22 de setembro de 2015

Tsipras legitimado para governar com os credores e mais algumas ilações a retirar dos resultados eleitorais na Grécia


Já anteriormente tinha afirmado que uma vitória do Syriza, que seria sempre uma vitória fulanizada em Alexis Tsipras, permitiria a este, agora reforçado na sua legitimidade, governar com os credores e não contra os credores.
Os resultados das eleições de domingo, que deixaram o Syriza à beira da maioria absoluta, só vêm confirmar esse cenário.
Tsipras, que vai governar coligado com os Gregos Independentes, vai agora  implementar o duríssimo programa negociado com os credores reforçado na sua legitimidade para o fazer.
O voto massivo no Syriza e em Alexis Tsipras é, acima de tudo, como muitos comentadores políticos já afirmaram, um voto de protesto.
Os gregos não querem receber ordens de fora do país e escolheram por si próprios quem os vai liderar em tempos de grande dificuldade e austeridade.
Em boa verdade, de pouco valerá essa escolha porque, como já vimos em tantas outras situações, as verdadeiras directivas virão de fora da Grécia e não do governo legitimamente eleito nas urnas.
A Europa está a mostrar ao resto do mundo uma nova matriz da democracia.
Uma democracia na qual os países em dificuldades económicas elegem livremente os seus líderes (democracia formal) mas recebem de fora, dos credores, as directivas de governação.
Muito provavelmente conscientes dessa realidade, os gregos não se sentiram motivados nem mobilizados para votar e deixaram que a abstenção atingisse mais de 40%.
O berço da democracia protesta contra este modelo de democracia puramente formal reelegendo Tsipras como seu líder, abstendo-se massivamente numas eleições em período conturbado na vida do país.
E mostra ainda o valor residual das sondagens face ao voto nas urnas.
As mesmas sondagens que davam conta de um empate técnico entre os dois partidos mais votados em vésperas da eleição, vindo a resultar nas urnas uma quase maioria de um Syriza que devia estar desgastado pela capitulação face às exigências dos credores e às convulsões internas que o partido enfrentou.

35 comentários:

  1. Vivemos um tempo em que nos sabe a amargo o voto. Perdeu-se a independência em favor de uma união que, efectivamente, o não é. Os mais fortes, tal como na selva, não cuidam pelo bem estar dos mais fracos. Deixam-nos viver enquanto lhes interessa é esmagam-nos se os desafiamos ou, apenas e só, se queremos beber da mesma água.

    (preocupa-me o dia 4 de Outubro...)

    Beijinhos, Pedro. :)

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    1. Maria Eu,
      Não tenho a mais pequena dúvida que a abstenção também será enorme nas eleições em Portugal.
      Sinal evidente de desilusão, de desinteresse, da falta de lideranças que saibam motivar os eleitores.

      Já no caso da Grécia a abstenção poderá ser grandemente explicada com tomada de consciência por parte do povo grego que os seu voto será muito pouco relevante em termos de opções de governação.
      Escolheu-se mais um líder de governo que um programa de governo.

      Beijinhos

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  2. Ai como gostava de ter tempo para comentar este (e outros) posts a sério, mas estou sem tempo, leio, retenho os seus escritos mas não tenho tempo para comentar.

    Aquele abraço, Pedro.

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    1. Há coisas mais importantes e prioritárias em relação aos blogues, Ricardo.
      Aquele abraço

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  3. Vitória de Tsypras. Ou mais um pontapé na Europa.
    Esta deve ter doído.
    Abraço

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    1. Tsipras é, sem sombra de dúvida, o grande vencedor destas eleições, António.
      Jogou as fichas todas numa aposta arriscada e ganhou.
      Aquele abraço

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    2. É exactamente essa leitura que faço das eleições gregas. Além disso,Tsipras com estas eleições limpou a sua bancada de vozes discordantes, até aqui ganhou.

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  4. Coimbramigo

    Há por aqui um contra-senso. O Syrisa ganhou as eleções? Ganhou. O Tsipras vai de novo para primreiro-minidtro? Vai. A Senhora Merkel continua a ser a vencedora? Continua. Os credores apertarão mais uma vez a Grécia? Apertarão. A Grécia não é Portugal? Não é. Então por que bulas a comparação entre as abstenções lusas e gregas serão (mais ou menos) iguais?

    Culpa dos políticos, dos partidos, dos ditos comentadores e jornaleiros? É fácil dizer que sim... Mas, ATENÇÃO não serão os cidadãos que a uns elegerem e a outros se resignaram? É realmente muito bem ser a pitonisa de Delfos... ainda que não deixe muitos €€€€

    一個大大的擁抱

    Embora se diga que o voto é secreto afirmo convictamente: vou votar Costa...

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    1. FerreirAmigo,
      Tens dúvidas que a abstenção em Portugal vai ser elevada?
      Eu não tenho dúvida nenhuma.
      Como na Grécia, até acredito que "ganhe" as eleições?

