8 de janeiro de 2014

MENSAGEM DO PAPA SOBRE A PAZ (Frei Bento Domingues, O. P.)



1. Entre os mais idosos, alguns talvez ainda tenham gosto em se lembrar e outros, vontade de esquecer que no dia 8 de Dezembro de 1967 foi criado, pelo papa Paulo VI, o Dia Mundial da Paz. Ficou decidido, no entanto, que seria celebrado, daí em diante, no primeiro dia do ano civil. Assim continua, embora as Nações Unidas tenham marcado, em 1981, o Dia Internacional da Paz para o dia 21 de Setembro. Não se sobrepõem. 
Em Portugal, a decisão de Paulo VI teve um impacto significativo durante a guerra colonial, porque se inscreveu nos ecos do Vaticano II e da Pacem in Terris de João XXIII, que tinham alargado, aprofundado e provocado iniciativas de oposição católica ao Estado Novo. Destacamos: no Porto, suscitou a criação da comissão diocesana de Justiça e Paz, com múltiplas intervenções; em Lisboa, as vigílias na Igreja de S. Domingos, em 1969, e na Capela do Rato, de 1972 para 1973, tornaram-se marcos históricos pela ressonância conseguida. A vigília da Capela do Rato provocou a intervenção da Pide, várias prisões e aceso confronto, na Assembleia Nacional, entre os deputados Miller Guerra e Francisco Casal Ribeiro.
As mensagens anuais constituem peças importantes da posição dos papas perante as questões da guerra e da paz. Ao se tornarem um ritual, o seu verdadeiro impacto depende, apenas, do que as Igrejas locais fizeram desses notáveis documentos.
2. Que irá acontecer com a mensagem do Papa Francisco, “A Fraternidade, fundamento e caminho da Paz”?
Da trilogia da Revolução Francesa, “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, a última foi sempre a mais esquecida. Nas Igrejas Cristãs, todos são filhos de Deus, mas raramente os reconhecemos como nossos irmãos.
Qual é então a situação da população mundial?
Os números são conhecidos: 1% da população mundial concentra 43% da riqueza, enquanto 50% fica apenas com 2%. Neste mundo há 871 milhões de pessoas com fome; mais de 1.000 milhões encontram-se na indigência e cerca de 3.000 milhões na pobreza. Neste mundo, 900 milhões não têm água potável, 1.000 milhões não têm acesso à luz eléctrica e 2.160 milhões não possuem instalações sanitárias.
Já estamos tão habituados à linguagem dos números, a propósito de tudo e de nada, que em vez de nos aproximarem da realidade vivida, afastam-na. O Papa Francisco podia recitar todos estes números e dizer, com verdade, estes são todos membros da nossa família. Ele sabe que por aí não iria longe. Também não parece muito interessado em juntar textos doutrinários aos dos outros Papas e engrossar as bibliotecas piedosas. Passaram nove meses sobre a sua eleição. Não foi a eleição de Sua Santidade, mas a de um pecador em processo de conversão, chamando os cardeais, os bispos, os padres a essa condição para poderem servir e dinamizar as comunidades cristãs. Não ficou por aí. Escolheu o caminho do exemplo, mas não para dar exemplo. Se espantou o mundo com os seus gestos, foi por causa da sua autenticidade, sem recurso ao marketing religioso. De repente, vimos o Papa como imaginamos que terá sido Jesus Cristo, há dois mil anos. Desde a quinta-feira santa, o seu caminho tem sido o encontro com a periferia do mundo, o lugar da Igreja.
Para uns, isto é uma alegria, um convite a fazer o mesmo. Para outros, é uma descoberta. Não falta quem veja no método do Papa Francisco, uma crítica ao caminho que se estava a percorrer, semeado de escândalos. Claro que é o começo de uma reforma urgente, mas que ele não quer apenas propor, mas praticar na sua pessoa, nas suas decisões, da forma mais fraterna e mais alegre com aquelas e aqueles que ninguém escolheria para irmãos.
3. O Papa, pela ordem natural das coisas, tem muito pouco tempo para realizar o que lhe parece mais urgente. O mais urgente é ajudar o conjunto da Igreja a rectificar a sua orientação, a inclinar-se para o lado certo. Não é a substituição da Igreja pelo Papa. É fazer com que os papas, os bispos, os cardeais, os padres tenham uma prática de dinamizadores e não substitutos dos membros da Igreja: tornarmo-nos no que somos, todos irmãos (Mt 23, 8-9), a viver e a trabalhar, na sociedade e na igreja, como num bem de família.
Que se saiba, o mundo não está para acabar já. O Papa Francisco ainda vai deixar muito por fazer. Mas, pela sua maneira de ser e actuar, já começou o mais importante: não é fatal que a igreja e o mundo tenham de continuar a ser como até aqui.
Bergoglio criou um problema que não sei como o irá resolver: não se cansa de denunciar a economia que mata. Que poderá ele fazer para que nas instituições universitárias católicas, o ensino no campo da economia, da finança, da gestão, da política não só denuncie e recuse qualquer tipo de participação nesse homicídio, mas sobretudo, que poderá ele fazer para que os professores e alunos dessas instituições investiguem e façam propostas que sirvam a fraternidade como fundamento e caminho da paz?
De qualquer modo, Bergoglio não é o primeiro a andar em contramão. Foi precedido por boa companhia. Os fariseus, amigos do dinheiro, ouviam Jesus dizer que não se pode servir a Deus e ao Dinheiro e zombavam dele (Lc 16, 13-15).
Temos pela frente um novo ano e muitos desafios na Igreja e na Sociedade. 

