15 de setembro de 2015

Vaga de refugiados anuncia desintegração europeia?


A vaga de refugiados que procuram asilo nos países da União Europeia pode subitamente transformar-se na antecâmara da desintegração europeia.
Um problema que exigia uma resposta coordenada, uma resposta verdadeiramente supranacional, veio demonstrar claramente a manutenção de fronteiras mentais que são incompatíveis com um processo de integração que tanto se desejava e se anunciava estar a caminho.
A suspensão do Acordo de Schengen por parte da Alemanha, que deveria ocorrer só como último recurso e perante circunstâncias excepcionais, em vésperas de uma cimeira europeia de ministros do interior, veio antes funcionar como o murro na mesa dado por Merkel obrigando os restantes países a agir, a participar no esforço de integração dos refugiados, tudo sob supervisão política da Comissão Europeia.
Descredibilizada, sem força política, a Comissão Europeia assistiu impotente a uma resposta de sentido contrário dada por parte dos países que formam o bloco Visegrado (Hungria, República Checa, Polónia e Eslováquia) os quais recusam terminantemente o sistema de quotas proposto pela Comissão.
Os nacionalismos internos falaram mais alto que o cada vez mais fraco sentimento solidário europeu na hora de encontrar uma resposta para um problema que devia ser resolvido pelo bloco europeu mas que está a ser olhado numa perspectiva de quintal murado por parte de muitos dos países que integram uma União Europeia algo perdida nos seus valores e no seu sentido.
Donald Tusk, confrontado com o fracasso da cimeira europeia de ontem, já anunciou para breve uma reunião urgente do Conselho Europeu.
Se dessa reunião não saírem respostas muito concretas, e coordenadas a nível supranacional, a tragédia dos migrantes que buscam refúgio em solo europeu poderá vir a revelar-se o primeiro factor de desintegração europeia há muito temida e repetidamente anunciada pelos eurocépticos.

27 comentários:

  1. Bom dia
    Não faço previsões,mas todos sofremos com estas políticas vergonhosas aqui e por lá,nesses países onde usam e abusam da pessoa humana jogando-a para a morte com bombas, no mar sem salvamento ou a caminho de uma Europa desfeita. A continuarmos assim amanhã seremos nós a morrermos nas mãos sujas de políticos sem respeito,vergonha,humanidade, bons princípios...
    Porque não se ataca a raiz do mal lá na origem?
    Eles,os refugiados, querem viver em paz lá na sua terra e não cá por esmola e por favor.
    Um abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Os refugiados fogem à tragédia para virem encontrar confusão, luís.
      A UE era suposto ter uma política de acolhimento.
      A UE, sublinho, não os países considerados individualmente.
      O que está a acontecer é exactamente a cada um cuidar do seu quintal.
      Se o espírito europeu alguma vez existiu (terá existido no sonho dos pais fundadores) está a esfumar-se com uma rapidez assustadora.
      Esta crise é o sinal mais visível dessa realidade.
      Um abraço

      Eliminar
  2. Caro Amigo Pedro Coimbra.
    É inaceitável esta cruciante situação em que padecem sobremaneira seres viventes que foram obrigados sair dos seus países de origem.
    Caloroso abraço. Saudações inaceitáveis.
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento e do bem viver sem véus, sem ranços, com muita imaginação e com muito gozo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Era suposto encontrarem refúgio, segurança, paz, pão, na Europa, Amigo João Paulo de Oliveira.
      Foram encontrar uma UE em completa desarmonia.
      Grande abraço

      Eliminar
  3. Dizes tudo e acentuas ainda mais na resposta que dás a Luis Rodrigues.

    Todos os países desta (des)União Europeia deveriam dar ouvidos a quem conhece bem a causa deste flagelo da humanidade, a quem acode os mesmos em campos de refugiados nas zonas envolventes dos conflitos. A hipocrisia mundial é tal...que vendem armas e vivem dos rendimentos e depois é o cenário dantesco e triste a que assistimos.