      E porquê?
      Porque os cidadãos estão desiludidos com os políticos (politiqueiros) e a política (politiquice).

      Só nessa medida se poderá comparar a situação portuguesa com a grega.

      Aquele abraço

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    2. Penso que a abstenção andará pelos 40%, mas pode não ser necessariamente vencedora.

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  5. Amigo Pedro pelo menos na Grécia têm um líder já aqui ...

    Um beijinho

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    1. Fê,
      Como já referi, Tsipras é o grande vencedor destas eleições.
      Ele apostou num reforço do seu mandato, numa nova legitimação, e ganhou em toda a linha.
      Beijinhos

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  6. Chamas a isto uma nova matriz de democracia?!? A palavra até vem do grego e significa "poder do povo" e já se viu que ele é meramente formal, face ao poder da Europa e dos credores,consequência de um capitalismo cada vez mais estapafúrdio e desenfreado.

    Apesar de ser uma otimista nata, não vejo de como desta Europa pode sair alguma coisa de bom, uma vez que vivem (quase) exclusivamente subordinados ao poder do dinheiro e nem sequer conseguem pôr-se de acordo com o problema dos refugiados vindos de África, que levanta outras questões éticas.

    Enfim, como já li por aí,os gregos tem-nos no sítio!

    Beijocas

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    1. A Grécia, sob o impulso de Tsipras, disse claramente à Europa que rejeita os líderes que esta lhe pode pretender impor.
      Dito isto, não tenhamos dúvidas que, tão clara quanto a vitória de Tsipras, é a necessidade de pôr em prática um programa de austeridade tremendo.
      Ainda que o FMI já tenha falado em renegociação dessa dívida (e se o FMI diz....) o programa de austeridade a implementar na Grécia vai ser terrível.
      Mas agora Tsipras já poderá dizer que os gregos já sabiam que ia ser assim quando o reelegeram.

      Beijocas

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    2. E talvez seja mesmo um líder de esquerda radical, a melhor pessoa para implementar um programa desse calibre.

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  7. Não "vou à bola" com políticos. Por convicção? Tanto não direi; eu quero acreditar neles mas é mais pelos exemplos que eles têm dado e que nunca são nem o que prometem, nem o que quem os elege deseja e precisa.
    Os gregos talvez venham a "verem-se" gregos com esta escolha, porém acredito que ela seja o reflexo da recusa em voltar aos que levaram a Grécia à situação actual. Sim, porque não foram estes agora re-eleitos que levaram o país à banca rota. É preciso não esquecer isto.
    E em Portugal? Nada (ou pouquíssimo) se sabe porque o que se discute entre políticos e jornalistas é saber-se quem ganha os debates e quais as sondagens mais (ou menos) credíveis. O resto? Mas há mais para apresentar e/ou esclarecer? Não parece.
    Grande abraço pah!

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    1. Ora aí está o que chama pôr o dedo na ferida, Kok.
      Os gregos perceberam que o recuo do Syriza foi imposto.
      E que foi imposto na sequência de disparates que não foi o Syriza que fez.
      O regresso a esses partidos, que deixaram a Grécia de pantanas, é que os gregos recusam.
      Preferem um Syriza a governar em austeridade aos que os levaram para o abismo.
      Aquele abraço

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    2. Sim é mais ou menos isso. Embora a Grécia andou um bocado para trás com o Syriza, precisamente numa altura em que se começava a esboçar uma certa recuperação.

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  8. Concordo consigo, só colocaria comas na democracia, pois acho que jáestamos em ditamole cada vez mais dura!

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    1. A democracia formal ainda existe, São.
      Voto directo e universal, possibilidade de as pessoas escolherem.
      Depois disso, aquilo que poderemos chamar democracia material, o efectivo poder do povo, é que a conversa já é outra....

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  9. O facto é que, os países que aderiram ao Euro e à UE, os seus povos, acabam por reconhecer que afinal já não somos um país de plena independência, mas sim uma parte de uma comunidade em que estão englobados e sujeitos às suas regras e que os empréstimos são para ser pagos ! Claro que isso pode exigir sacrifícios, se os gastos não forem controlados !
    Ora é neste contexto que o Povo já não vai em demagogias fáceis, como acontecia até agora, antes deste "exemplo grego" ! ... Não se pode andar "a brincar" com aqueles que nos emprestam dinheiro e por muito que custe os sacrifícios são para aceitar, se se quer continuar a fazer parte dessa comunidade (o Tsipras de hoje, não é de modo algum o de há um ano atrás) !
    É isso que está a acontecer ! Para "lição", já chegou aquela que foi dada aos governantes e ao Povo grego e que serviu de exemplo a todos os outros da Europa !
    Não se pode pretender "o sol na eira e a chuva no nabal" ! ... Temos que nos sujeitar às regras dessa comunidade e temos que nos deixar de facilitismos e demagogias que não passam disso mesmo. As realidades pós eleitorais são muito diferentes daquelas que as oposições apregoam, no fundo, sabendo bem que estão a tentar vender gato por lebre e que mudarão de discurso após eleições ganhas !
    Até agora, antes do exemplo grego, era muito fácil ganhar eleições com demagogia fácil, mas isso já não "pegará" futuramente !
    O Povo não é parvo, embora muitos ainda julguem que é fácil iludi-lo com falsas promessas e sem sentido de Estado !
    Creio bem que as próximas eleições em Portugal serão uma Grande surpresa !

