23 de abril de 2014

Carta do infante D. Pedro ao seu irmão D.Duarte - 1426



Carta enviada de Bruges, pelo Infante D. Pedro ao irmão D. Duarte, em 1426, resumo feito por Robert Ricard e constante do seu estudo «L’Infant D. Pedro de Portugal et “O Livro da Virtuosa Bemfeitoria”», in Bulletin des Études Portugaises, do Institut Français au Portugal, Nova série, tomo XVII, 1953, pp. 10-11).

«O governo do Estado deve basear-se nas quatro virtudes cardeais e, sob esse ponto de vista, a situação de Portugal não é satisfatória. A força reside em parte na população; é pois preciso evitar o despovoamento, diminuindo os tributos que pesam sobre o povo.
Impõem-se medidas que travem a diminuição do número de cavalos e de armas.


É preciso assegurar um salário fixo e decente aos coudéis, a fim de se evitarem os abusos que eles cometem para assegurar a sua subsistência.


É necessário igualmente diminuir o número de dias de trabalho gratuito que o povo tem de assegurar, e agir de tal forma que o reino se abasteça suficientemente de víveres e de armas; uma viagem de inspeção, atenta a estes aspectos, deveria na realidade fazer-se de dois em dois anos.


A justiça só parece reinar em Portugal no coração do Rei [D. João I] e de D. Duarte; e dá ideia que de lá não sai, porque se assim não fosse aqueles que têm por encargo administrá-la comportar-se-iam mais honestamente.


A justiça deve dar a cada qual aquilo que lhe é devido, e dar-lho sem delonga..


É principalmente deste último ponto de vista que as coisas deixam a desejar: o grande mal está na lentidão da justiça.


Quanto à temperança, devemos confiar sobretudo na acção do clero, mas ele [o Infante D. Pedro] tem a impressão de que a situação em Portugal é melhor do que a dos países estrangeiros que visitou.


Enfim, um dos erros que lesam a prudência é o número exagerado das pessoas que fazem parte da casa do Rei e da dos príncipes.


De onde decorrem as despesas exageradas que recaem sobre o povo, sob a forma de impostos e de requisições de animais.


Acresce que toda a gente ambiciona viver na Corte, sem outra forma de ofício.»

16 comentários:

  1. Voltamos novamente a esse tempo de impostos e mais impostos...

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    1. Eu pergunto-me se alguma vez de lá saímos verdadeiramente, luís.
      Publiquei esta carta precisamente para se perceber a actualidade, fazendo as devidas adaptações, da mesma.

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  2. A história repete-se...mas na minha modesta opinião,,,Portugal continua quase igual e o povo a aguentar tudo...e todos os políticos mais que corruptos (há uma ou duas excepções).

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    1. Se se adaptar esta carta à actualidade, qual é a grande diferença, Fatyly?

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  3. Pedro, envie uma cópia ao inquilino de S. Bento.

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  4. A fama que vem de longe, Pedro, tal qual aquele anúncio do Constatino (brandy), lembra-se?

    Aquele abraço, old chap!

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    1. Lembro bem, Ricardo.
      E assenta aqui como uma luva.
      Aquele abraço!

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  5. Conhecia esta famosa Carta de Pedro, o das Sete Partidas, a Duarte ...e ela é um dos motivos que me leva afirmar que Portugal encalhou numa qualquer curva do Tempo e não descobre a saída, pelo que continua em círculos sobre si mesmo!

    Parabéns pelo post, Pedro.

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    1. Até sexta-feira (incluindo as anedotas desse dia) vou deixar aqui algumas reflexões acerca do caminho que temos percorrido enquanto Nação.
      Temos problemas, temos vícios.
      Mas somos um Pais do caraças!

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  6. Caro Amigo Pedro Coimbra!
    Como diria o nobilíssimo escritor Eça de Queiroz (1845-1900) : "Só as moscas mudam, quando mudam!"
    Caloroso abraço! Saudações desiludidas!
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento

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    1. Às vezes também muda o cheiro, Amigo João Paulo de Oliveira :))
      Grande abraço!

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  7. Já assim era no século XIV!!! E continua...
    Bela repescagem, amigo Pedro!!

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    1. Uma forma de relembrar o 25 de Abril, Graça.
      E o caminho que temos percorrido enquanto Nação.
      Com todos os defeitos, com grande orgulho pátrio da minha parte.
      O País é deslumbrante.
      Há uma cambada de salafrários que insistem em o estragar.
      Ontem e hoje.
      Esperemos que não seja assim amanhã.

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