23 de janeiro de 2014

A onda de pleonasmos


Os portugueses usam e abusam do pleonasmo.   Aqui vão quatro exemplos clássicos: “subir para cima”, “descer para baixo”, “entrar para dentro” e “sair para fora”.

Mas não se pense que isso só acontece aos outros. Ou vai dizer-me que nunca“recordou o passado”, nunca esteve atento aos “pequenos pormenores”, nunca partiu uma laranja em “metades iguais” ou que nunca deu os “sentidos pêsames” à “viúva do falecido”?

Note que isto não é uma “opinião pessoal”!

Este “aviso prévio” de uma “doença má” que se está a transformar numa onda gigante que ameaça engolir-nos a “todos, sem excepção” baseia-se em “factos reais”.

Se prestar um pouco de atenção descobrirá facilmente lojas que nos aliciam com “ofertas gratuitas”, agências de viagens que oferecem férias em “cidades do mundo”; chefes que pedem um “acabamento final” no projecto, para evitar “surpresas inesperadas”.  Até em casa, numa discussão com a esposa, por vezes apetece  “gritar alto”: - “Cala a boca!”. O que vale é que depois fazemos as pazes e vamos ao cinema ver um filme que “estreia pela primeira vez” no nosso país.

Mas se pensa que, fechado em casa fica a salvo desta onda, desengane-se: a televisão é, de “certeza absoluta”, a “principal protagonista”, o veículo através do qual ela lhe vai chegar. Não acredita? Ponha-se a pau e logo à noite, experimente assistir ao telejornal. “Verá, com os próprios olhos”, em directo, um jornalista dizer que a floresta “arde em chamas”; um treinador de futebol queixar-se dos“elos de ligação” entre a defesa e o ataque; um governante garantir que o culpado do estado em que o pais se encontra é o governo anterior que geriu mal o “erário público”; um ministro anunciar o reforço das “relações bilaterais entre os nossos dois países” e um qualquer “político da nação” pedir um“consenso geral” para sairmos da crise.

E por falar em crise: quer apostar que a próxima manifestação vai juntar uma “multidão de pessoas”?

Felizmente – ao menos valha-nos isso – a onda de pleonasmos não causa “dores desconfortáveis”, não origina  “hemorragias de sangue”, não nos impede de “viver a vida” com um “sorriso nos lábios”, nem nos obriga a fugir do nosso “habitat natural” e buscar outras paragens para ganhar a vida.

Por amor de Deus: tente cortar aqui e ali um ou outro pleonasmo. Vai ver que não custa nada e facilita a comunicação.  Ah! E  “já agora” siga o meu conselho: não “adie para amanhã”; comece já hoje a“encarar de frente” este hábito. Ou então, esqueça. Talvez seja eu que estou “maluco da cabeça”.

21 comentários:

  1. Ahahah!
    Quando pensei nos “elos de ligação”.... ali estavam eles mais abaixo.
    Eu não subo para cima, nem desço para baixo e não sou utilizadora de multidão de pessoas... todas as outras me fazem sentido!!! Afinal, necessitamos de dar ênfase a certas situações! : )))

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    1. Não sei quem é o autor, mas está bestial, Catarina.
      E há que gritar alto isso mesmo :))))

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  2. Eheheh!
    É sempre útil, uma "aulinha" destas! ;))
    Gostava de saber quem foi o autor do texto.

    Tem um bom dia, J. Pedro.

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    1. Majo,
      Há um skectch brasileiro, que também por aqui publiquei, que é muito semelhante.

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  3. Estimado Amigo Pedro Coimbra
    É assim já, vamos subir para cima para variar quando descemos para baixo rsrsr.
    Abraço amigo

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    1. tem que ser, Amigo Cambeta - nem sempre a subir para cima, nem sempre a descer para baixo.
      Como os interruptores, a bem dizer :))
      Aquele abraço!!

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  4. E o "há-dem" utilizado em discursos patéticos por políticos e não só?

    Mas poetas "intemporais" usaram tantos pleonasmos. Um que recordei agora ... Fernando Pessoa

    Enfim...deu para rir e foi bom:)

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    1. O texto é um mimo, Fatyly.
      Pena não saber quem é o autor.

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  5. Caro Amigo Pedro Coimbra!
    É por isto que cada vez mais fico fascinado com a nossa amada Língua Portuguesa!
    Caloroso abraço! Saudações linguísticas!
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Um ser vivente em busca do conhecimento

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    1. Amigo João Paulo de Oliveira,
      No Brasil falam mais em tautologia em vez de pleonasmo, não é?
      A língua portuguesa é riquíssima!!
      Grande abraço!

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  6. Eu classifico os pleonasmos em duas partes: os graves e os menos graves.
    Dos que, o Pedro, aqui referiu, já disse alguns, mas inconscientemente, como aliás, se dizem, a maior parte deles, mas o "subir para cima", "descer para baixo" e "ambos os dois", que julgo não estar aqui citado, e até tem, "dono/autor", nunca disse. O "preferir antes" também é muito usado, mas sendo pleonasmo, quase que não se dá por ele.

    Gostei muito do texto, que li umas duas/três vezes, porque há pleonasmos apresentados nele, que me fizeram pensar, como, por exemplo, "cala a boca". Ora bem, só falamos pela boca, é verdade, mas neste caso, estamos a reforçar, a "exigir" e não a duplicar o sentido. Bem sei, e agora, a talho de foice, que ninguém nos pode dizer, exigir, "cala o pensamento ".

    Não sei de onde o Pedro extraiu o texto, ou se é da sua autoria. Caso não visse inconveniente, gostaria que mo enviasse através do meu endereço eletrónico.

    E o fim de semana já espreita. Aqui, está um frio de rachar. É janeiro, como diz a canção de Rui Veloso.

    Um beijo da Luz.

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    1. Luz,
      Há alguns que são verdadeiras calinadas.
      Outros, nem tanto.
      Um beijo

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  7. NÂO PUBLICAR, P FAVOR!

    O meu endereço é: estanque.emilia@gmail.com

    Obrigada!

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  8. Confesso o pecado de usar alguns deles! :)

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    1. Acontece com todos, Rosa dos Ventos.
      Ninguém lhe vai atirar a primeira pedra :))

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  9. Não adiei este comentário para amanhã, não quis deixar de dar a minha opinião pessoal e juntei-me à multidão de pessoas que aqui vem, desci para baixo para comentar e subi para cima várias vezes para ler o texto escrito (esta não tinhas aqui), comecei com um sorriso nos lábios e acabei a rir para o ecrã do computador...se calhar também estou maluca da cabeça eheheheh

    Beijinho :)

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    1. Ainda bem que não adiou, maria.
      Porque já nos deixou bem dispostos com o seu comentário :)))
      Beijinho

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  10. Sobre o descer para baixo (no qual já fui apanhada) estive a desenvolver uma profunda reflexão: se eu estivesse no cimo de um escadote dentro de um elevador e começasse a descer os degraus ao mesmo tempo que o elevador subir eu poderia estar a descer para cima...

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    1. E não é que é mesmo assim, Gábi??!! :)))
      Com reflexões dessas, à segunda-feira, um tipo fica tonto. :))
      Beijinhos e votos de boa semana!

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