23 de maio de 2012

A Associação Académica de Coimbra (AAC) e o Clube Académico de Coimbra (CAC)





A conquista da Taça de Portugal por parte da Académica, e uma troca de opiniões nos blogues com um bom amigo (Abraço, Rodrigo!!) fizeram-me recuar no tempo e recuperar as memórias do processo conturbado, pós revolução de Abril de 1974, que conduziu à extinção da Associação Académica de Coimbra (AAC) e à criação do Clube Académico de Coimbra (CAC).
A ACC, desde sempre ligada à Universidade e aos estudantes universitários, conheceu períodos conturbados na sua longa história.
Fundada em 1876, resultado da fusão entre o Clube Atlético de Coimbra e a Academia Dramática, a AAC viveu muitos anos (até à década de 70 do século XX), umbilicalmente ligada à Universidade.
Uma grande maioria dos jogadores estudava na Universidade, onde viria a terminar os seus cursos, e jogava futebol ao mesmo tempo.
São tantos - Jorge Humberto, há muitos anos radicado em Macau; o Bentes, meu professor de escola primária; o Zé Belo que foi Director do Trabalho e Emprego aqui em Macau; Manuel António, os irmãos Campos, Vasco Gervásio, Artur Jorge, José Alberto Costa,......tantos que seria virtualmente impossível enumerá-los todos.
Foi precisamente esta ligação, e a ideia que a mesma implicava um estatuto burguês que, em 1974, levaram a que a AAC fosse de algum modo ostracizada porque erradamente ligada ao antigo regime e, como tal, extinta.
A Académica, e a Universidade, figuras de proa nas lutas contra o regime fascista, nas canções de intervenção (Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso, Manuel Alegre,....) são, de repente, associadas a um estatuto burguês e colaboracionista que eram o oposto do que sempre representaram.
Uma injustiça como poucas conheci.
Consequência - a Académica é extinta e dá lugar ao Académico (CAC).
Que nunca teve a mesma mística, a mesma irreverência, a mesma cagança e pujança, o mesmo instinto boémio, o mesmo poder de atracção que a Briosa sempre teve e ainda hoje conserva.
Os excessos revolucionários acalmaram, a cidade sentiu saudade, aquele saudade que os poemas e a canção de Coimbra tão bem retratam, da sua Académica e, em 1984, é criado o Organismo Autónomo de Futebol (OAF).
Ligado à Associação Académica de Coimbra (AAC-OAF), mas unicamente voltado para o futebol.
Lembrei-me de tudo isto ao ver os adeptos da Académica no Jamor e em Coimbra, as mensagens de protesto político, agora mais explícitas, mais livres, mas com a mesma irreverência e jactância que caracterizam o clube e a cidade.
Ainda hoje não percebo, acho que nunca perceberei, como é que se associou a Briosa ao antigo regime.
A Briosa foi, é, será, aquilo que se viu no passado domingo.
Algo que está nos antípodas daquilo que levou ao seu descrédito e à sua dissolução.
Gosto muito do título do livro de Marguerite Yourcenar  - "O Tempo, Esse Grande Escultor".
Efectivamente, o tempo permite-nos ter uma diferente visão e dimensão das coisas, dos acontecimentos.
Não deve é levar-nos, nunca, a esquecê-los.
Em tempo de festa, não se devem esquecer estes desvarios.
Para evitar que se venham a repetir.

12 comentários:

  1. Caro Pedro
    Não conhecia a história. Fez bem em contá-la.
    Abraço
    Rodrigo

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  2. Muitas pessoas já não se lembram destes acontecimentos.
    Outros, os mais novos, nem os conheciam, Rodrigo.
    Para quem cresceu a ver a Académica (ia ver os jogos, desde miúdo, e conheci muitos daqueles jogadores que ali estão referidos, com o meu pai, o meu padrinho e o tio Fernando) são acontecimentos que não se esquecem.
    Até porque, nessa época, aquilo que são as tradições de Coimbra (as baladas quando a equipa entrava em campo; as capas e batinas, estendidas no chão de cada vez que entrava um novo jogador no clube, que tinha que passar pelo "túnel" de jogadores, calcando as capas e levando uns biqueiros e uns calduços) também despareceram.
    A capa que, na final em 1969, tinha sido usada traçada, em sinal de protesto e de luto, como é que podia ser um símbolo burguês e colaboracionista?
    Felizmente, já tudo isso passou.
    E a Briosa voltou.
    Em força!!!
    Aquele abraço

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  3. Caro amigo,

    nunca imaginei a AAC associada à burguesia mas, vá, a "bebedeira revolucionária" deu para muita coisa (má) que se fez neste País. É bom, muito bom, que partilhe connosco estas histórias que fazem parte da História de Portugal.

