16 de janeiro de 2014

Os velhos: não é possível exterminá-los?



Eu gostaria muito de escrever artigos racionais, ponderados, que merecessem uma aura académica e sensata, que unissem em vez de dividir, que me permitissem ter a minha quota de lugares, prémios e prebendas, mas estou condenado, nestes tempos, a escrever cada vez mais panfletos. Acontece. Isto do imperativo categórico, como Kant sabia, é uma maçada.
Isso deve-se ao facto de não querer ter nenhuma falinha mansa, daquelas que enchem o balofo da nossa política de mútuos cumprimentos e salamaleques, com gente que se mostra impiedosa por indiferença, hostil com os fracos que estão do lado errado da “economia”, subserviente com os fortes, capaz de usar todos os argumentos para dividir, se daí vier alguma pequena folga para as suas costas.
Tenho dito e vou repetir: a herança que estes dois anos de “Governo” Passos Coelho-Portas-troika vai deixar ultrapassará muito o seu tempo de vida como governantes. Se não for antes, em 2015, passarão à história como um epifenómeno dos tempos da crise e sobreviverão incrustados nos partidos de onde lhes vem o poder, como um fungo que não se consegue limpar. Vão continuar a estragar muita coisa, mas a própria lógica de onde vieram os substituirá por outros mais ou menos maus. A maldição portuguesa é esta. Aquilo que mais precisamos, não temos.
Mas, mesmo que desapareçam como as figuras menores que realmente são, vão deixar estragos muito profundos no tecido já de si muito frágil da nossa vida colectiva, cavando fundo divisões e conflitos, destruindo o pouco de humanidade social que algum bem-estar tinha permitido. Eles estão, como as tropas romanas, a fazer no seu Cartago, infelizmente no nosso Portugal, o terreno salgado e estéril. Pode-se-lhes perdoar tudo, os erros de política, a incompetência, o amiguismo, uma parte da corrupção dos grandes e dos médios, menos isto, este salgar da terra que pisamos, apenas para obter uns ganhos pequeninos no presente e com o custo de enormes estragos no futuro.
Um exemplo avulta nos últimos dias, que já vem de trás, mas que ganha uma nova dimensão: o ataque aos velhos por serem velhos, uma irritação com o facto de haver tanta gente que permanece como um ónus para o erário público apesar de já não ser “produtiva”, de não ter saída no “mercado do trabalho”, de estar “gasta”. De ministros que não leram Camões e nem sequer sabem quem são os “velhos do Restelo”, a gente que pulula nesse novo contínuo dos partidos e do Estado que são os blogues, a umas agências de comunicação que são as Tecnoforma dos dias de hoje, boys e empregados de todos os poderes para fazerem na Internet e nos jornais o sale boulot, todos, de uma maneira ou de outra, atacam os velhos, por serem velhos. Numa sociedade envelhecida, isso significa atacar a maioria dos portugueses, em nome de uma ideia de juventude “empreendedora”, capaz de fazer uma empresa do nada só com “ideias”, “inovação” e design, sem os vícios do “passado”, capaz de singrar na vida sem “direitos adquiridos”, nem solidariedade social, imagem que tem o pequeno problema de ser tão mitológica como a Fada dos Dentinhos.
Grande parte do ataque a Mário Soares e a muitos que estiveram na Aula Magna foi feito em nome de eles serem “velhos”, logo senis. Nem sequer é por implicação, é dito com clareza, com o mesmo tipo de “argumentos” com que os soviéticos enviavam os dissidentes para os asilos psiquiátricos porque quem estivesse no uso normal das suas faculdades não podia deixar de ser comunista. Aqui é o mesmo: só pode ser senil quem duvidar da bondade das medidas do Governo, apresentadas como sendo a realidade pura, inescapável, inevitável. Como pode estar bom da cabeça quem coloca em causa a versão em “economês” da lei da gravidade? Só um louco. E se for velho, é-se senil, ultrapassado, antiquado, mesquinho, por definição. Não há outra maneira de explicar que haja velhos com tantas ideias “erradas” sobre a bondade do nosso “ajustamento” e que sejam empecilhos para os “jovens” brilhantes que o aplicam com vigor e sem vergonha.
Muito do discurso contra os velhos, que começa, em bom rigor, cada vez mais cedo, quando se perde o emprego e se fica “gasto” para o mercado de trabalho, é um discurso que pretende ser utilitário no plano político, e é isso que o torna moralmente desprezível. Destina-se a justificar o violento ataque a reformas e pensões, a gente que trabalhou a vida toda, e que ainda tem memória do que custou obter esses malfadados “direitos”, resultado de “contratos” de “confiança” com o estado, tudo coisas de velhos que estão a “roubar” aos mais novos do seu futuro. Estão a mais. E se eles não percebem que estão a mais a gente vai mostrar-lhes pelo vilipêndio e pelo saque que já há muito deveriam ter desaparecido.
Muita coisa tem hoje a ver com esta demonização da idade. Um caso entre muitos, é o que se está a passar com o despedimento colectivo dos trabalhadores dos Estaleiros de Viana do Castelo. Nem sequer discuto se a empresa tinha que encerrar ou não, porque a partir de um certo nível de dolo e degradação da linguagem esse não é o primeiro problema. Podia ser, mas com esta gente não é, porque, ao fazerem as coisas como fazem, sempre obcecados em enganar-nos, merecem que contra eles se volte tudo, o discurso empolgado dos “navegadores” e a retórica do “mar”, ao mesmo tempo que se fecha o único estaleiro que sobrava, a disparidade de não querer pagar 180 milhões de euros, enquanto se aumenta a taxa para a RTP, que recebe todos os anos muito mais do que isso, a displicência com que se apresenta como grande vitória, mais de 600 despedimentos.
Acresce a soma de mentiras habituais: que 400 trabalhadores vão ser reintegrados (afinal não há nenhuma garantia), que vão ser pagas as devidas indemnizações (afinal parece que só a parte deles), que vai continuar a construção naval (quando não custa perceber que o que a Martifer vai fazer não são navios). O que vai acontecer é um enorme despedimento colectivo feito pelo Estado, o encerramento dos estaleiros à construção naval, o preço de saldo para a Martifer após o Estado, como no BPN, pagar todos os custos. E, na vaguíssima hipótese de alguns trabalhadores serem empregados na nova empresa, serão sempre poucos, com salários mais baixos, com uma folha de antiguidade a zero, e ficarão de fora os mais velhos e os mais reivindicativos. Alguém vai contratar um membro da comissão de trabalhadores, mesmo que seja um excelente soldador? Como muita da mão-de-obra dos estaleiros já tem uma certa idade – os velhos começam a ser velhos aos quarenta –, está-se mesmo a ver a sua “empregabilidade”.
Não custa fazer o discurso politicamente correcto de que a “esquerda não tem o monopólio da sensibilidade social” (e não tem), nem dizer aqueles rodriguinhos do costume do género “que bem sabemos como os portugueses estão a sofrer”, ou que “nenhum Governo gosta de tomar estas medidas”, ou elogiar os portugueses pelo seu papel “decisivo” no sucesso da aplicação do “ajustamento”, etc., etc. Na verdade, estou farto de exibições de confrangimento público e exercícios de “preocupação social”, já não posso ver a hipocrisia de Passos Coelho e de Aguiar Branco, ao lado do exibicionismo pavoneado dos soundbites de Portas.
Swift escreveu em 1729 uma sátira sobre a pobreza na Irlanda chamada Uma modesta proposta para evitar que as crianças dos pobres irlandeses sejam um fardo para os seus pais e o seu país e para as tornar um benefício público. Aconselhava os pobres a comerem os filhos, como meio de combater a fome, “grelhados, fritos, cozidos, guisados ou fervidos”. Na verdade, quando se assiste a este ataque à condição de se ser mais velho – um aborrecimento porque exige pagar reformas e pensões, faz uma pressão indevida sobre o sistema nacional de saúde, e, ainda por cima, protestam e são irreverentes –, podia avançar-se para uma solução mais simples. Para além de os insultar, de lhes retirar rendimentos, de lhes dificultar tudo, desde a obrigação de andar de repartição em repartição em filas para obter papéis que lhes permitam evitar pagar rendas de casa exorbitantes, até ao preço dos medicamentos, para além de lhes estarem a dizer todos os dias que ocupam um espaço indevido nesta sociedade, impedindo os mais jovens de singrarem na maravilhosa economia dos “empreendedores” e da “inovação”, será que não seria possível ir um pouco mais longe e “ajustá-los”, ou seja, exterminá-los?
José Pacheco Pereira
Historiador

