21 de fevereiro de 2013

Excelente texto sobre o Ulrich, por Alice Brito




Sei que a raiva não é boa conselheira. Paciência. Aí vai.
Havia dantes no coração das cidades e das vilas umas colunas de pedra que 
tinham o nome de picotas ou pelourinhos. Aí eram expostos os sentenciados 
que a seguir eram punidos com vergastadas proporcionais à gravidade do seu
crime. Essa exposição tinha também por fim o escárnio popular. Era aí que 
eu te punha, meu glutão.

Atadinho com umas cordas para que não fugisses. Não te dava vergastadas. Vá 
lá, uns caldos de vez em quando. Mas exibia-te para que fosses visto pelas 
pessoas que ficaram sem casa e a entregaram ao teu banco. Terias de 
suportar o seu olhar, sendo que o chicote dos olhos é bem mais possante que 
a vergasta.
Terias, pois, de suportar o olhar daqueles a quem prometeste o paraíso a 
prestações e a quem depois serviste o inferno a pronto pagamento. Daqueles 
que hoje vivem na rua.
Daqueles que, para não viverem na rua, vivem hoje aboletados em casa dos 
pais, dos avós, dos irmãos, assim a eito, atravancados nos móveis que 
deixaram vazias as casas que o teu banco, com a sofreguidão e a gulodice de 
todos os bancos, lhes papou sem um pingo de remorso.

Dizes com a maior lata que vivemos acima das nossas possibilidades. Mas não 
falas dos juros que cobraste. Não dizes, nessas ladainhas que andas sempre 
a vomitar, que quando não se pagava uma prestação, os juros do 
incumprimento inchavam de gordos, e era nesse inchaço que começava a 
desenhar-se a via-sacra do incumprimento definitivo.
Olha, meu estupor, sabes o que acontece às casas que as pessoas te 
entregam? Sabes, pois… São vendidas por tuta e meia, o que quer dizer que 
na maior parte dos casos, o pessoal apesar de te ter dado a casa fica 
também com a dívida. Não vale a pena falar-te do sofrimento, da vergonha, 
do vexame que integra a penhora de uma casa, porque tu não tens alma, 
banqueiro que és.

Tal como não vale a pena referir-te que os teus lucros vêm de crimes 
sucessivos. Furtos. Roubos. Gamanços. Comissões de manutenção. Juros 
moratórios. Juros compensatórios, arredondamentos, spreads, e mais juros de 
todas as cores. Cartões de crédito, de débito, telefonemas de financeiras a 
oferecerem empréstimos clausulados em letrinhas microscópicas, cobranças
directas feitas por lumpen, vale tudo, meu tratante. Mesmo assim tiveste de 
ser resgatado para não ires ao fundo, tal foi a desbunda. E, é claro, quem 
pagou o resgate foram aqueles contra quem falas todo o santo dia.

Este país viveu décadas sucessivas a trabalhar para os bancos. Os
portugueses levantavam-se de manhã e ainda de olhos fechados iam bulir, 
para pagar ao banco a prestação da casa. Vidas inteiras nisto. A grande 
aliança entre a banca e a construção civil tornavam inevitável, aí sim, 
verdadeiramente inevitável, a compra de uma casa para morar. Depois os 
juros aumentavam ou diminuíam conforme era decidido por criaturas que a
gente não conhece. A seguir veio a farra. Os bancos eram só facilidades.
Concediam empréstimos a toda a gente. Um carnaval completo, obsessivo, até 
davam prendas, pagavam viagens, ofereciam móveis. Sabiam bem o que faziam.
Na possante dramaturgia desta crise entram todos, a banca completa e 
enlouquecida, sendo que todos são um só. Depois veio a crise. A banca 
guinchou e ganiu de desamparo. Lançou-se mais uma vez nos braços do estado 
que a abraçou, mimou e a protegeu da queda.

Vens de uma família que se manteve gloriosamente ricalhaça à custa de 
alianças com outros da mesma laia. Viveram sempre patrocinados pelo estado, 
fosse ele ditadura ou democracia. Na ditadura tinham a pide a amparar-vos.
Uma pide deferente auxiliava-vos no caminho. Depois veio a democracia.
Passado o susto inicial, meu deus, que aflição, o povo na rua, a banca 
nacionalizada, viraram democratas convictos. E com razão. O estado, aquela 
coisa que tu dizes que não deve intervir na economia, tem-vos dado a mão 
todos os dias. Todos os dias, façam vocês o que fizerem.