    Abraço, Pedro.

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    1. Uma das condições de adesão à UE é a perca de parte da soberania, no seu modelo clássico, a favor de um poder supranacional, Rui.
      Um poder algo estranho, porque funciona com lideranças que não são eleitas directamente pelo povo.
      Aceites essas regras elas têm que ser cumpridas.
      Só o MRPP não pensa assim e tem uma representação residual no panorama político português.

      Os gregos perceberam que vão passar por um período de austeridade terrível, de grandes dificuldades, perceberam que têm que honrar compromissos, e escolheram para isso um líder.
      Um líder que não tem nada a ver com quem os meteu nesta alhada e que até tentou ir por outro caminho.
      A lei do mais forte veio mais uma vez acima.

      Mas atenção às declarações do FMI, Rui.
      Renegociação da dívida.
      Também o credor já percebeu que não pode estrangular o devedor.

      No que se refere às eleições em Portugal só arrisco uma previsão - a abstenção vai ser altíssima.
      A partir daí....

      Aquele abraço

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    2. Excelente análise. Concordo inteiramente consigo!

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  10. A maior abstenção eleitoral de sempre, mas o que interessa é a vitória do Alexis Tsipras.

    Os socialistas ficaram a ver navios...

    E em Portugal, onde não temos um Alexis Tsipras, como vai ser?

    Como na Grécia a abstenção eleitoral vai ser tremenda.

    O Dr. Costa não vai ser o grande vencedor das eleições portuguesas.

    Abração de Düsseldorf.

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    1. ematejoca,
      Tsipras ganhou em toda a linha.
      Perguntou ao povo grego se era o Syriza que queria e o povo respondeu sim.
      Mas a grande maioria disse claramente que se estava nas tintas.

      Os socialistas gregos são olhados como os grandes culpados do descalabro na Grécia.
      E foram penalizados por isso.

      Em Portugal, repito, só arrisco uma abstenção muito elevada.
      A partir daí......God knows!

      Um abração desde Macau

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  11. Coimbramigo

    Mau... Agora já não percebo nada, isto é continuo a não perceber nicles... Respondes apenas a metade de uma afirmação da Fèamiga, E a outra metade ficou no tinteiro, no teclado ou engavetaste-a? Não me digas que não entendeste já aqui.... Não acredito pois já demonstraste que és inteligente - e muito... Será que não concordas?...

    一個大大的擁抱 do Leãozão


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    1. FerreirAmigo,
      O meu silêncio é sinal de concordância absoluta.
      Líder, com o peso, a credibilidade, a capacidade do Tsipras (goste-se ou não dele) não há em Portugal.
      Concordo com a Fê cem por cento!!
      Aquele abraço

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  12. Pedro, as sondagens têm-se revelado um fiasco autêntico. No caso da Grécia, muito embora Tsipras tenha este discurso voltado para os eleitores, a verdade é que a situação actual não coaduna com discursos populistas. A Europa e as suas instituições mandam na Grécia. Os tempos são outros. Há obrigações a cumprir, sejam elas justas ou injustas.
    Abraço

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    1. Carpe Diem,
      Mas os gregos já perceberam que os tempos de dificuldade estão aí para ficar e até é bem possível que se agravem.
      O que foram escolher no domingo foi um líder, um interlocutor para os representar junto dos credores.
      E, nessa função, disseram claramente que confiam em Tsipras.

      Aquele abraço

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  13. ~~~
    ~ A ver vamos...
    ~ Por enquanto, apenas vejo trapalhadas a todos os níveis...

    ~~ Beijinho. ~~
    ~~~~~~~~~~~~

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    1. Tantas trapalhadas que conduziram a uma abstenção elevadíssima, Majo.
      Que irá também acontecer em Portugal não tenhamos dúvidas disso.
      Beijinhos

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  14. oi Pedro, parece que há sempre muita gente a saber governar, mas quando estão de fora, ou não será assim? porque se leio o que se diz nos países muito mais ricos, os textos assemelham-se muito

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    1. Angela,
      Mais que um governante (as ordens virão de fora) Tsipras será um executor das políticas dos credores (poderá escolher como as executar) e um interlocutor perante esses mesmos credores.

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  15. As sondagens estavam manipuladas, como por cá também estão. Quanto ao resto, o que temos na Europa é um arremedo de democracia.
    Um abraço

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    1. basta olhar para as diferenças brutais entres os resultados das várias sondagens para perceber que a credibilidade das mesmas não será a maior, Elvira Carvalho.
      Sondagens para todos os gostos numa democracia formal que continua a existir.
      Um abraço

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