11 de janeiro de 2017

Fui ao gourmet e tramei-me! (do Blog NCultura)


Sou um tipo moderno. E chique. Muito chique. Por isso não podia deixar de entrar num restaurante gourmet da moda. Vesti um Armani que comprei num saldo dos chineses, calcei umas sapatilhas com uma vírgula estampada que regateei ao ciganito da feira e esvaziei, pelo pescoço abaixo, meio frasco de Chanel dos marroquinos.

E foi assim, cheio de cagança, como mandam as regras do pelintra luso, que fui jantar ao tal restaurante, gerido por um “chef” reputado com categoria internacional e olímpica. 

Tramei-me! Antes tivesse ido ao tasco da esquina aviar uma bifana! Confesso que já levei muita tanga, mas como esta, nunca! Passei fome, fui gozado e fui roubado! 

Sempre achei que cozinhar era um acto de descontracção, de partilha, de alegria, de afecto. E eu devia desconfiar, porque aqueles concursos gastronómicos das TVs transformaram uma actividade social sadia, numa agressão stressante, provocadora de lágrimas e depressões. Já para não falar das parvoíces dos mestres cozinheiros da moda, cujos pratos estapafúrdios e minimalistas se apelidam agora de “criatividade culinária”. 

Colocaram-me um prato à frente que foi mais difícil de decifrar que as palavras cruzadas do JN ao domingo. Um prato que exibia 5 cm2 de um pobre robalo que pereceu inutilmente só para lhe extraírem um pedacito do cachaço, meia batata engalanada com um pé de salsa, e 2 ervilhas a nadarem numa colher de chá de um azeitado molho de escabeche, bem disfarçado com um nome afrancesado que nem vem nos dicionários. Para remate, três riscos de uma substância pastosa, estilo Miró, para preencher os restantes 90% do prato vazio. 

E o bruto do português, habituado à sua travessa de cozido e ao panelão de feijoada, olha para aquilo com uma cara de parvo capaz de partir todos os espelhos lá de casa. 

Esboça-se um sorriso amarelo, engole-se em seco, diz-se que está tudo óptimo ao empregado de mesa que mais parece uma melga à nossa volta, e enfiam-se dois Xanaxs quando nos metem a conta à frente. E, a muito custo, cala-se o berro de duas peixeiradas à nortenha que nos vai na alma. 

Nunca mais lá volto. E sabem que mais? 

Porque se quero comer aperitivos, como bolinhos de bacalhau e tremoços, que são muito mais saudáveis e baratos. 
Porque para ver pintura abstracta, vou a uma exposição. 
Porque detesto jantar uma comida onde toda a gente meteu as mãos. 
Porque para ser roubado bastava ir à Autoridade Tributária, vulgo Finanças. 
E, acima de tudo, porque desconfio de um cozinheiro que vive e trabalha com a ambição obsessiva de ser medalhado por "uma companhia de pneus".

10 comentários:

  1. Já me ri...Gourmet é muito bonito, mas também prefiro uma bela sopa de feijão ao jeito do campo. :)

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    1. Às vezes sabe bem ir ao gourmet, luisa.
      Outras ficamos com a sensação que estiveram a gozar connosco e que nos roubaram indecentemente.

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  2. Belo texto que já me fez rir. :))
    A comida gourmet pode ser uma cilada para o palato e bolso de qualquer fulano «cheio de cagança, como mandam as regras do pelintra luso». ehehehe
    Vou anotar o nome do blog, Pedro. Farei melhor: irei procurar ali, na sua lista de blogues. Deve ser um lugar de boa disposição, também. :)

    Beijinhos

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    1. Eu não sigo este blogue, Janita.
      O texto foi-me enviado por pessoa amiga e achei piada porque realmente reflecte muito bem o que se chama pomposamente cozinha gourmet, comida de autor.
      Algo que muitas vezes não passa de uma coisa sem sentido, disparatada e que nos faz sentir esfomeados e roubados.
      Beijinhos

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  3. Já conhecia o texto, que tem muito de verdade.
    Apesar de gostar de ver o Master Chef Australia, eu adoro comida bem à portuguesa.
    Não sou fã de ver o prato cheio de comida, tipo para encher brutamontes, mas gosto de apreciá-lo na medida certa e depois, se quero mais, sirvo-me.

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    1. Maria Araújo,
      Não sou nada apreciador do género enfarta brutos :))
      Gosto de um bom restaurante, boa comida, bom ambiente, uma boa experiência em toda a plenitude.
      Se não for para isso prefiro fazer, como faço praticamente todos os dias, as refeições em casa.
      Nos finais de semana gosto de sair com a minha mulher e as minhas filhas, jantar num local aprazível.
      E variar.
      Hoje cozinha portuguesa, para semana chinesa, depois italiana (adoro!), francesa (adoro!), japonesa (nunca cansa), tailandesa,...
      Assim é que faz sentido para mim.
      Se não for para isto uma sanduíche em casa é o suficiente para mim.

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  4. Nem 8, nem 80...
    Neste caso, nem -8 nem 800!

    (quantidade de «comida» versus preço da mesma)

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    1. Há excepções, Portuguesinha.
      Conheço algumaspor aqui.
      Boa comida, bom preço.
      Mas são mesmo excepções.

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  5. Ai, eu não sou um grande garfo, mas realmente não compreendo estas cozinhas modernas... Faz-me imensa confusão demorar horas a preparar um parto, usando utensílios que parecem tirados de um laboratório de química, para resultar em 200 gr de comida artisticamente dispostos num prato gigante e que se comem em 40 segundos...

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    1. Descreveu na perfeição o que é muito da chamada cozinha gourmet ou cozinha de autor, Briseis.
      Na mouche!! :))

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