7 de junho de 2012

Sou português, mas não sei o que isso é

Dou a conhecer uma reportagem da jornalista Vanessa Amaro, do diário Hoje Macau, que podem consultar aqui.
Aguardo os vossos comentários.



Jovens chineses com nacionalidade portuguesa contam o que é Portugal

 "Dá jeito para viajar". 
Ter um passaporte português resume-se a isso para 12 jovens chineses nascidos em Macau que o Hoje Macau entrevistou. 
Não sabem apontar Portugal no mapa, não fazem ideia quem é o presidente do país e nem sequer souberam precisar o porquê de terem um documento de viagem português - e a nacionalidade portuguesa - no bolso. 
E há mais. 
As famosas "egg tarts" foram uma invenção local, a soberania lusa no território durou "mais ou menos" 20 anos e o português é uma língua oficial porque o inglês não
podia ser - para "não ser igual a Hong Kong"


Mimi Chan, 29 anos, informática, herdou da mãe *o direito de ser portuguesa*.
A mãe, chinesa, nasceu antes de 1979 e conseguiu automaticamente a nacionalidade. Portugal, no entanto, nunca foi tema de conversa familiar.
"Os meus pais acharam que eu devia ter passaporte português para facilitar as deslocações ao estrangeiro. Mas, na verdade, nunca falamos sobre o facto de, certa forma, sermos portugueses", disse. Quando estava a tirar a
licenciatura, há cinco anos, foi obrigada a ter um ano de português como língua estrangeira. "Ainda me lembro de coisas básicas, como 'bom dia', 'como te chamas?' ou 'estás bem?'. Nunca pratiquei com ninguém e não vejo a
utilidade de falar português", contou Mimi.
Já viajou pelo mundo todo, já passou pela Europa, sem nunca pôr Portugal nos planos de viagem. E, afinal, o que sabe Mimi a presença portuguesa de mais de quatro séculos no território?
 "O quê? Os portugueses estiveram cá
460 anos? Eu achava que tinha sido mais ou menos 20. Sei que deixaram boa comida e prédios muito bonitos", constatou a informática.****

Invenções de outro mundo

Para a agente imobiliária Yoko Leong, de 22 anos, as "egg tarts", como por cá ficaram conhecidos os pastéis de nata, foram uma invenção local. "Foram as pastelarias que criaram esse pastel para ter algo de diferente para
oferecer aos milhões de turistas chineses que passam por Macau", afirmou, categórica. Ficou surpresa por saber que a iguaria é uma herança portuguesa. "Não fazia mesmo ideia. Eu sabia que a comida portuguesa tem boa fama, mas jurava que as 'egg tarts' tinham sido inventadas pelos chineses. Nem fazia ideia de que existiam em Portugal."
Yoko soma carimbos de viagens no seu passaporte português. "Dá muito jeito.
Se fosse viajar com o passaporte de Macau tinha de pedir visto prévio, o que é sempre uma chatice. Com o português é sempre a andar." A agente imobiliária sabe que o seu segundo país fica na Europa, no entanto, não consegue apontar exactamente onde. "Acho que é para o Norte." 
Tem uma tia que fala bem português por trabalhar na função pública e às vezes pede-lhe para dizer umas quantas palavras. "Soa bem, até gostava de aprender se um
dia tivesse tempo."

Wendy Fong, de 22 anos, estudante universitária, soube precisar as cores da bandeira portuguesa depois de um longo período de meditação. As influências portuguesas na cultura de Macau, contudo, resumem-se em "Portugal ter atacado Macau e ter havido uma guerra". O dia que hoje se assinala é "de
orgulho para o povo chinês, por ter conseguido recuperar parte do seu território". 
Aprender português está completamente fora de questão. "Macau
já não está sob o controlo dos portugueses. Por isso, não há utilidade nenhuma em se falar português por cá. Acho que o chinês deveria ser a única língua oficial."

Sempre que Virgínia Leung, de 23 anos, puxa do passaporte, experimenta o mesmo sentimento. "É normal as pessoas olharem para mim com curiosidade nos postos fronteiriços por verem alguém com fisionomia chinesa com nacionalidade portuguesa. Sinto-me especial", confessou. 
Isso não significa, contudo, que saiba o que realmente é ser portuguesa. "É melhor ter um passaporte português do que chinês, mas não me parece que eu tenha de aprender português ou saber mais sobre o país só porque tenho um
passaporte de lá. Foi um benefício que nos foi dado, depois de anos do domínio português cá", referiu, acrescentando também que há "milhares de portugueses no território que nunca mostraram esforço em aprender cantonês
ou entender a cultura daqui". 
Ainda assim, a assistente de recursos humanos
acredita que fica bem a Macau ter mais do que uma língua oficial - e ainda para mais uma que não é tão comum. "Hong Kong já tinha o inglês e Macau também tinha de ter outra língua. Não termos o inglês faz-nos diferentes."

História de ninguém

Dos 12 entrevistados, apenas Connie Wu, 26 anos, bancária, sabia em que idioma está escrito as sinaléticas além do chinês. "É em português!", respondeu satisfeita. "Como o português é uma das línguas obrigatórias, todos os símbolos públicos têm de estar escrito em chinês e português.
Também sei que o Direito é português e que isso tem causado problemas aos chineses que querem ser advogados cá."

Nenhum deles sabia, entretanto, que há um canal e uma estação de rádio em português e três jornais diários em língua portuguesa.

De acordo com os censos realizados em 2006, há apenas 188.651 residentes de
 Macau nascidos no território e, mesmo acrescentando os nascidos entre 2007
e 2009, apenas cerca de 203 mil residentes dos 360 mil residentes
permanentes nasceram em Macau. Ainda assim, estima-se que pelo menos 150 mil chineses nascidos no território tenham também a nacionalidade portuguesa.