8 comentários:

  1. Pouca gente homenageou o Dia Mundial da Paz, pelo que, ainda considero oportuno recordá-lo neste artigo assinado por uma pessoa que considero inteligente.
    Estamos a viver dias muito difíceis, com as famílias a ficarem destroçadas pela emigração, com as classes mais desfavorecidas em situação de extrema debilidade, um Portugal irreconhecível. Na minha cidade, fecharam inúmeras casas comerciais, muitas de referência, o que despersonalizou a cidade, roubando~lhe brilho e alegria.

    Tudo está triste e o sentimento de fraternidade entre todos é urgente.

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    1. Majo,
      Francisco é, hoje em dia, a grande referência num Mundo em convulsão.
      As mensagens que transmite, e das quis é exemplo vivo, são tremendas.
      A referência a uma economia que mata (mata-se o doente com a suposta cura) é terrível.
      Repito o que já anteriormente aqui escrevi - o Mundo, e a Igreja, precisavam urgentemente de Francisco.
      Olhemos para ele e para o seu exemplo com toda a atenção.

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  2. O maior e o melhor bem - A PAZ.
    Algumas vezes damos mais valor às coisas quando elas nos faltam.
    Todos, todos precisamos de PAZ e sem ela é impossível viver.
    Todos os dias devíamos construir mais um pouco de paz - dentro de nós e fora de nós, na nossa família e na sociedade actual.
    Aprendamos a PAZ

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    1. Algo que Francisco personifica e transmite, luis.
      Tenho uma admiração excepcional por este Papa.
      Um ser humano fascinante

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  3. Francisco tem um seguro de vida: o assassinato de João Paulo I.

    E tem vários problemas , sendo um deles a OPUS DEI, tão protegida por João Paulo II que Escrivá ( nobilizado por Franco em agradecimento pela sua fiel e estreita colaboração com a ditadura que impôs em Espanha) foi santificado em tempo relâmpago.

    O outro é aquele que frei Bento aqui tão bem aponta: aquilo que é ensinado nas Universidades Católicas...e estou-me a lembrar da portuguesa, onde ensina essa criatura chamada João César das Neves!

    Tenha óptimo dia, Pedro, e que DEus ilumine quem detém o Poder e proteja os indefesos!!

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    1. Francisco está a revelar-se um caso bicudo para a Igreja Católica, São.
      Porque está a romper com todos vícios que a Igreja foi acumulando e que a iam fazendo definhar.
      É, sem sombra de dúvida, e a grande distância, a personalidade que mais admiro na actualidade
      Tenha um óptimo dia também, São

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    2. Sou crente, como sabe.

      Os três Papas que me tocaram fundo são três: João XXIII(será canonizado agora),João Paulo I (cuja determinação de limpar a Igreja Católica de todos os erros lhe custou a vida) e Francisco( que , espero, prossiga neste excelente caminho).

      Obrigada, mas o dia está escuro...

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    3. Acrescentaria João Paulo II, São.
      Também ele trouxe mensagens fortes à Igreja.
      Mas, em boa verdade, falhou em muitos domínios.
      Ainda assim, foi uma figura extraordinária no século XX

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