23 comentários:

  1. Para ser muito franca, nunca pensei ouvir este senhor dizer tantas verdades.

    Quando as críticas vêm dos seniores mais qualificados da coligação, justifica-se manter este governo a bem da estabilidade?
    Crise governamental ou a destruição completa do Estado de Previdência, do Estado Social?
    Convido a ler o excelente artigo de Bagão Felix, também do Público Opinião:

    http://www.publico.pt/opiniao/jornal/a-grosseira-inconstitucionalidade-da-tributacao-sobre-pensoes-25658836

    Tem um ótimo dia. Beijinho.

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    1. Pacheco Pereira sempre foi um enfant terrible dentro do PSD.
      Agora ainda o é mais.
      Porque não gosta nada da rapaziada que tomou conta do partido e não lhe liga nada.
      Beijinho

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  2. José Pacheco Pereira guarda, ainda, umas quantas na manga.
    Fiquemos atentos.

    Abraço

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    1. António,
      Lembra-se de um programa na SIC (já há uns aninhos) conduzido pelo Miguel Sousa Tavares, com o Pacheco Pereira e o António Barreto como comentadores permanentes (havia sempre um convidado)?
      Gente com cultura, com Mundo, de espírito independente.
      Dava gozo ver.

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  3. Uma voz que incomoda e alinho no pensamento do Observador!

