10 de março de 2015

Tragédia grega no século XXI?


Aristóteles ensinava que a tragédia grega clássica devia reunir três condições - possuir personagens de elevada condição (heróis, reis, deuses); ser contada em linguagem digna;  ter um final triste, com o sacrifício de um ou vários personagens vitimados pelo seu orgulho quando tentavam rebelar-se contra as forças do destino.
Ouvir Yanis Varoufakis dizer que a troika, na formulação e com os poderes que lhe conhecemos, acabou na Grécia, prenuncia uma tragédia grega em pleno século XXI.
Varoufakis eleva-se à posição de herói, agrada ao povo, fala uma linguagem que o povo compreende e quer ouvir.
Mas parece esquecer que a tragédia grega tem sempre um final triste porque o orgulho tolhe a razão.
Os cofres gregos estão vazios, as entidades que os podem rechear exigem condições para o fazer, estão a perder a paciência com o arrastar da situação (vide as declarações de Jeroen Dijsselboem) e Varoufakis escolhe um episódio bíblico para enfrentar as duras negociações que tem pela frente fazendo crer que o David grego vencerá o Golias troika.
Melhor seria recorrer à sabedoria oriental (Sun  Tzu) que nos ensina a não travar batalhas com inimigos mais fortes.
Esses, os mais fortes, devem ser evitados e as batalhas a travar dissimuladas, calculadas com frieza, paciência e sapiência.
Varoufakis escolheu a tragédia grega em detrimento da sabedoria oriental.
Se insistir neste caminho acredito que seja ele a vítima no final triste que todas as tragédias gregas devem ter.

31 comentários:

  1. Acredito que irão conseguir, porque Pedro as actuais políticas da ou na UE que frutos deram? Apenas salvar os bancos, os agentes económicos que querem mais, sempre mais, os mercados "sem rosto" em detrimento dos povos.

    Levámos com tudo que TROIKA impôs e ainda mais porque foram muito além do que estava no "maldito acordo" sem negociações mas como cordeirinhos ou bons alunos e resultados? A dívida portuguesa aumentou e de que maneira e a miséria de 90% do povo aumentou mil por cento.

    Ontem ao ouvir um debate sobre uma das medidas gregas "por donas de casa, desempregados, jovens" a combaterem a fuga aos impostos e a corrupção. Logo uma enxurrada de criticas negativas quando não li em lado nenhum como será a "na prática" a forma e conteúdo de...

    Mas o que fizeram por cá, não foi algo semelhante sobre a pedir facturas do que se gasta? O tal brinde do carrão que não é mais do que um embuste e areia para os olhos? A declaração do IRS a entregar em 2016 sobre os rendimentos e gastos de 2015 do que se trata?

    Falam tanto que o governo foi "bom aluno" e à custa do quê e de quem? Nos países nórdicos e ou cumpridores o que se passou com PPC seria logo motivo para ser afastado ou o próprio demitir-se. A falha ignóbil do BdP no caso BPN e BES seria admissível? Pois é...falam dos outros quando têm tantos telhados de vidro!

    Aguardarei e não sei se me fiz entender!

    Beijocas

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    1. Fatyly,
      Se Varoufakis está a fazer bluff com esta declaração, óptimo.
      Já aqui tinha escrito que o novo governo grego tinha tido o mérito de abanar a Europa, de agitar consciências, de mostrar que é possível negociar sem ter que a tudo ceder e seguir o discurso patético do bom aluno.
      Mas, sublinho, é possível negociar.
      E há que perceber que a parte mais forte nessa negociação são os credores/financiadores.
      Se o governo grego esticar a corda o que é que, no limite, poderá acontecer?
      Fecha-se a torneira e a Grécia entra em caos.
      Ninguém quer isso.
      A começar pelo próprio governo grego.
      Mas, se houver esse perigo real no horizonte, algum cordeirinho terá que ser imolado.
      Varoufakis, com esta postura demasiado agressiva, a falar para dentro do país esquecendo-se que o eco cá fora é enorme, arrisca-se a ser esse cordeirinho.
      Sejam estas ideias dele próprio, ou do governo que representa, o pescoço que fica mais à mão é o dele.
      Beijocas

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  2. Pedro, você conhece a minha posição em relação ao Governo do Syriza e socorrendo-me de Abraham Lincoln diria em relação ao Governo de Tsirpas que «Podeis enganar toda a gente durante um certo tempo; podeis mesmo enganar algumas pessoas todo o tempo; mas não vos será possível enganar sempre toda a gente.».

    A mim não me enganaram, e quem lê o que escrevo sabe disso, nem antes, nem depois das eleições.

    Aquele abraço, Pedro.

