31 de julho de 2012

O homem lapso (Ricardo Araújo Pereira)



Toda a gente devia ter o seu Miguel Relvas. Dá jeito em qualquer ocasião. Um estudante não sabe a resposta a uma pergunta e, para distrair o júri da oral, exibe um Miguel Relvas. Um gatuno entra numa casa e, para entreter os cães, atira-lhes um Miguel Relvas. Uma mulher é apanhada com o amante e, para desviar a atenção do marido, apresenta-lhe um Miguel Relvas.
Infelizmente, só o Governo tem o privilégio de ter um Miguel Relvas. E o Miguel Relvas do Governo é o melhor de todos os Miguéis Relvas. Trata-se de um Miguel Relvas que, além de conseguir desviar a atenção do que é mais importante no Governo, desvia a atenção do que é mais importante em Miguel Relvas. Miguel Relvas consegue ser Miguel Relvas de si mesmo. Por causa do que Miguel Relvas fez na Lusófona, já ninguém fala do que Miguel Relvas fez ao Público. E, no entanto, os casos relacionam-se em toda a sua esplendorosa relvice. Na altura em que foi confrontado com o facto de, em duas legislaturas seguidas, ter alegado frequentar o segundo ano do curso de Direito, quando na verdade tinha feito apenas uma cadeira do primeiro ano, Miguel Relvas disse que se tratava de um lapso. Quando constatou que a deliberação da ERC não referia a "pressão inaceitável" do ministro, o presidente do organismo disse que se tratava de um lapso. Um lapso a propósito de um homem que tinha incorrido em dois lapsos, com uma cifra final de lapsos que acaba por ascender a três. Esta salsada de lapsos passou sem reparo. É uma orgia de enganos. Um bacanal de equívocos. Uma ménage-a-trois de quiproquós. Merecia mais e melhor atenção.
No momento em que escrevo, Miguel Relvas ainda não se demitiu. Talvez no lapso de tempo que decorre entre a escrita deste texto e a sua publicação, ocorram outros lapsos que o obriguem a demitir-se. Mas não parece provável. Nem, devo dizer, necessário. Um número relativamente alargado de pessoas exige uma demissão, ignorando que já houve várias. Ricardo Alexandre deixou de ser director-adjunto da RDP, Maria José Oliveira deixou de ser jornalista do Público e Fernando Santos Neves deixou de ser reitor da Lusófona do Porto. Quase todos os envolvidos nestes casos abandonaram as suas funções, menos Relvas. A troika bem avisou que um dos problemas mais graves do País era a dificuldade de despedir gente na função pública. Agora é possível apostar, na internet, no momento que Relvas escolherá para se demitir. É dinheiro deitado à rua. O mais provável é que todo o povo português se demita antes de Miguel Relvas.

11 comentários:

  1. Caro Pedro
    Usando o humor duma forma brilhante o RAP trás para aqui uma questão. De facto o "tal" desviou as atenções exageradamente (não que não seja grave) de muitas outras situações. Até eu precisa de um...
    Abraço
    Rodrigo

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  2. Rodrigo,
    O RAP, para além de um brilhante humorista, é um tipo muito inteligente e um excelente observador da realidade que o rodeia.
    Sem dúvida, o caso Relvas tem entretido de tal maneira as pessoas que outras situações, quiçá mais importantes e mais graves, passam para segundo plano.
    E será assim até o tipo sair do Executivo (o Passos Coelho terá coragem para o demitir a seguir ao processo de privatização da RTP?).
    Aquele abraço

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  3. Uma excelente crónica, como habitualmente. Gosto do seu sentido de humor.
    Abraço
    Catarina (Contempladora)

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  4. Olá Catarina!
    Como estão a correr essas férias?
    O RAP é um tipo com grande sentido de humor mas que não abandonou a sua formação académica (jornalismo).
    Como tal, com muito humor à mistura, consegue análises excelentes como esta.
    Continuação de boas férias!!

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  5. Estimado Amigo Pedro Coimbra,
    Como sempre aprecio e de que maneira a escrita deste revelante jornalista.
    Quanto à não demissão do dito cujo provavelmente será pelo aviso colocados nos jardins " PROIBIDO PISAR A RELVA ".

    Abraço amigo

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  6. É uma questão de tempo, o afastamento de Relvas.

    RAP pega muito bem no assunto (ou não assunto?) e explora-o à sua maneira. Com inteligência como habitualmente.

    E enquanto se fala de Relvas, siga a marcha. Ou o futebol, o fado e Fátima.
    Exagero? I don't think so...

    Abraço

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  7. Amigo Cambeta,
    Neste caso é a Relva que nos anda a pisar a nós.
    Porque faz o país aparecer nas notícias pelos piores motivos.

    António,
    Após a privatização da RTP?
    Acredito que sim.

    Até lá, quem é que o Porto comprou e quem é que o Benfica vendeu?
    E o Sporting, aguenta-se na luta?

    Esta vida é um fadinho, que põe um homem de molho;
    Eu finjo que sou ceguinho;
    Eu cá, tenho um grande olho! :))

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  8. É só Relvas para aqui, Relvas para ali... enquanto ele está a ser o novo bode expiatório, Portugal vai-se esquecendo de muitos outros problemas, e bem mais graves, que vão assolando o país. Que importa? Há o Relvas e é nele que temos todos que bater agora.

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  9. Como o Pedro comentou lá no CR, o RAP é impagável! Precisávamos de mais dois ou três, para nos animar

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  10. FireHead,
    O Relvas está a distrair o país?
    Concordo.
    Mas, enquanto não se demitir, ou for demitido, terá que ser assim.
    Não tem dignidade para ocupar um cargo governativo.
    Ainda para mais o número dois do governo.
    Tem que sair.
    Pelo próprio pé, ou empurrado.
    Até lá, tem que se moer o juízo ao fulano.


    O tipo é excepcional, Carlos.
    E, com o sentido de humor que só ele tem, é capaz de análises muito sérias.
    Como o faz neste caso.

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  11. Amigo,

    O Sócrates também não esteve no cargo de primeiro-ministro até ao fim? Então, por uma questão de igualdade de "direitos", deixem o Relvas. Como dizia o Luís Filipe Vieira, deixem jogar o Mantorras...

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