11 de dezembro de 2013

Uma cidade do mundo (Bruno Maçães)


Este artigo foi escrito pelo actual secretário de Estado dos Assuntos Europeus em 2007. Como fazer de Portugal uma cidade. 

As cidades onde vivi nos últimos meses têm cerca de dez milhões de habitantes. É o número perfeito. Para quem conhece Xangai ou Seul é difícil acreditar que uma cidade possa ser mais pequena e ainda assim fazer tudo o que é preciso fazer na economia global. Estes são os locais onde novas ideias são descobertas a toda a hora. Produção e consumo coincidem com exactidão. Aqui, os mistérios do negócio deixam de ser mistérios. 

Xangai é já uma das grandes cidades da história, ocupando o seu lugar ao lado da Nova Iorque do século vinte ou da Londres de há duzentos anos. Seul tem passado por uma renovação notável e, como tudo na Coreia, extraordinariamente rápida. Hoje é um exército acampado, onde tudo sem excepção está ser feito ou preparado por alguém. De resto, outras cidades asiáticas como Hong Kong e Singapura anunciaram recentemente políticas ambiciosas de natalidade e imigração que lhes permitam alcançar o número mágico dos dez milhões. Quero insistir neste número porque me parece que Portugal reúne condições perfeitas para se tornar num futuro não muito distante uma grande cidade mundial. Este é uma cenário que me parece bem mais provável do que a progressiva desertificação do país ou a sua assimilação ao espaço espanhol ou europeu.

Podemos pensar que, numa hipótese limite, toda a população portuguesa viverá numa única cidade. O resto do território, acessível em três horas, tem a dimensão certa para garantir o equilíbrio humano e ambiental de uma grande cidade contemporânea. Também neste ponto a situação portuguesa é invejável, escapando aos problemas com que se debatem actualmente Singapura ou Hong Kong. É possível construir uma paisagem realmente bela em Portugal, contando que nos libertemos da hesitante urbanização dos últimos cem anos. Uma cidade do mundo, capaz de competir com as melhores, rodeada de um parque natural, é esta a imagem que quero defender. O caso ideal é uma entidade política suficientemente ampla para sobreviver com autonomia e suficientemente pequena para poder ser concebida em termos de uma única cidade. 

De um modo ou outro, é um cenário inevitável. Resta saber se será um futuro voluntariamente aceite e preparado ou uma sentença lamentada por todos, um falhanço de desorganização como até agora. A primeira alternativa tem pela menos a vantagem de oferecer um grande desígnio nacional a uma país que parece incapaz de viver sem grandes desígnios e numa altura em que eles se tornaram raros, demasiado raros. O futuro, lamento dizer, pode muito bem ser brilhante. 

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Bruno Maçães, Professor de Estudos Globais, Universidade de Yonsei, Seul

7 comentários:


  1. Um menino prodígio, capaz de excelentes ideias e discernimento, quando escreve...
    Em terras lusas, houve medíocres que se deslumbraram com o seu curriculum.
    Reconheceram que o menino ambicioso tinha perfil de disciplinado vassalo cumpridor.
    Muito estudioso, mas terá ideias genuínas e brilhantes? Ou apenas é capaz de engendrar pretensiosas utopias? Onde foi arranjar mérito para se pronunciar sobre urbanização? Se os maiores arquitetos, de renome internacional, manifestaram-se contra a monstruosa expansão de grandes cidades! Como poude supor um Portugal anexado a Espanha?!
    Portugal tem uma identidade, uma cultura, um património material e imaterial.
    Não está interessado em ser uma cópia de coisa nenhuma!
    Todo o encanto e charme que caracteriza Lisboa provém da não existência de arranhadores de céus.
    Um pretenso geniozinho estrangeirado, muito certinho e bem comportado, como convinha... Mas que tem jeito para tornar-se famoso, isso tem.
    Parabéns Pedro. Este artigo já está disponível na NET.
    Lamento não publicarem os comentários.

    Sempre Amigos... Abraço.




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    1. Majo,
      Isto foi escrito em 2007.
      O rapaz terá mudado muito daí para cá
      Porque, em boa verdade, a ideia de uma Administração muito menos complexa, muito mais reduzida, até me agrada.
      E me parece bem possível num país com a dimensão de Portugal.

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  2. E, se fossemos uma cidade alemã, ainda melhor!

    Boas férias!

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    1. Tétisq,
      O que ele defende neste artigo, de 2007 atenção, eu até acho bem possível em Portugal - uma máquina administrativa e uma estrutura de governo muito mais simplificada

      Vamos dar um passeio a Taiwan após o Natal.
      Até lá há muita coisa para fazer.

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  3. A Psicologia ensinou-me a perceber o que se esconde por detrás de fuças como a do Maçães. E mais não digo...

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    1. A data é o mais importante, Carlos - 2007
      Acredito que hoje o secretário de estado (estes tipos mudam de pele com uma facilidade terrível) já não escreveria isto.

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  4. As Fuças? é de chico esperto.

    Cuidado com eles

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