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    1. Ricardo,
      Até acredito que o executivo grego tenha genuínas intenções de renegociar as condições de liquidação da dívida e de novos financiamentos.
      Mas é isso mesmo que têm que fazer - negociar.
      E com paninhos quentes porque a massa está nas mãos dos outros.
      Aquele abraço

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  3. ~ Não percebo por que motivo subestima o intelecto de Varoufakis!!
    ~ Parece um economista esclarecido e de pateta ou louco, não tem nada.

    ~ Ele não está agarrado ao poder, pelo contrário, põe o seu cargo à disposição se a Europa insistir com a Troika e a austeridade, sem impulsionar a economia.

    ~ Recusa-se a exigir aos miseráveis do seu país que paguem a dívida reduzindo o pouco que dispõem para colocar no prato.

    ~ Dizer que Varoufakis é agressivo ou chantagista é repetir o que os media de direita não se cansam de propalar.

    ~ Ele, simplesmente, tem um plano que admite enfrentar a bancarrota.
    ~ Eles pensam que por terem a faca e o queijo, podem roubar toda a dignidade!
    ~ Esquecem que aos gregos pouco resta a perder.

    ~ A resolução da entrega da decisão a um referendo é estupenda.

    ~ Eles - todos - sabem que Portugal e Espanha estão com eleições à vista e que a postura subserviente está com os dias contados,

    ~ ~ ~ Beijinhos. ~ ~ ~
    ~~~~~~~~

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    1. Majo,
      Não subestimei o intelecto de ninguém nem acusei ninguém de ser chantagista.
      Onde é que leu isso??
      Agressivo?
      Não é?
      O executivo grego e os credores têm que tratar esta situação com paninhos quentes.
      Especialmente os gregos que precisam urgentemente de financiamento.
      Afirmações bombásticas ("a troika acabou") não levam a lado nenhum.
      Muitos anos a viver no Oriente ensinaram-me a controlar esses ímpetos, a perceber que se deve ter uma postura conciliatória.
      Tanto mais quanto somos nós os mais necessitados como é o caso dos gregos.
      Beijinhos

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  4. Esses senhores ainda não perceberam que não há almoços grátis, ou pensam continuar "ad eternum" a almoçar à conta dos outros?

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    1. Lufra,
      Nem é uma questão de almoços grátis.
      É mais uma questão de não entrar a matar quando quem tem a faca e o queijo na mão é a outra parte.
      Bom-senso.

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  5. Os gregos têm uma coisa que Portugal perdeu: dignidade.

    Além disso, quem lhes emprestou dinheiro sabia das suas condições periclitantes e arranjou assim maneira de lucrar com os pesados juros, além de ter a Grécia submetida.

    Deveriam seguir a sabedoria oriental? Talvez, mas francamente não vejo o que Portugal ganhou com a subserviência canina de Passos e a figura humilhante de foca amestrada de Maria Albuquerque ao lado de Schauble.

    Seja como for,a Grécia já conseguiu muita coisa e talvez prefira enfrentar uma realidade muito dura a servir de capacho ao país que a ocupou durante a Guerra e não lhe pagou as dívidas.

    Nem que fosse só por ter enfrentado a Alemanha, o actual Governo grego merece(-me) todo o respeito.

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    1. São,
      Atenção que a sabedoria oriental não ensina ninguém a ser capacho de ninguém.
      Bem pelo contrário.
      Se há uma coisa que nos ensina é a ser espertos.
      Que é coisa bem diferente de ser inteligente ou/e culto.
      Esperteza e bom-senso é o que me parece estar a faltar ao governo grego.
      Não estou a advogar, longe disso!, que sigam o (mau) exemplo português.
      Mas também não podem entrar nestas negociações com declarações bombásticas e frases que podem cair bem na opinião pública grega mas são muito mal vistas por quem lhes vai emprestar o dinheiro que tanto necessitam.

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    2. Pedro, não me fiz compreender.

      Sei que a astúcia faz parte do Oriente, isto é, neste caso recua dois passos não para ceder, mas sim para arranjar maneira de avançar a seu jeito.

      Nunca me passou pela cabeça nem passaria, até porque já nos conhecemos há algum tempo, que advogasse a atitude servil e idiota do bando que está no Poder em Portugal.

      Veremos o que vai acontecer...

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  6. ADMIRO A CORAGEM DE YANIS VAROUFAKIS AO DESAFIAR OS CREDORES INTERNACIONAIS.

    O vosso Toninho Costa não tem tomates para um tal desafio.

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    1. ematejoca,
      Vamos ver que resultados trará essa coragem.
      Não será seguida por um recuo estratégico?
      Vamos esperar para ver.

      Sou um tipo difícil de convencer.
      O António Costa ainda não conseguiu.
      Mais uma vez, vamos ver....

