7 de junho de 2016

A resistência a Francisco (Anselmo Borges)


1. Algo mudou quanto à possibilidade da comunhão para os divorciados recasados? De regresso de Lesbos, Francisco foi claro: "Eu posso dizer: sim. Ponto." Quem tivesse dúvidas quanto a mudanças nesta e noutras questões teria, na oposição de muitos da alta hierarquia, a prova de que elas são reais.

De modo frontal, o cardeal G. L. Müller, prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, veio corrigir Francisco, dizendo que os divorciados recasados não podem, em caso algum, aproximar-se da comunhão e o máximo a que podem aspirar, depois da confissão, é viverem "em castidade total, como irmãos". Uma vez que o famoso teólogo Hans Küng tinha revelado, num artigo, que o Papa se lhe dirigira pessoalmente como "lieber Mitbruder" (querido irmão), manifestando abertura a um debate livre na Igreja sobre o dogma da infalibilidade, Müller assegurou que é um herege, que "não crê na divindade de Cristo nem na Trindade". Numa entrevista ao Achener Zeitung, o cardeal W. Kasper, que está com Francisco e que foi quem o convenceu a receber o Prémio Carlos Magno, atribuído por "ser a voz da consciência de Europa", declarou que "a enorme maioria das pessoas até para lá da Igreja Católica está fascinada com este Papa. Na Cúria, também há oposição resistente". Porquê? "Ele dá uma reviravolta a muitas coisas. Está sobretudo empenhado na mentalidade. Só se esta mudar é que virão as reformas nas estruturas. Isso precisa de tempo. Francisco trabalha nisso. A Cúria é uma instituição antiga, onde se cultiva carreiras e hábitos."

O teólogo A. Torres Queiruga, depois de descrever o "carácter democrático e o coração evangélico" e "a honestidade do quase impossível equilíbrio" da Exortação A Alegria do Amor, reconhece que "nunca um Papa teve tão aberta oposição na história dos pontificados". Como escreveu outro teólogo, Xabier Pikaza, "estamos a assistir a um assalto orquestrado por cardeais da Cúria e outras vozes que começaram a dizer coisas como estas: que este Papa não sabe teologia (sabe o Evangelho!), que está a romper com a Lei Natural (a que eles crêem da sua natureza!), que está a destruir a Igreja, de modo que há que esperar que morra... Este é um assalto que provém da lei do medo, própria daqueles que não acreditam de verdade no evangelho da conversão, da forma nova de pensar e agir de Jesus. Um assalto dos que têm medo da sua própria liberdade, da sua responsabilidade pessoal. Para libertar-se do seu medo (sem conseguir), impõem duras obrigações legais aos outros, cargas que eles próprios são incapazes de carregar. Temendo eles, os "controladores da Igreja", perder a sua função, ficando na rua, procuram a lei do "curral" fechado, controlado, pois temem que os cristãos sejam livres e "explorem de verdade a vida segundo o Evangelho".

2.Francisco acaba de declarar que instituirá uma comissão para estudar a possibilidade de ordenar mulheres como diaconisas. O cardeal W. Kasper já veio prevenir que muitos se oporão: "Creio que agora se abrirá uma discussão feroz. Sobre este tema a Igreja está dividida entre os que pensam que o diaconado permanente feminino é um regresso à Igreja primitiva e os que crêem que é um primeiro passo para as mulheres sacerdotes e que, por isso, não pode ser possível."

Quem se opõe deveria, porém, conhecer, por exemplo, a tese de Karl Rahner, talvez o maior teólogo católico do século XX: "Sou católico romano e, se a Igreja me disser que não ordena mulheres, aceito-o por fidelidade. Mas, se me der cinco razões e todas elas são falsas, face à exegese e à teologia, tenho de protestar. Penso que o Magistério que apela para essas razões falsas não acredita no que diz ou não sabe ou mente ou estas coisas todas juntas. Além disso, a Igreja é infalível em questões de fé e moral, e o tema da ordenação das mulheres não é de fé nem de costumes, mas de administração."

