20 de janeiro de 2016

A garrafa de "Mouton Rothschild", safra 1928.



Consta que, certa noite, anos atrás, um homem entrou com a namorada no restaurante Lucas Carton, em Paris, e pediu uma garrafa de "Mouton Rothschild", safra 1928.
O empregado de mesa, em vez de trazer a garrafa para mostrar ao cliente, traz o decante de cristal cheio de vinho e, depois de uma mesura, serve um pouco no cálice para o cliente provar. 
O cliente, lentamente, leva o cálice ao nariz para sentir o aroma,fecha os olhos e cheira o vinho. 
Inesperadamente, franze a testa e, com expressão muito irritada, pousa o copo na mesa, comentando rispidamente: 
- Isto aqui não é um Mouton de 1928! 
O empregado de mesa assegura-lhe que é. O cliente insiste que não é. 
Estabelece-se uma discussão e, rapidamente, cerca de 20 pessoas rodeiam a mesa, incluindo o chefe de mesa e o gerente do hotel, que tentam convencer o intransigente consumidor de que o vinho é mesmo um Mouton de 1928. 
De repente, alguém resolve perguntar-lhe como sabe, com tanta certeza, que aquele vinho não é um Mouton de 1928. 
- O meu nome é Phillippe de Rothschild, diz o cliente modestamente, e fui eu que fiz esse vinho. 
Consternação geral. 
O empregado de mesa então, de cabeça baixa, dá um passo à frente, tosse, pigarreia, bagas de suor escorrem da testa e, por fim, admite que serviu na garrafa de decantação um Clerc Milon de 1928, mas explica seus motivos: 
- Desculpe, mas não consegui suportar a idéia de servir a nossa última garrafa de Mouton 1928. De qualquer forma, a diferença é irrelevante. Afinal, o senhor também é proprietário dos vinhedos de Clerc Milon, que ficam na mesma aldeia do Mouton. O solo é o mesmo, a vindima é feita na mesma época, a poda é a mesma e o esmagamento das uvas se faz na mesma ocasião, o mosto resultante vai para barris absolutamente idênticos. Ambos os vinhos são engarrafados ao mesmo tempo. Pode-se afirmar que os vinhos são iguais, apenas com uma pequeníssima diferença geográfica. 
Rothschild, então, com a discrição que sempre foi a sua marca, puxa o empregado de mesa pelo braço e murmura-lhe ao ouvido: 
- Quando voltar para casa esta noite peça à sua namorada para se despir completamente. Escolha dois orifícios do corpo dela muito próximos um do outro e faça um teste de olfacto. Você perceberá a subtil diferença que pode haver numa pequeníssima distância geográfica. 

In vino veritas

14 comentários:

  1. Conversas de vinho, Pedro.
    Depois da inebriação nasal discutem-se os solos, mais argiloso mais xistoso, mais... Mas há sempre preferências a respeitar... e, o cliente tem sempre razão.

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  2. O olfacto nunca engana!! E logo um Rothschild...:)))

    Agora ri mais do que no post de onde acabei de vir...eheheh

    Beijinhos!

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    1. Meter-se com o mestre é sempre desaconselhado, Janita :))
      Beijinhos

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    1. Querer negar a obra do mestre ao mestre da obra dá nisto, papoila :))
      Bjs

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  4. Um homem com um olfacto muito apurado :)

    Um beijinho

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    1. Na profissão dele é essencial, Fê.
      Eu confesso que o vinho me cheira sempre ao mesmo.
      E é um perfume muito desagradável.
      Beijinhos

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  5. O algodão, perdão o nariz não engana.
    Kis:=)

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    1. Especialmente um nariz tão treinado como este, AvoGi.
      Bjs

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  6. Que resposta excelente inteligente!
    Tenho estado a pensar nos orifícios, perto um do outro, mas "só" encontro os dos ouvidos. Serão esses?
    Pensando melhor, há outros, but that depends, Dr. Peter!

    Kiss.

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    1. Há outros, CÉU.
      E não estou a pensar nos ouvidos :)))
      Kisses

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