, quer não queiras, tens que ser bombeiro voluntário" :)

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