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  7. Admito que neste caso Sun Tzu seja mais aconselhado do que Leónidas e os seus 300.
    E no entanto o governo Grego tem pelo menos o crédito de ter agitado as águas desafiando "os professores" a perceberem que nem só de bons alunos se compõe uma escola porque não são só estes que produzem boas ideias apesar das boas notas (deveria dizer médias) académicas que lhes são outorgadas.
    Se os ditos professores admitem que leccionaram mal a matéria porque raio é que insistem ou resistem em modificá-la?
    Desde o estoiro desta crise a nível mundial que se sabe das trambiquices gregas, feitas com o aconselhamento do tal Lehman B. e com a conivência (ou pelo menos a aceitação/o conhecimento) da UE. A imprensa mundial assim o disse.
    Mas as coisas são como são; a UE é o que é e quanto a solidariedades estamos conversados.
    Ou seja, se está tudo bem, muito bem! Se não, é o que se vê!
    Akele grande abraço!

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    1. Esse mérito é difícil de não ser reconhecido ao governo grego, Kok.
      Espero que não agitem as águas em demasia.
      Ao ponto de fazerem tombar o barco.
      Aquele abraço

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  8. Eu estou muito de acordo contigo, Pedro.
    Acho que tudo está para acontecer:o bom e/ou o muito mau.
    Penso bastante na hipotese do "cordeirinho"....
    xx

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    1. Se as coisas correrem mal, Varoufakis está ali mesmo a jeito para ser imolado, papoila.

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  9. O governo de Tsípras actua de forma estratégica. Tem apalpado o terreno mas, antes de o fazer, sabia perfeitamente que as reivindicações teriam que ser negociadas. É a negociar que Varoufakis tem conseguido algumas, ainda que poucas, vitórias.
    Era preciso abanar, o Syriza abanou. E preciso negociar, o Syriza negoceia. Uma coisa é certa, sacudiu o pó da cansada União Europeia.
    Há quem diga que a vida se faz caminhando. Tsípras diz que a governação se faz negociando.

    Um abraço, Pedro.

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    1. "Uma coisa é certa, sacudiu o pó da cansada União Europeia."
      Cem por cento de acordo, António.
      O que já é um grande mérito e um bom princípio.
      Vamos ver o que acontecerá a partir daí.
      Aquele abraço

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  10. ~
    ~ ~ Neste caso, gosto mais da sabedoria árabe que se serve dum exemplo da Natureza: «A água, quando encontra um obstáculo, contorna-o, mas não pára.»

    ~ ~ ~ Um dia excelente, Pedro. ~ ~ ~

    ~~~~~~Bjs~~~~~~
    ~ ~ ~

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    1. Excelente, Majo.
      A sabedoria árabe e esse tipo de estratégia perante um inimigo tão forte.
      Beijinhos

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  11. Infelizmente, também receio bem que assim vá acontecer. Mas tenho pena. Triste ver os países assim ajoelhados à força do dinheiro...

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    1. Só haverá um desfecho destes se os gregos não recuarem estrategicamente, Graça.
      Se o souberem fazer, se forem espertos, não se chegará a tanto.

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  12. As negociações feitas com brutalidade, o resultado pode ser desastroso, para não dizer uma porcaria, tem que medir as palavras, afinal a necessidade existe e de que maneira, não há interesse em que não haja negociações.

    Beijinhos
    Beijinhos

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    1. Sobretudo quando quem fala mais alto é a parte mais fraca em presença, Adélia.
      Beijinhos

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  13. E agora veio o ministro da defesa (do partido da direita) ameaçar abrir as fronteiras a todos os imigrantes.
    Concordo que a entrada de Varoufakis não foi muito feliz, mas a reacção da Europa , a começar por nós, foi e está a ser miserável. Continuo a pensar que se a Grécia sair do euro, vai ser o descalabro para nós.

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    1. A Grécia não vai sair do euro, Carlos.
      Haverá mais destes arrufos.
      No fim, espero que haja entendimento.
      Nem que tenha que haver um cordeirinho como vítima

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  14. ....por aqui a coisa tá preta!!!

    [decepçoes atras de decepções em todas as áreas da pol´tica...n me encontro!]


    abç

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    1. Não é só por aí, Margoh.
      Decepções, na área da política, são o pão nosso de cada dia infelizmente
      Abraço

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  15. Ai, a História NUNCA falha, e repete-se muitas vezes, embora em contextos e épocas diferentes.

    Feliz dia, Pedro!

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    1. CÉU,
      Vamos dar tempo ao tempo e ver o que é que sai deste tête à tête entre os credores e a Grécia.
      Votos de um dia feliz também

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