3 de maio de 2016

O sexo das palavras


Se o ridículo matasse, Portugal estava constantemente pejado de cadáveres. Não bastava a tolice do acordo ortográfico, tolice aliás que o Bloco de Esquerda abraça estoicamente, voltámos agora à mais tola e inútil das cruzadas: a da chamada “linguagem inclusiva”; o contrário da linguagem “sexista” e “discriminatória” onde se diz pais, irmãos, avós, primos, etc. Tudo discriminatório, naturalmente. Ora foi com base em tal pressuposto que, num momento de particular inspiração, o BE propôs que o Cartão de Cidadão passe a chamar-se Cartão de Cidadania. Talvez porque Cartão de Cidadão e Cidadã fosse demasiado comprido. Ricardo Araújo Pereira, no Governo Sombra, já caricaturou devidamente esta paranóia correctiva. Disse ele, imaginando um discurso bloquista: “Portugueses e portuguesas, estamos aqui reunidos e reunidas porque estamos todos e todas preocupados e preocupadas com a questão dos desempregados e desempregadas”. Pois. Mas mesmo assim não chegava. Era preciso nuns casos começar com o masculino e noutros com o feminino, para não ofender ninguém. E havia que olhar inquisitorialmente para outras palavras, muitas, milhares, que enchem livros, dicionários e gramáticas, antros de desigualdades com masculinos e femininos por todo o lado, olhem para criança (e não há o crianço?), para membro do partido (haverá a membra?), para polícia ou guarda (deveria haver o polício e o guardo?)… E então a toponímia? Ah, mas aqui imperam as “mulheres”: vejam a rua, a praça, a avenida, a travessa, a calçada, a estrada, a auto-estrada, enquanto para os “homens” sobra o beco, o largo, o passeio, o boqueirão! Querem mesmo acabar com a linguagem “sexista”? Acabem com o Português. Porque ele, que é língua no feminino e idioma no masculino, está impregnado de sexo por tudo quanto é letra. É que até o Bloco soa no masculino. Deveria ser Bloc@? Ou Bloca?

15 comentários:

  1. E para além disso tudo que disse aí, o Bloco de Esquerda é um partido extremamente anti-democrático:

    http://historiamaximus.blogspot.pt/2016/04/o-conceito-de-democracia-do-bloco-de.html

    Digo por experiência própria, que normalmente os maiores anti-democratas, são precisamente aqueles que passam a vida a falar em democracia...

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    1. João José Horta Nobre,
      O Bloco adora os tais temas fracturantes.
      Que, muitas vezes, e esta é claramente uma delas, se revelam disparates descomunais, idiotice pura.
      Dá para rir um bocado.
      Nada mais que isso.

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  2. Olá Pedro, tal como disse no meu face e no meu blog vou escrever mal(para eles) até ao fim dos meus dias. Levei palmadas para escrever bem e aprendi a lição. Vou escrever como sempre escrevi. Qual a lógica da palavra (facto entre outras) ser escrita da mesma maneira que (fato)? Para mim é inadmissível. Não, nunca, jamais ao acordo ortográfico. Boa semana e beijos com carinho

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    1. rosa-branca,
      Só se for legalmente obrigado a tal adaptarei o acordo ortográfico.
      Voluntariamente, nem por sombras!!
      Beijos

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  3. Piadas do R.A.P. à parte, esta questão está muito bem colocada.
    E em que ficamos? Tenho um blogue ou uma bloga?
    Confesso, Pedro, não ter pachorra para este tipo de situações. Será que a rapaziada (ou o rapaziado?) do Bloco não tem coisas importantes em que pensar?

    Um abraço

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    1. Até irrita, António.
      Tanta coisa para discutir, para resolver, e estes tontos vão lembrar-se desta trampa???
      Vão perguntar aos desempregados o que é que acham da questão de género.
      Não há pachorra!!

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  4. Não tenho pachorra para a idiotice...
    É tolerância zero mesmo!

    Beijinhos com género à tua escolha
    (^^)

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    1. Estamos na mesma onda, Afrodite.
      Para este tipo de peditórios, já dei!!
      Beijinhos (seja qual for o género sabem sempre bem)

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  5. Ora bem, o que há é talento de mais a fracturar. De tal forma que, provavelmente, não haverá talas gessadas em quantidade necessária no país. E, se o engenho de algumas daquelas almas, reconheço-lhes valor, se dedicassem a fazer a redução das fracturas, pernetas e manetas que já existem?

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    1. Essa é a vertente mais irritante da questão, Agostinho - é que nem estamos a falar de gente destituída.
      Bem pelo contrário.
      Gente culta, inteligente, capaz, concorde-se ou não com as ideias e a postura política, e perdem tempo com estas m**das????

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  6. Em inglês, é mais fácil adotar a linguagem que respeita a neutralidade do género. Os canadianos são muito cuidadosos neste aspeto. Usam muitas vezes o plural para evitar o “he” e o “she”, por exemplo, ou “individual”. Há muito que se deixou de utilizar “mankind” ou até “mailman” : )))... apenas para falar nos mais simples...

    Cartão de Cidadania faz todo o sentido. Foi pena não terem pensado nisso na altura; evitariam dispender “pipas” de Euros agora.

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    1. Catarina,
      Nesta altura, com tanto problema para resolver, vamos perder tempo a falar de cartões???
      Dá impressão que esta malta é que fracturou .... o crânio!

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  7. Este é um verdadeiro problema! Veja lá há tanta gente (macho e fêmea) a chamar ao mangalho imagine-se.... piç@ ou piss@!

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