    Beijocas

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    1. Espíritos independentes incomodam, Fatyly.
      Não era isso o que dizia o outro Coelho, o Jorge?
      Beijocas

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  4. Bem, este senhor tem de ser sempre do contra, SEMPRE. Vive azedo, mas ........ a História NUNCA se repete.

    Crónica muito bem escrita, morfológica e sintaticamente, e com factos "verídicos" (quem faz a História são os Homens, portanto, o que é para mim, pode não ser para o Pedro) descritos, mas o resto é conjetura na conjuntura, "palha", como vulgarmente se diz.

    Ai, Parkinson e Alzheimer..... como vocês "nos" agridem!

    Beijo da Luz, que não é ILUMINADA, mas é normal, até agora.

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    1. Luz,
      Atenção que Pacheco Pereira não está apenas desalinhado.
      Há que saber dar o devido desconto à parte do ressabiado.
      Que também lá está
      Beijo

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    2. Já fez muitas rodagens, "virou muitos frangos", não é, Pedro?
      Preferia que tivesse fama de já ter "virado muitas frangas". Ficava-lhe melhor, mas, "túmulo".

      Não suporto oportunismo. Este e o Prof. Marcelo de Sousa estão quase iguais, só que a forma como a acutilância é gerida e atirada, é diferente. O Marcelo adora mimos, sorrisos, conversa (patati papatá) troca de prendas, "coisinhas" para os netos, enfim... , mas em televisão, isso não deveria acontecer/ver-se.
      Os tiques do Professor estão a acentuar-se e isso está a "preocupar-me".

      A censura saudável faz falta em determinadas situações e circunstâncias.

      Dia/noite feliz.

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    3. Marcelo ainda alimenta o sonho de vir a ser PR, Luz.
      Faz comentário e campanha ao mesmo tempo.

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  5. Estes tipos enojam-me. Da mesma forma que me "dana" o pessoal que não sai do papel para agir. Este senhor que muito bem escreveu (diria que subscrevo na íntegra)...mas que faz ele para que algo mude?

    que desalento viver neste clima, nesta desgovernação... que desalento conviver com uma sociedade que só se acha de direitos e nada de deveres...

    Desculpe este meu desabafo Pedro...mas ando tão cheia deste nada a que nos habituaram, que ler este texto fez "verter" o que me enche..

    A propósito, conhece: http://pmcruz.com/eco/

    Um grande abraço*

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    1. Feliz,
      Se acompanhar o percurso político de Pacheco Pereira poderá encontrar algumas incoerências e uma parte da explicação para tanta indignação (foi metido na prateleira)
      Já que estamos em maré de ditados populares diria que "quem não os conhecer que os compre"

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  6. Ainda bem que no meio desta maralha desmiolada e pervertida, ainda se encontram alguma vozes conscientes da actual situação politica que vivemos. Um mentira repetida muitas vezes não se torna verdade. Nem que amanhã chovam calhaus. Diga-se a verdade e nada mais é preciso. Bastavam-nos destes em maior numero e talvez os fungos conseguissem ser de vez erradicados.

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    1. A voz de Pacheco Pereira sempre foi incómoda
      Mesmo quando, como é o caso, por trás da indignação, outros motivos menos altruístas se escondem, Raquel M.

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  7. Assino por baixo tudo quanto diz Pacheco!!!

    Só discordo numa coisa: o Viagra desceu substancialmente de preço, pelo que o objectivo é que os velhos morram rapidamente , mas felizes...

    Abraços, Pedro

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    1. Como cantava a formiga depois de uma noite de amor com o elefante, São - sofri mas fui feliz :)))
      Abraços

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  8. Caro Amigo Pedro Coimbra!
    Pelo que entendi este político luso é "uma pedra no sapato" para o partido que pertence.
    Caloroso abraço! Saudações incômodas!
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento

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  9. Caro Amigo Pedro Coimbra!
    Pelo que entendi este político luso é a "pedra no sapato" para o partido que está filiado.
    Caloroso abraço! Saudações incômodas!
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um aer vivente em busca do conhecimebto

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    1. Às vezes é um grande calhau, Amigo João Paulo de Oliveira.
      Ultimamente é isso que lê tem sido.
      E em muitos sapatos.
      Grande abraço!

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  10. Não li o texto todo, mas imagino o que diz Pacheco Pereira, fala conforme o jeito que lhe dá, ele e outros, a ele e a outros...é tão fácil dizer o que os alguns querem ouvir, juntar-se aos do contra para ficar bem na fotografia...pena que quando podem nada façam para mudar o rumo das coisas.

    Até pode estar certo o que ele diz agora, mas já disse tantas coisas...

    Beijinho Pedro :)

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    1. A prima do Solnado, a Serafina, que gostava muito de dizer coisas, maria
      Beijinho

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  11. Ainda há Homens com verticalidade suficiente para dizerem umas (muitas) verdades. Pena é que sejam uma excepção.
    Abraço.

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    1. Mesmo que, como é o caso do Pacheco Pereira, haja uma vingança política à mistura, GL

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