    Beijocas

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sempre fui um grande entusiasta do projecto europeu, Fatyly.
      Da UE sonhada pelos pais fundadores, não desta confusão que agora vivemos.
      Beijocas

      Eliminar
  4. «(...)A suspensão do Acordo de Schengen por parte da Alemanha, só deveria ocorrer como último recurso e perante circunstâncias excepcionais.»

    E foi o que aconteceu, Pedro.

    Factos:

    Entre a noite de 6ª feira e a tarde de domingo entraram (só em Munique) cerca de 20000 refugiados, o que levou a uma "saturação" da capacidade de ajuda por parte das autoridades alemãs aos refugiados.

    A solução para esta questão não é fácil, tal qual não o é para a problemática do Darfur, da Nigéria, do Ghana, do Ruanda e por aí fora, meu caro amigo. Ser hipócrita é fingirmos que conseguimos acolher a todos, mesmo sabendo que não o conseguimos fazer, isso sim é ser hipócrita.

    Termino dizendo que devemos, a dentro das nossas possibilidades, acolher os refugiados sírios/afegãos, porém, é, julgo eu, nosso dever defendermos os cidadãos nacionais de "potenciais" choques culturais que, ai sim, poderão colocar em risco o chamado "modelo europeu".

    Desculpe o desabafo e "testamento", mas vejo tanta "opinião" que apeteceu-me dar a minha.

    Aquele abraço, Pedro.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E fez muito bem, Ricardo.
      Desde logo, quem pensa que o drama dos refugiados é uma responsabilidade europeia é demagogo.
      António Guterres fala numa responsabilidade à escala global, um recado especialmente dirigido aos vizinhos árabes e aos americanos.

      A minha questão não é a responsabilidade europeia.
      O meu foco vai para a completa ausência de política comum, para a completa desunião e descoordenação de uma Europa que teria aqui um momento de afirmação.
      Está a acontecer o contrário.
      E a Áustria e a Eslováquia já seguiram a Alemanha.

      Schengen está a ser seriamente colocado em causa, Ricardo.
      E está a ser colocado em causa por pura estratégia interna, para protecção do quintal.

      Aquele abraço

      Eliminar
    2. Quero recordar que Portugal já suspendeu Schengen em 2004, Pedro.
      A política global europeia deveria ser a que está pensada para ser, isto é, a de quotas de refugiados por país, ponto final e parágrafo.

      Aquele abraço.

      Eliminar
    3. Pedro,

      só uma achega ao que eu acabei de dizer:

      http://www.jornaldenegocios.pt/economia/europa/uniao_europeia/detalhe/alemanha_e_austria_apoiam_bruxelas_e_querem_sancoes_para_paises_que_nao_alojem_refugiados.html

      Abraço

      Eliminar
    4. No Euro 2004 e na Cimeira da NATO, Ricardo.
      Aquele abraço

      Eliminar
  5. O ser humano é por natureza egoísta. Pode até sonhar com um mundo melhor e mais solidário. Pode até bater-se por ele, mas só enquanto esse sonho de mundo melhor e mais solidário, não interfere com o seu bem estar, não põe em risco a suma comodidade.
    Porque quando isso é posto em causa, cada um que se desenrasque.
    Um abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O que me impressiona é a completa ausência de coordenação a nível europeu, Elvira Carvalho.
      A UE devia ser o oposto do que estamos a ver.
      Um abraço

      Eliminar
  6. Na muche. A crise financeira abriu brechas. A crise dos refugiados acaba com o que ficou de pé. Pobres dos países que se endividaram até às orelhas para não serem expulsos desta Europa irreconhecível porque resta-lhes terem que reconstruir uma década de recuo económico, social e civilizacional.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Falta de liderança, Corvo Negro.
      Líder político a sério só a tão criticada e odiada Merkel.
      Goste-se ou não sabe o que quer e como lá chegar.

