2 de agosto de 2012

A PORTA (Mia Couto)




Era uma vez uma porta que, em Moçambique, abria para Moçambique. Junto da porta havia um porteiro. Chegou um indiano moçambicano e pediu para passar. O porteiro escutou vozes dizendo:
- Não abras! Essa gente tem mania que passa à frente!
E a porta não foi aberta. Chegou um mulato moçambicano, querendo entrar.
De novo, se escutaram protestos:
- Nao deixa entrar, esses não são a maioria.
Apareceu um moçambicano branco e o porteiro foi assaltado por protestos:
-Não abre! Esses não são originais!
E a porta não se abriu. Apareceu um negro moçambicano solicitando passagem. E logo surgiram protestos:
- Esse aí é do Sul! Estamos cansados dessas preferências...
E o porteiro negou passagem. Apareceu outro moçambicano de raça negra, reclamando passagem:
- Se você deixar passar esse aí, nós vamos-te acusar de tribalismo!
O porteiro voltou a guardar a chave, negando aceder o pedido.
Foi então que surgiu um estrangeiro, mandando em inglês, com a carteira cheia de dinheiro. Comprou a porta, comprou o porteiro e meteu a chave no bolso.
Depois, nunca mais nenhum moçambicano passou por aquela porta que, em tempos, se abria de Moçambique para Moçambique.

7 comentários:

  1. Excelente, Caro Pedro
    O Mia Couto dá-nos exemplos muito viradospara o quotidiano.
    Maldito dinheiro!
    Abraço
    Rodrigo

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  2. Rodrigo,
    Mia Couto é um dos meus autores favoritos.
    Estou para comprar mais um livro dele (Venenos de Deus, Remédios do Diabo) que ando há muito tempo para ler.
    Um tipo genial!!
    Aquele abraço

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  3. Os livros e os textos dele lêem-se de um fôlego, António.

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  4. O estrangeiro em questão era um negro que falava inglês? De África do Sul, será? :P

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  5. Mia Couto é genial, mas infelizmente não é muito popular entre os portugueses.

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  6. FireHead,
    Não faço ideia.
    Sei que este é mais um dos excelentes escritos do Mia Couto.

    Carlos,
    Este português é um fã incondicional.
    A escrita dele é excepcional!

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