    Abraço, caro Pedro!

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  4. Aconteceu, Ricardo.
    O meu pai prometeu naquela época que não voltava ao futebol.
    E foi até hoje.
    Para muita pena minha porque, com ele, até conheci alguns craques ali junto aos balneários que ficavam do lado direito da entrada para a Bancada Central.
    Lembro-me, entre outros, de dois Senhores do Benfica - Toni, o "Expresso da Anadia" e Humberto Coelho.

    Aquele abraço

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  5. Parece que todos nós somos um bocadinho da Académica, amigo. Um clube simpático... e por sinal o mais antigo clube português. Por lá passaram várias glórias benfiquistas.
    Lembro-me bem do José Belo. Um dos filhos dele, o João, foi colega do meu irmão. É um indefectível benfiquista.

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  6. FireHead,
    A Académica é um clube simpático e uma escola de valores.
    Muitos jogadores foram ali formados, como jogadores, como homens, inclusivamente a nível académico.
    E depois saíram para grandes clubes.
    Essa foi uma das razões para mais me revoltar, e o meu pai ainda mais, com esta tolice do Académico.

    O José Belo, que vi jogar muitas vezes, foi um excelente director do Trabalho e Emprego.
    Aqui entre nós, como defesa central não era grande coisa.

    Da malta que foi de Coimbra para o Benfica há um que admiro especialmente - o Toni, o "Expresso da Anadia".
    Bom jogador, bom homem, um coração enorme.
    Mas há muitos mais que passaram por Coimbra e pelo Benfica.
    Artur, Artur Jorge, Mário Wilson.....gente boa, FireHead, gente boa.

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  7. Sou de Coimbra e também não vejo a razão para associar a Académica à burguesia, sendo as entendi (tanto o clube como a universidade)como estando associadas à oposição ao Estado Novo, exemplos disso foram as faixas usadas no jogo de 1969, a crise académica de 1969 de que faz parte a inauguração do Departamento de Matemática na qual o socialista Alberto Martins pediu a palavra ao presidente Américo Tomás e o luto académico com greve às aulas.

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  8. A Académica não será o que foi noutros tempos, é certo, mas ficou alguma mística em relação à equipa dos estudantes e é bom que permaneça assim.

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  9. dvr,
    Desde logo, um abraço a um conterrâneo!!!
    Associar a Académica à burguesia e ao Estado Novo foi uma parvoíce.
    Naqueles tempos conturbados deu para estes disparates.
    Aponta, e muito bem, exemplos que comprovam precisamente o contrário.
    Quero ir visitar o seu espaço na bloga.
    Agora deixo-lhe um abraço e o inevitável grito - BRIOOOOOOSA!!!!


    Carlos,
    É impossível voltar aos tempos em que os jogadores ficavam em Coimbra até terminarem a sua formação académica antes de saírem para outros clubes.
    Mas essa mística de que o Carlos fala, e essa ligação à Universidade (vagas especialmente destinadas a jogadores na Universidade para quem queira estudar, com a obrigação de permanecer x anos no clube, por exemplo) é bom que se mantenham.

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  10. dvr,
    Não me é possível aceder ao seu espaço no Blogger.

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  11. Não tenho espaço no blogger, aparece perfil mas apenas porque comento conectado através do google, assim evito que alguém comente com o mesmo nome. Antigamente comentava sem estar conectado (apenas com nome, não dava para clicar nele), mas como anda aí muita gente usurpadora de identidades decidi comentar através do google (se clicar vai dar ao perfil mas está vazio). Vim parar ao seu blogue a partir do blogue do Firehead.
    BRIOOOOOOOOOOSA! ;)

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  12. Foi realmente um período inexplicável, por todos os actos, inclusive a suspensão da "Queima-das-Fitas".
    Não sei quem foram os responsáveis, nem importa agora sabê-lo, o que interessa é que Coimbra será sempre Briosa, pelo desporto, pela Universidade, pela história e pelos seus habitantes e simpatizantes.
    BRIOOOOOOOOOOSA!

    PS:o meu tio levou um tiro numa manifestação estudantil na Praça da República em 69. E não foi por conformismo com o regime!

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