      Eliminar
  7. Há, efectivamente, o risco de desintegração europeia.
    Apesar de 'legal', a suspensão do acordo de Schengen acarreta alguns problemas.
    Alemanha, Eslováquia e Áustria foram os primeiros de uma lista que pode vir a tornar-se grande.
    Que ilações poderemos retirar de tudo isto?
    Abraço, Pedro.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. As ilações que podemos retirar são muito negativas, António.
      A UE não tem liderança, deixou os projectos de integração pelo caminho, esquece a sua vocação humanista quando mais a devia mostrar e servir de exemplo.
      Aquele abraço

      Eliminar
  8. A História sempre se escreveu com avanços e recuos a todos os níveis... e infelizmente estamos todos, globalmente, a escrever uma fase muito má, assustadora e triste. Recordo as palavras de um jornalista que fazia em directo o ataque às torres gémeas a 11 de Setembro... dizia que a partir daquele dia o mundo nunca mais voltaria a ser como dantes. Infelizmente tinha razão.

    Um abraço (ainda) com esperança num mundo melhor

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A esperança não desaparece, Afrodite.
      Mas esmorece.
      Europeísta convicto, estou a assistir a um movimento contrário ao que era suposto verificar-se.
      Um movimento de desintegração quando era suposto assistir-se a um aprofundamento da integração.
      Beijinhos

      Eliminar
  9. Aconteceu assim com a queda do Império Romano, amigo Pedro. Estes políticos tecnocratas não estudaram História...

    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A liderança política, a nível nacional e supranacional, é muito fraca, muito cábula, Graça.
      Goste-se ou não a grande líder europeia é apenas Merkel.
      Beijinhos

      Eliminar
  10. A história é velha! As hordas bárbaras derrocaram o Império Romano do ocidente há 15 séculos e os turcomenos seldjúcidas fizeram o mesmo ao Império de Bizâncio. Deve estar na hora de invadir o Império Social Europeu e desfrutar dos seus frutos e mulheres!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. álvaro silva,
      O seu comentário complementa o da Graça.
      Só espero que estejam ambos enganados.
      Vivo na Ásia mas a minha alma, a minha cultura, os meus valores, são e sempre serão europeus.
      E ainda acredito no projecto europeu, na Europa de Jean Monnet.
      Utopia?

      Eliminar
  11. A velha Europa, sim, a VELHA EUROPA vai arranjar uma solução razoável e aceitável para esta situação, criada por outros, e não se vai desunir, embora haja ralhetes e umas estaladas, com ou sem mão.

    Há uns tempos eram os magrebinos k saltavam os muros em Tânger, Ceuta e noutras zonas, pke mesmo sem terem guerra nos seus países sonhavam, adoravam vir para a Europa e vieram mtos.
    Agora, são estes, ok, estão em guerra, mas o sangue, a mentalidade, a cultura é a mesma dos do norte de África, sem tirar, nem pôr.

    Aquando do Xipras e do Vacafários, andavam já a dizer k isto seria o princípio do fim, k a Europa, tal e coiso e k Portugal, rebeubeu, pardais ao ninho, mas nada aconteceu, portanto tudo nas paz dos anjos. A Alemanha teve uma paciência de Jó para aqueles trapalhões, k prometerem "vender lã, sem ter ovelhas", como se diz no meu Alentejo.

    Dias felizes, Pedrocas.

    Beijo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Também acredito que a Europa encontre em si valores, força, soluções para os graves problemas que enfrenta, CÉU.
      Mas está a atravessar (mais) uma fase de profundo desnorte e ausência de liderança e projectos comuns.
      A UE não pode apresentar soluções individuais para uma crise desta magnitude.
      Pelo contrário, tem aqui uma óptima oportunidade de se mostrar como um espaço único e de referência a nível mundial.
      Beijo

      Eliminar
  12. Não podia concordar mais. Não há direcção ou sentido pensados e reflectidos, só navegação à vista. E quem tem alguma ideia do caminho a seguir (Alemanha) encontra nas sanções um modo de forçar o seu intento. O Inverno está à porta, espero que não se percam em reuniões em que só se adiam resoluções... Bjs

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. M Campos,
      Merkel tem muitos adversários, muitos detractores, muita gente que não a suporta.
      Mas é, quer se goste ou não, a única verdadeira líder dentro de uma União Europeia à deriva.
      Bjs

      Eliminar