Nesta questão, penso que há um argumento decisivo: Deus não pode ser contra os direitos humanos, opondo-se à igualdade das mulheres.

3. Disse, com razão, o teólogo checo Tomás Halík, um dos mais influentes na actualidade, que fala da fé como "a coragem para entrar na nuvem do Mistério": "Estou profundamente convencido de que o Papa Francisco inicia um novo capítulo na história do cristianismo. Teve a coragem de dizer que as tentativas para reduzir o cristianismo à moralidade sexual, à criminalização do aborto e à demonização dos gays e dos preservativos foram uma obsessão neurótica. Todos sabemos que a defesa dos que estão por nascer e da família tradicional é importante, mas esta agenda não deve ofuscar valores ainda mais importantes como o amor misericordioso, o perdão, a justiça social, a solidariedade com os pobres, a responsabilidade ambiental, a paz e o diálogo amigável entre pessoas de culturas, nações, raças e religiões diferentes. O Papa é uma personalidade profundamente espiritual com uma mensagem profética que ultrapassa as fronteiras entre Igrejas e religiões, cristãos e humanistas."

DN 04 DE JUNHO DE 2016

10 comentários:

  1. O padre Anselmo não se fica por meias tintas. E o papa Francisco que se cuide com fariseus debaixo do mesmo tecto.

    abraço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Já se esperava esta resistência à mudança, Agostinho.
      Até porque, para o que são os padrões ancestrais da Igreja, Francisco está am perfeita correria desenfreada.
      Aquele abraço

      Eliminar
  2. Como em tudo e em todos, a alteração e a modificação de mentalidades, acontece mais tarde ou mais cedo, mas acontece sempre, e a Igreja, a k pertenço, Católica, não pode, não podia ser exceção.
    Deus conhece TODOS os corações, portanto o de Francisco também. O julgue, segundo aquilo que profere e preconiza.

    Beijo, Pedro e boa semana.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mudar mentalidades e alterar dogmas na Igreja é muito complicado, CÉU.
      Francisco é corajoso, acredita no que está a fazer.
      E eu acredito nele e admiro-o como a ninguém.
      Beijos, boa semana

      Eliminar
    2. Mas disto aqui não vos fala o "Francisco":

      http://historiamaximus.blogspot.pt/2016/06/a-ditadura-global-em-construcao-ii.html

      O "Francisco" vive rodeado de segurança no Vaticano, mas depois quer encher a Europa de "refugiados" e o contribuinte que pague a factura e arque com as consequências em cima do lombo.

      Eliminar
  3. Mais cedo ou mais tarde, a Igreja ver-se-á obrigada a abdicar de alguns dogmas. A sociedade está em plena mudança e a Igreja não pode continuar a fingir que não vê. O Papa Francisco começa a ser uma pedrinha no sapato de alguns bispos, mas a verdade é que a sua popularidade não pára de crescer junto das pessoas, crentes e não crentes.

    Um beijinho, Pedro

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O problema dos fariseus de que fala o Agostinho é esse, Miss Smile - Francisco é hoje a figura mais popular e mais respeitada à face da Terra.
      As mudanças na Igreja são complicadas, levam muito tempo, exigem muito esforço e paciência.
      O meu receio é o que virá a seguir a Francisco, Miss Smile.
      Beijinhos

      Eliminar
  4. ~~~
    O Papa Francisco luta heroicamente

    contra a bolorenta Cúria...

    Nós torcemos e aplaudimos.

    ~~~Bj~~~~~~~~

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Que Deus lhe continue a dar força e coragem, Majo.
      Um Homem admirável.
      Bjs

      Eliminar
  5. O "papa Francisco" opera as artes do maligno:

    https://espectivas.wordpress.com/2015/05/23/o-papa-francisco-opera-as-artes-do-maligno/

    ResponderEliminar