16 de agosto de 2012

Quando nos esquecemos de nos lembrar: falhas na memória prospetiva




Artigo publicado no 
“Current Directions in Psychological Science”

Uma equipa de cirurgia fecha uma incisão abdominal e dá 
por concluída uma operação difícil, mas bem-sucedida. 
Semanas mais tarde, o paciente dá entrada nas Urgências 
com dores abdominais. 
O raio x revela que um dos instrumentos cirúrgicos ficou 
esquecido dentro do paciente. 
Por que razão profissionais altamente qualificados esquecem-
se de realizar uma simples tarefa que já executaram várias 
vezes no passado sem qualquer dificuldade? Estudos revelam 
que estes lapsos podem não estar relacionados com descuido 
ou falta de conhecimento, mas com falhas na memória 
prospetiva.

As falhas na memória prospetiva ocorrem normalmente 
quando temos a intenção de fazer algo mais tarde, 
embrenhamo-nos noutras tarefas e perdemos o foco daquilo 
que tínhamos inicialmente intenção de fazer. A memória 
prospetiva depende de vários processos cognitivos, tais como 
o planeamento, a atenção e a gestão de tarefas. Apesar de 
comuns no dia-a-dia, estes lapsos são, na maior parte das 
vezes, irritantes. Contudo, podem acarretar consequências 
trágicas. Todos os anos, por exemplo, morrem bebés 
esquecidos pelos pais dentro dos carros deixados ao sol 
durante o verão.

Muito daquilo que temos intenção de fazer no quotidiano, 
quer seja no trabalho ou em casa, envolve tarefas repetitivas. 
Assim sendo, no caso de tarefas habituais, as nossas intenções 
podem não ser explícitas. Não formulamos, por exemplo, uma 
intenção explícita de colocar a chave na ignição sempre que 
conduzimos um carro – a intenção encontra-se implícita na 
rotina habitual de conduzir.

Dismukes e outros colegas identificaram, em estudos 
anteriores, situações que podem conduzir a falhas de 
memória prospetiva. Interrupções a processos habituais, por 
exemplo, além de serem irritantes no dia-a-dia, podem 
conduzir a situações fatais em determinados contextos. Várias 
catástrofes aéreas ocorreram devido a interrupções enquanto 
o piloto realizava tarefas críticas pré-voo. Depois da 
interrupção, os pilotos passaram para a tarefa seguinte sem se 
darem conta de que a tarefa interrompida não tinha sido 
concluída.

Apesar de parecer que nos adaptamos bem a realizar várias 
tarefas em simultâneo, estudos demonstram que, quando 
surge um problema numa das tarefas, temos a tendência para 
dar atenção a essa tarefa específica e esquecermo-nos das 
restantes.

Para nos protegermos de falhas de memória prospetiva e das 
suas consequências potencialmente catastróficas, os 
profissionais da aviação e da medicina, por exemplo, 
passaram a adotar ferramentas específicas para apoiar a 
memória, tais como listas de verificação. Estudos revelam 
ainda que intenções de implementação (por exemplo, 
identificar quando e onde será realizada uma determinada 
intenção) pode ajudar a prevenir falhas semelhantes. 

Dismukes afirma que ter um plano concreto ajuda a melhorar 
duas a quatro vezes mais a memória prospetiva em tarefas 
como o exercício físico, adesão a medicação, autoexame da 
mama e trabalhos de casa.

Além das listas de verificação e intenções de implementação, 
Dismukes e outros investigadores apontam outras formas de 
ajudar a lembrar e executar determinadas tarefas:

•    Usar ferramentas externas de apoio à memória, tais como alarmes no calendário do telemóvel;

•    Evitar realizar várias tarefas em simultâneo quando uma das tarefas é importante;

•    Executar tarefas importantes no momento e não mais tarde;

•    Colocar avisos que se destaquem e em locais onde seja fácil vê-los;

•    Relacionar a tarefa-alvo com um hábito que já esteja estabelecido.

“Em vez de culpar os indivíduos por lapsos inadvertidos na 
memória prospetiva, as organizações podem melhorar a 
segurança através do apoio à colocação em prática destas 
medidas”, defende Dismukes. Este investigador sugere ainda 
que os cientistas devem combinar a investigação em 
laboratório com a observação das ações humanas no mundo 
real de forma a compreender melhor como funciona a 
memória prospetiva e desenvolver estratégias práticas para 
evitar falhas.

4 comentários:

  1. Ainda assim não é desculpa para a negligência médica. :)

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  2. A minha irmã é médica-cirurgiã. Vou enviar-lhe este post por email. Que terá ela a dizer sobre isto?

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  3. FireHead,
    Claro que não.
    Mas é uma explicação para alguns casos.


    L.O.L.,
    Depois diga-nos qual foi a reacção da sua irmã.


    Carlos,
    Em muitas situações, são cá de uma largura!!!

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