4 de junho de 2012

Vinte e três anos depois, os erros mantêm-se


Quatro de Junho de 1989, uma data negra na História milenar da China, uma data negra na História do Mundo.
Em Tiananmen, o exército chinês esmagava brutalmente a revolta estudantil que tinha tomado a Praça e exigia reformas políticas profundas na República Popular da China.
O número exacto de vítimas, e de prisioneiros, ainda não é conhecido.
Talvez nunca o venha a ser.
Mas, vinte e três anos depois, se o regime chinês insiste no erro de não reconhecer o massacre e de apelidar de terroristas os promotores do protesto, o resto do Mundo insiste num erro que não pode ser considerado menos grave.
O de classificar os estudantes presentes em Tiananmanen, tal como os participantes de outros movimentos que se encontram na mesma linha de actuação, como dissidentes.
Escrevi-o neste blogue em Dezembro de 2010, reafirmo-o agora - trata-se não só de um disparate, como de uma mentira e de uma ofensa.
Quando falamos dos estudantes presentes em Tianamen, para sermos rigorosos e justos com pessoas livres, corajosas, íntegras, devemos falar de Activistas.

E activistas porque partidários do activismo, da " (...)doutrina segundo a qual a verdade não é tanto questão de pura inteligência como de acção; tendência para a actividade política e exaltada". 

Ou seja, de pessoas que, sem receios, se entregam a uma causa.

Coisa bem diferente de um dissidente.

Porque dissidente é aquele "(...) que se separou de um grupo político ou religioso, por discordância com a maioria". 
Compreende-se facilmente que se queira colar este rótulo aos movimentos de protesto como aquele que se viveu em Tiananmen.
Rótulo que os regimes totalitários tendem a colar a todos aqueles que não seguem a linha oficial. 
Um rótulo que transporta consigo uma óbvia conotação ou carga  pejorativa.
O dissidente é quase um traidor.
Alguém que negou os seus ideais.
Precisamente o oposto do que são, e do que representam, entre outros, os estudantes que foram massacrados na Praça Celestial.
Vinte e três anos depois, este é mais um erro, mais uma injustiça, que devem ser, finalmente, corrigidos.

11 comentários:

  1. Pedro,

    de facto, existem muitos pontos que merecem ser esclarecidos e clarificados, não sei - e essa é realidade - se o Governo Chinês alguma vez estará preparado para fazer o "mea culpa", quando mais não seja em memória dos chineses que pereceram nessa "Batalha".

    Na realidade, quando já passou quase um quarto de século sobre essa "ocorrência" em Tiananmen, apetece-me perguntar o seguinte:

    Para quando o verdadeiro e cabal esclarecimento dos factos?

    Essencialmente,

    Para quando a verdade?


    Grande abraço e tenha uma excelente semana para si e família, Pedro!

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  2. Caro Pedro
    Faz parte. Os partidos de inspiração Stalinista, são incapazes de fazer as pazes com o seu passado.
    Abraço e boa semana.
    Rodrigo

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  3. Caro confrade Pedro Coimbra!
    Como o tempo urge... Parece que foi ontem que ficamos chocados com este massacre...
    Caloroso abraço! Saudações inconformadas.
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Diadema-SP

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  4. Ricardo,
    Uma pergunta de resposta virtualmente impossível.
    O que se pode dizer, com grande grau de certeza, é que as próximas gerações de líderes, que já se vão conhecendo, ainda não se mostram preparadas para reconhecer o erro e pedir desculpa pelo mesmo.

    Aquele abraço e votos de uma excelente semana para si e família!


    Rodrigo,
    Cabe-nos a nós não deixar cair no esquecimento estes horrores.
    O que se vai comentando, com toda a propriedade, é que o Leste Europeu foi capaz de fazer a destalinização dos regimes políticos; o regime político chinês não foi ainda capaz de fazer a desmaoização.
    Nem se sabe quando o fará.
    Aquele abraço e votos de boa semana


    Caro Prof. João Paulo de Oliveira,
    Massacre é o adjectivo exacto para descrever o que se passou faz hoje 23 anos.
    Tanques e artilharia em cima de jovens desarmados não podem ser qualificados de outra forma.
    Aquele abraço e votos de boa semana

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  5. Apesar de tudo, vamos manter a confiança de que, aos poucos, as coisas estão mudando...

    Bjsss!♥

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  6. Mas no fundo dissidentes ou activistas são a mesma coisa, pois são os que estão contra o sistema. E a China nesse aspecto não perdoa.
    Devemos ter sempre em mente que o conceito de Direitos Humanos não é igual para todos.

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  7. Pedro
    Horrores que me deixam sem palavras.
    Boa semana

    Beijinho e uma flor

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  8. Lembro-me desse dia como se fosse hoje, Pedro. Era sábado, grau 7 e não fui trabalhar. Estava na Pousada de Mong- Ha e fiquei a ver os acontecimentos em directo pela CNN, até a emisssão ter sido interrompida...

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  9. Mari Rehermann,
    Há mudanças, é inegável.
    Mas mantém-se a teimosia de negar o que é óbvio, de não reconhecer os erros cometidos.
    Erros que ceifaram a vida a mutas pessoas (ninguém sabe quantas).
    Bjs


    FireHead,
    Não são a mesma coisa, não.
    Nem nada parecido!
    Activistas opõem-se ao sistema político existente e combatem-no, sem NUNCA terem pactuado com o mesmo.
    Dissidentes são os que saíram desse sistema para depois o criticarem.
    Veja a subtileza.

    O conceito de Direitos Humanos, como está definido pela Declaração Universal de Direitos do Homem e do Cidadão, é muito simples, FireHead.
    E não tem nada a ver com o que a China nos quer impingir.


    Adélia,
    Horror, é essa a palavra.
    Beijinho e boa semana


    Carlos,
    É um dia difícil de esquecer.
    E que é bom que não seja esquecido.

    Num aparte, a minha mulher foi Directora da Pousada de Mong-Ha uma série de anos :))
    Foi lá que a conheci.
    Em 1989 ainda não era, ainda estava a estudar.
    Foi a seguir.

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  10. A questão não é a origem do activista e do dissidente, mas sim a forma: estão ambos contra o sistema. Em relação aos Direitos Humanos, eles foram moldados à mentalidade do ocidental. A China vê nessa Declaração como uma imposição estrangeira e bem sabe você que a China não admite ingerências nos seus assuntos internos. Aí, são os chineses que se sentem no direito de considerar que o Ocidente é que está a querer impingir uma visão da qual eles não partilham.

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  11. Depois da intervenção daquela luminária do PCP já nem me atrevo a dizer nada.
    Aquela gente existe, FireHead?

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