O que sabem os jovens "portugueses" de Portugal

"Portugal atacou Macau."
*Wendy Fong*, 22 anos, estudante

"É um país na Europa que um dia já foi muito forte e poderoso. Hoje, só a selecção de futebol é que é conhecida. Sei quem é o Figo".
*Frederick Lau*, 25 anos, bancário

"Não sei nada de Portugal. Já ouvi dizer que os portugueses jogam bem  futebol."
*Virginia Leung*, 23 anos, assistente de Recursos Humanos

"Os portugueses estiveram em Macau por alguns anos."
*Phoebe Ieong*, 26 anos, secretária

"A capital é Lisboa, a comida é saborosa e há uma dança típica."
*Cynthia Ng*, 23, recepcionista

"Não sei absolutamente nada. Nunca li ou aprendi qualquer coisa sobre esse país."
*Alice Mak*, 20 anos, administrativa

"O clima é ameno."
*Violet Ao*, 23 anos, estudante

"Portugal dominou Macau durante alguns anos."
*Hebbe Ieong*, 20 anos, agente de seguros

"Portugal tem boa comida."
*Connie Wu*, 26 anos, bancária

"Os meus pais gostam de beber vinho tinto português."
*Yoko Leong*, 22 anos, agente imobiliária

"Não me consigo lembrar de nada."
*Mimi Chan*, 29 anos, informática

10 comentários:

  1. É por estas e outras que quando me falam de Macau como sendo um ponto de encontro de diferentes culturas, eu respondo que isso não passa de um enorme mito.
    Os chineses querem impor a sua cultura e o resto são tretas
    Abraço

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  2. Um chavão que se foi enraizando, Hugo.
    Digo-o com a maior frontalidade, e com o maior à-vontade, porque tenho amigos, e familiares, que são o retrato fidedigno do que aqui está exposto.
    Aquele abraço

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  3. Estimado Amikgo Pedro Coimbra,
    Não fiquei nada admirado, pois lá diz o ditado "Quem semeia ventos colhe tempestades".
    A minha esposa é chinesa, quando era miúda a mãe quis matricula-la numa escola portuguesa, mas como tinha o nome em chinês, era chinesa não o pode fazer.
    Mais ela tirou o curso de enfermagem pago pelo seu bolso enquanto os filhos da terra além de não terem que pagar nada ainda tinham subsídio, e esse tempo de estudos de enfermagem lhes foi contado para efeitos de reforma, ao contrário das alunas chinesas que passaram a exercer a profissão no Hospital do governo.
    Isto para não citar muitos mais casos.
    A minha esposa aprendeu o português sem ajuda de ninguém, e aumentou os conhecimentos depois de ter casado comigo.
    É assim já amigo, nada me admira, com a malta nova não saber nada sobre Portugal e usar o passaporte português.
    Através da RTPi nas entrevista que faz na rua, a malta de lá muitos deles não sabiam o hino nacional nem o que representava a bandeira portuguesa, como tal é assim já!...
    Um abraço amigo de um sino-alentejano

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  4. Amigo Cambeta,
    A sua esposa será uma das excepções.
    Que também as há.
    Mas são isso mesmo - excepções.
    A regra é esta - o passaporte e o B.I. são porreiros para viajar.
    E não é para Portugal.
    Aquele abraço

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  5. Seria interessante o Hoje Macau, ou a jornalista Vanessa Amaro, fazer uma reportagem sobre o que os nossos jovens adultos sabem sobre a terra que lhes dá o pão de cada dia... pelo menos, para ficarmos a saber se também queremos impor a nossa cultura.

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  6. António Vaz,
    Perfeitamente de acordo com o que escreve.
    Muitos portugueses passaram (estão) aqui sem nunca perceberem o sítio onde estão.
    Já foi mais.
    Até como consequência das mudanças políticas e sociais que entretanto aconteceram esse panorama alterou-se um bocado.
    Mas ainda há muito quem assim se comporte.
    Sabe o que me disseram no primeiro dia em que aqui cheguei (1 de Outubro de 1995)?
    Se vens para Macau para ganhar dinheiro, te fechares a quem aqui vive, a outra mentalidade e cultura, enfim, se quiseres trazer Lisboa para Macau, e voltar só com a conta mais recheada, problema teu.
    Mas vais perder uma oportunidade única de crescer e te enriqueceres enquanto pessoa.
    Ao fim de todos estes anos, espero bem não estar a perder essa oportunidade.

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  7. Uma palermice do nosso império. E depois ainda se admiram quando me ouvem dizer que a nacionalide é só para quem a merece ter e que se devia retirar a nacionalidade a quem não a merece ter. Esses gajos para todos os efeitos oficiais não são chineses, mas sim portugueses. No entanto exceptuando a nacionalidade, nada têm de português. Ou seja, podemos afirmar que eles são uma treta, pois não são nem carne nem peixe. Os Mários Soares e companhia esfregam as mãos e assobiam para o lado.

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  8. São portugueses nos documentos, FireHead.
    Digo-o com conhecimento de causa (amigos e familiares).
    Quem é que lhes deu esta possibilidade?
    Nós, portugueses.
    A China alguma vez pensou em semelhante coisa com os portugueses?
    Jus sanguinis, não é?

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  9. "Sou português, mas não sei o que isso é"

    Uma vez português, sempre português

    hahahaha

    Até em Macau....

    Viva Brasil!

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  10. Anónimo,
    Acho que, para lhe responder convenientemente, tinha que utilizar a linguagem gestual.
    Neste caso, o dedo do meio.
    Faço-me entender ou precisa de um desenho??

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