Por isso falas que nem um bronco, com voz grossa, na ingente necessidade de 
cortes nos salários e pensões. Quanto é que tu ganhas, pá?
Peroras infindavelmente sobre a desejável liberalização dos despedimentos.
Discursas sem pejo sobre a crise de que a cambada a que pertences é a 
principal responsável.
Como tu, há muitos que falam. Aliás, já ninguém os ouve. Mas tu tinhas que 
sobressair. Depois do “ai aguenta, aguenta”, vens agora com aquela dos 
sem-abrigo. Se os sem-abrigo sobrevivem, o resto do povo sobreviverá 
igualmente.

Também houve sobreviventes em Auschwitz, meu nazi de merda!
É isso que tu queres? Transformar este país num gigantesco campo de 
concentração?
Depois, pões a hipótese de também tu poderes vir a ser um sem-abrigo. Dizes 
isto no dia em que anuncias 249 milhões de lucros para o teu banco. É o que 
se chama um verdadeiro achincalhamento.

Por tudo isto te punha no pelourinho. Só para seres visto pelos milhares 
que ficaram sem casa. Sem vergastadas. Só um caldo de vez em quando. Podes 
dizer-me que é uma crueldade. Pois é. Por uma vez terás razão. Nada porém 
que se compare à infinita crueldade da rapina, da usura que tu defendes e 
exercitas.

És hoje um dos czares da finança. Vives na maior, cercado pelos sebosos 
Rasputines governamentais. Lembra-te porém do que aconteceu a uns e ao 
outro.

14 comentários:

  1. Eu poderia ter escrito este texto, Pedro!

    Abraço

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    1. Acho que muita gente vai partilhar esse sentimento, Ricardo :))
      Aquele abraço!!

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  2. É o exercício pleno da liberdade de expressão. O Ulrich fala e os outros falam também. É justo.

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    1. Ninguém quer calar ninguém, Firehead.
      Mas liberdade implica responsabilidade.
      E ele foi vulgar.
      Pior, já nao e a primeira vez.

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  3. O texto sem dúvida bem escrito...
    Já o conteúdo na minha modesta opinião deixa muito a desejar.... eu não vi nada de errado nas declarações de Ulrich... acho que este texto é demasiado populista e sem dúvida que há aqui claro aproveitamento da situação em que todos estamos mergulhados ... e dos sentimentos de revolta que todos sentimos.
    Acho até que raza a vulgaridade ....chamando nazi a Ulrich.
    Não me parece que Ulrich tenha insultado ninguém, antes pelo contrario o que eu acho que ee quiz dizer foi o seguinte: se outros conseguem ultrapassar as dificuldades que são ainda maiores que as da maioria, referindo-se aos sem abrigo, nós tb conseguimos..
    Eu acho que isto não insulta ninguém .....
    Ode facto que caracteriza uma pessoa é a sua capacidade de ultrapassar as adversidades e dar a volta por cima....
    Se há quem não entenda a essência do que foi dito é porque só quer ler textualmente
    Convém referir que a melhor literatura que eu conheço não é de leitura imediata os leitores é que tem de se encarregar de a "saber ler".... e interpretar.
    Não pretendo ofender ninguém mas acho que se perde demasiado tempo com fait divers.....
    Teresa

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    1. Tekanelas
      Ele abusou.
      As declarações dele são vulgares.
      Se o que queria dizer era o que você afirma, e eu também acho que era, nao o devia ter feito desta forma.
      E já nao e a primeira vez.
      Alguém com a responsabilidade dele nao pode ter declarações deste teor.

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  4. O Ulrich é muito Poor na capacidade de se expressar. Além disso é arrogante. Considero, por isso, este texto muito pertinente.

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    1. Arrogante, isso mesmo.
      Ao ponto de ser irritante.
      E ficou a jeito para levar o troco.

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  5. Muito bem escrito, Pedro.
    Parabéns a Alice Brito.
    Disse o que muita gente gostaria de dizer mas não ata nem desata.

    Acho que vou desafiar Ulrich para um jogo de matraquilhos.
    :)

    Aquele abraço

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  6. Coimbramigo

    Muitas palmas de parabéns à autora!

    Abç

    H

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    1. FerreirAmigo,
      Isto é o que se chama entrar de carrinho para sair de maca.
      O gajo merece!
      Aquele abraço

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  7. Um texto indignado, mas que aponta a dedo as causas das dificuldades atuais de todo um povo: enquanto gente desta laia governar a seu belo prazer, a população será escravizada até ao tutano... :P

    Beijocas!

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  8. Teté,
    E são estes tipos quem realmente governa.
    Já dizia o George Carlin - os políticos são colocados nos lugares para dar a ilusão às pessoas que têm liberdade de escolha.
    Mentira, não têm.
    Quem governa, realmente, são estes senhores.
    Beijocas!

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